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27 de Março de 2019, Quarta Feira, 23h15

CCLIX.
O próprio nome, livre-arbítrio, era detestável para todos os Padres. Eu, de minha parte, admito que Deus deu à humanidade um livre arbítrio, mas a questão é se esta mesma liberdade está em nosso poder ou não? Podemos muito apropriadamente chamá-lo de vontade subvertida, perversa, inconstante e vacilante, pois é somente Deus que trabalha em nós, e devemos sofrer e estarmos sujeitos a seu prazer. Mesmo que um oleiro de barro quiser fazer um vaso ou um pote, assim é para nosso livre arbítrio, suportar e não trabalhar. Não está em nossa força; porque não podemos fazer nada que seja bom em assuntos divinos.


CCLX.
Muitas vezes tenho decidido a viver em retidão, a levar uma vida piedosa e a deixar tudo de lado, mas estava longe de por essa vida em prática; assim como foi com Pedro quando jurou que daria a sua vida por Cristo.

Não vou mentir diante do meu Deus, pois confesso livremente que não sou capaz de realizar o bem que pretendo, mas aguardo o agradável tempo em que Deus terá o prazer de me receber com a sua graça.

A vontade humana é presunçosa ou desesperadora. Nenhuma criatura humana pode satisfazer a lei. Pois a lei de Deus discursa comigo, por assim dizer, desta maneira: Eis um grande, alto e íngreme monte, e tu deves passar por ele; com o que minha carne e livre arbítrio dirão, eu irei sobre esta passagem; mas a minha consciência diz: Tu não podes passar por isso; então vem o desespero e diz: Se eu não puder, então devo tolerar. Nesse caso, a lei funciona na humanidade presunçosa ou desesperada; mas a lei deve ser pregada e ensinada, pois se não pregarmos a lei, as pessoas tornam-se rudes e ousadas, ao passo que, se a pregarmos, a tornamos amedrontadas.


CCLXI.
Santo Agostinho dizia que o livre-arbítrio, sem a graça de Deus e o Espírito Santo, nada pode senão pecar; tal sentença incomodava os professores da escola. Eles diziam que Agostinho falou de uma maneira exagerada; pois eles entendiam que essa parte da Escritura deve ser entendida apenas a respeito das pessoas que viveram antes do dilúvio que diz: "E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente, etc."; enquanto Agostinho fala de um modo geral, estes pobres teólogos não veem mais o que o Espírito Santo diz, logo após o dilúvio: "E o Senhor disse em seu coração: Eu nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, pois a imaginação do coração do homem é má desde a sua juventude".

Portanto, concluímos em geral que o homem sem o Espírito Santo e sem a graça de Deus, não pode fazer nada a não ser pecar; ele prossegue sem intermissão, caindo em um pecado e em um outro, e assim sucessivamente. Agora, se o homem não tolerar a saudável doutrina, e passar a condenar a Palavra salvadora, e resistir ao Espírito Santo; então, através dos efeitos e da força de seu livre-arbítrio, ele se tornará inimigo de Deus; ele blasfema contra o Espírito Santo e passa a seguir as concupiscências e desejos do seu próprio coração, como temos visto em toda a história da humanidade.

Mas devemos ponderar diligentemente as palavras que o Espírito Santo diz através de Moisés: "Toda imaginação dos pensamentos de seu coração é continuamente má"; de modo que quando um homem é capaz de conceber com seus pensamentos, com o seu entendimento e livre-arbítrio, pela maior diligência, torna-se mal, e não uma ou duas vezes, mas continuamente; sem o Espírito Santo, a razão, a vontade e a compreensão do homem passa a ser contra a erudição de Deus; e ficar sem o conhecimento dEle, nada mais é que ser um ímpio e andar nas trevas.

Eu falo apenas daquilo que é bom das coisas divinas e de acordo com as Sagradas Escrituras; pois precisamos fazer a diferença entre o que é temporal e o que é espiritual, entre a política e a divindade; pois Deus também permite o governo dos ímpios, e recompensa suas virtudes, mas somente na medida em que pertence a essa vida temporal; pois a vontade e a compreensão do homem concebem que ser bom é externo e temporal - não, não é apenas o bem, mas o bem principal.

