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13 de Dezembro de 2017, Quarta Feira, 00h28

CLXXXII.
A principal lição e estudo sobre a divindade é que aprendamos o bem e, com razão, conhecermos a Cristo, que está aqui muito graciosamente representado para nós. Nos esforçamos para conciliar a boa vontade e a amizade dos homens, para que eles possam nos mostrar uma compostura favorável; devemos nos conciliar com o nosso Senhor Jesus Cristo, para que Ele possa ser misericordioso conosco. São Pedro diz: "Cresça no conhecimento de Jesus Cristo", deste Senhor e Mestre compassivo, a quem todos deveriam aprender a conhecê-lo somente pelas Escrituras, pois Ele mesmo diz: "Procure as Escrituras, pois elas testemunham de mim". São João diz: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus", etc. O apóstolo Tomé também chama Cristo de Deus; quando ele diz: "Meu Senhor e meu Deus". Da mesma maneira, em Romanos IX, São Paulo nos mostra Cristo como Deus; onde ele diz: "Quem é Deus sobre todos, abençoado para sempre. Amém". Em Coloss. II diz: "Em Cristo habita toda a plenitude da divindade"; isto é, substancialmente. Cristo deve ser visto como o Deus verdadeiro, pois Ele próprio cumpriu e superou a lei; é mais que certo que nenhum anjo ou criatura humana poderia superar a lei, mas somente Cristo, para aqueles que nEle crêem não possam serem prejudicados; portanto, certamente Ele é o Filho de Deus, o autêntico Deus. Agora, se compreendêssemos a Cristo de acordo com as Sagradas Escrituras, então é certo que não há com que nos confundirmos. E então podemos julgar facilmente o que é correto e manter as qualidades divinas, religiões e adoração, que são usadas e praticadas nesse mundo. Se esta imagem de Cristo for removida de nossas visões, inegavelmente haveria um