Mas quando nós, teólogos, falamos do livre-arbítrio, perguntamos qual é o livre-arbítrio que o homem pode realizar em assuntos espirituais, não em assuntos temporais; e concluímos que o homem, sem o Espírito Santo, é totalmente iníquo diante de Deus, embora tenha sido adornado e aparado com todas as virtudes dos pagãos e com todas as suas obras.

Pois, de fato, existem exemplos justos no paganismo, de muitas virtudes, onde os homens eram moderados, castos, generosos; amavam seu país, seus pais, esposas e filhos; eram homens de coragem e comportavam-se generosamente.

Mas as ideias da humanidade a respeito de Deus, a verdadeira adoração e a vontade de Deus, são completamente cegadas pelas trevas. Pois a luz da sabedoria humana, a razão e a compreensão, que somente é dada ao homem, compreendem apenas o que é bom e proveitoso exteriormente. E, embora vemos esses filósofos pagãos discursando sobre Deus, de modo que alguns se acham profetas de Sócrates, de Xenofonte, de Platão, etc., mesmo assim, eles não reconhecem que Deus enviou seu Filho, Jesus Cristo, para salvar os pecadores. Portanto, tais discursos cheios de glória e sabedoria não passam de mera cegueira e ignorância.


CCLXII.
Ah, Senhor Deus! Por que nos gabamos do nosso livre-arbítrio, como se fosse capaz de fazer qualquer coisa tão pequenas em questões religiosas e espirituais? Quando refletimos as terríveis misérias que o diabo nos trouxe através do pecado, acabamos que nos envergonhando até a morte.

Pois, primeiro, o livre-arbítrio nos conduziu ao pecado original e nos trouxe a morte. Não só nos trouxe a morte mas, também, todo tipo de dano que encontramos diariamente nesse mundo - assassinato, mentira, traição, roubo, e outros males; de modo que nenhum homem está seguro; desde um piscar de olho, sempre estamos em perigo.

E além destes males, há um que é pior, como observado no evangelho - ou seja, aquele que é possuído pelo diabo levando-o a fúria e a loucura.

Não sabemos com razão o que nos tornamos após a queda dos nossos primeiros pais; o que carregamos de nossas mães. Pois temos uma natureza completamente confusa, corrupta e envenenada, tanto no corpo como na alma; em toda a humanidade não há nada que seja bom.

Esta é a minha opinião: aquele que sustenta que o livre-arbítrio do homem é capaz de fazer ou modificar qualquer coisa em casos espirituais, por nunca serem tão pequenos, negam a Cristo. Isso eu mantive em meus escritos, especialmente naqueles contra Erasmo, um dos homens mais instruídos do mundo, e assim permanecerei, pois sei que é verdade, embora todo mundo deva ser do contra; sim, o decreto da Divina Majestade deve permanecer firme contra os portões do inferno.

Eu confesso que a humanidade tem um livre-arbítrio, mas para ordenhar vacas, construir casas, etc., não mais além disso; desde que o homem se sinta seguro, não passando por necessidades, possui o tempo que for preciso de seu livre-arbítrio, que é a capacidade de realizar alguma coisa; mas quando o desejo e a necessidade aparecem, de modo que não há nem carne, nem bebida, nem dinheiro, então qual é o livre-arbítrio? Fica completamente perdido e acaba não suportando quando se trata do aperto. A fé somente permanece firme quando buscamos a Cristo. Portanto, a fé é algo diferente do livre-arbítrio: o livre-arbítrio não é nada, mas a fé é tudo em todos. Será que somos ousados em fazer com que o nosso livre-arbítrio nos acompanhe quando a peste, as guerras e os tempos de carência e fome estão à mão? Não: em tempo de peste, nós não sabemos o que fazer por medo; nós desejamos tais problemas a cem milhas de distância. No tempo da perdição nós pensamos: O que vamos comer?; Nossa vontade não pode dar para o coração o menor conforto nestes tempos de necessidade; e quando mais contermos, mais ficamos debilitados de coração como uma folha. Estes são os atos valentes que o nosso livre-arbítrio pode nos alcançar.


CCLXIII.
Alguns doutores alegam que o Espírito Santo não opera naqueles que o resistem, mas somente naqueles que estão dispostos a darem o seu consentimento, de onde o livre-arbítrio se apresenta apenas como uma causa e auxiliador da fé e que, consequentemente, a fé sozinha não justifica, e que o Espírito Santo não age sozinho através da Palavra, mas que a nossa vontade possui algum propósito nisso.

Mas digo que não é assim; a vontade humana em nada opera em sua conversão e justificação; outras razões são justificadas para sed marerialis tantum. É a questão sobre a qual o Espírito Santo age (como um oleiro faz com um pote de barro), igualmente naqueles que resistem e são avessos, como S. Paulo. Mas depois que o Espírito Santo molda a vontade de tais resistentes, então a vontade passa a ser consentido para isso.

Eles alegam mais que o exemplo da conversão de São Paulo foi uma obra particular e especial de Deus e, portanto, não pode ser trago para uma regra geral. Eu respondo: assim como São Paulo se converteu, assim será como todos os outros convertidos; porque todos nós resistimos a Deus, mas o Espírito Santo tira a vontade humana, quando lhe agrada, através da pregação.

Mesmo que ninguém possa legalmente ter filhos (fora do casamento), e mesmo as pessoas casadas não tenham filhos, assim o Espírito Santo não trabalha sempre através da Palavra, mas quando lhe agrada, de modo que o livre arbítrio não faz nada interiormente em nossa conversão e justificação diante de Deus, nem mesmo através da nossa própria vontade - não, não mesmo, a menos que sejamos feitos e preparados pelo Espírito Santo.

As frases das Sagradas Escrituras que falam sobre predestinação, como "Nenhum homem pode vir a mim a não ser que o Pai o atraia", parecem nos aterrorizar; todavia, tais versículos mostram que nada podemos fazer, através da nossa própria vontade, o que é bom diante de Deus. Mas, através das mentes piedosas que oram, pode-se chegar a uma conclusão que estão predestinadas.

Ah! Por que devemos nos gabar de que o nosso livre-arbítrio pode fazer alguma coisa na conversão do homem? Vemos o inverso nas más pessoas que são corporalmente possuídas pelo diabo quando se desviam e, logo, com dificuldades, é expulso. Verdadeiramente, somente o Espírito Santo pode expulsá-lo, como Cristo diz: "Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente a vós é chegado o reino de Deus". Ou seja, se o reino de Deus virá sobre você, então o diabo deve primeiro ser expulso, pois o seu reino é oposto ao reino de Deus, como vocês mesmos confessam. Agora se o diabo não for expulso pelo dedo de Deus, então o seu reino subsiste lá; e onde está o reino do diabo, não há o reino de Deus.

E novamente, enquanto o Espírito Santo não vier até nós, não seremos apenas incapazes de fazer algo bom, mas também estaremos no reino do diabo fazendo-lhe o que é agradável.

O que São Paulo poderia fazer para se libertar do mal, embora haja muitas pessoas na Terra presentes em ajudá-lo? Sinceramente, absolutamente nada; ele foi forçado a passar, com sofrimento, por tudo aquilo que fazia o diabo satisfeito, até que o nosso bendito Salvador Cristo veio com poder divino.

Agora, se ele não pudia se livrar do demônio, no sentido carnal, como esse mal deveria sair de sua alma através de sua própria vontade? Pois a alma era a causa do corpo estar possuído, o que também era uma punição pelo pecado. É mais difícil livrar-se do pecado do que da punição; a alma é sempre a mais possuída do que o corpo; o diabo deixa para o corpo a sua força natural e atividade; mas a alma ele perde de entendimento, razão e poder, como vemos em pessoas possuídas.

Vamos marcar como Cristo retrata o diabo. Ele o nomeia como uma fortaleza gigante que mantém um castelo; isto é, o diabo não tem apenas o mundo em sua posse, como seu próprio reino, ele também o fortalece de uma tal maneira que nenhuma criatura humana pode tirá-lo dele; modelando o mundo de acordo com os seus próprios desejos. Agora, tanto quanto um castelo é capaz de se defender contra o tirano que nele existe, tanto o livre-arbítrio e a força humana são capazes de se defender contra o diabo; isto é, de jeito nenhum são capazes. E assim como o castelo deve ser vencido por um gigante mais forte, para o tirano ser derrotado, da mesma maneira a humanidade deve ser libertada do diabo através de Cristo. Nisto vemos claramente que os nossos atos não podem ajudar em nada para a nossa libertação, mas somente pela graça e poder de Deus.

Oh! Quão confortável é o evangelho de Cristo, nosso Salvador, por mostrar seu coração amável a nós, pobres pecadores, que nada podemos fazer por nós mesmos para nossa salvação.

Visto que como uma ovelha boba não pode dar ouvidos a si mesma, para que não erre, nem se desvie, a menos que o pastor sempre a conduza; sim, e quando ela errar, se extraviar e se perder, não vai conseguir encontrar o caminho certo, e o pastor irá atrás dela até encontrá-la, e quando ele a encontrar, irá carregá-la até o fim para que ela não se perca novamente, ou seja rasgada pelo lobo: assim também nós não podemos nos ajudar, nem atingir uma consciência pacífica, nem fugir do diabo, da morte e do inferno, a menos que o próprio Cristo nos chame pela sua Palavra; e quando chegamos a Ele e adquirimos a fé verdadeira; ainda assim nós, por nós mesmos, não somos capazes de nos manter nEle, nem em permanecer de pé, a menos que Ele sempre nos sustente através da Palavra e do Espírito, visto que o diabo está por toda parte à espreita de nós, como um leão que ruge, procurando nos devorar.

Eu gostaria de saber de como alguém que não sabe nada sobre Deus, pode saber governar a si mesmo; como essa pessoa, que foi concebida em pecado, assim como todos nós, e é por natureza o filho da ira, e inimigo de Deus, pode saber como encontrar o caminho certo e permanecer nele, como Isaías diz: "Nada poderão fazer, a não ser encolher-se entre os prisioneiros ou cair entre os mortos". Como seria possível defendermos do diabo, que é príncipe deste mundo, e nós seus prisioneiros, já que, com toda a nossa força, não somos capazes de impedir uma folha cair no chão ou uma mosca nos ferir? Eu digo, como nós, miseráveis infelizes, podemos alcançar o conforto, a ajuda e conselhos contra o julgamento de Deus, já que não podemos, por nós mesmos, encontrar o caminho verdadeiro devido aos nossos pecados obtidos pelas experiências cotidianas?

Portanto, você pode corajosamente concluir que tão pouco uma ovelha pode se ajudar, e que precisa esperar por toda a assistência do pastor, assim também é uma criatura humana que pode encontrar consolo de si mesmo, em casos relativos à salvação, mas deve ter paciência e esperar tal consolo somente de Deus, seu pastor, que está mil vezes mais disposto a fazer tudo de bom para suas ovelhas, do que um pastor comum para as suas.

Agora, vendo que a natureza humana, através do pecado original, é completamente podre e pervertida, tanto exterior quanto interiormente, em corpo e alma, onde está o livre arbítrio e a vontade humana então? Onde as tradições humanas, e os pregadores das obras, que ensinam que devemos fazer uso de nossas próprias habilidades e obras, podemos obter a graça de Deus e, como dizem, somos filhos da salvação? Oh, doutrina tola e falsa! - pois estamos completamente despreparados com nossas habilidades, com a nossa força e nossa obra, quando se trata de combate para suportar ou resistir. Como pode aquele homem ser reconciliado com Deus, a quem ele não suporta, mas sobrevoa para uma criatura humana, esperando mais amor e favor daquele que é pecador, do que ele faz de Deus? Não é este um excelente livre-arbítrio para a reconciliação e a expiação?

Os filhos de Israel no Monte Sinai, quando Deus lhes deu os Dez Mandamentos, mostrou claramente que a natureza humana e o lívre arbítrio em nada podem fazer diante de Deus; pois temiam que Deus agisse contra eles subitamente, segurando-o apenas por um mal, um carrasco, que não fazia nada além de agitação e fúria.



Fonte: CRTA - Center for Reformed Theology and Apologetics
Tradução para o português: Marcell de Oliveira




"Conversas à Mesa" de Lutero
(Defesa da Fé Cristã)
"Conversas à Mesa" (Tischreden, em alemão) é a compilação de anotações feitas por alunos e colaboradores de Martinho Lutero durante encontros informais, como as refeições. A primeira edição das Tischreden foi publicada por Johann Aurifaber, em 1566, vinte anos após a morte de Lutero. A edição completa, porém, só foi publicada em 1836. O texto utilizado aqui vem da tradução para o inglês que o capitão Henry Bell traduziu e publicou por volta de 1650. Semanalmente, publicaremos aqui porções do texto traduzido.

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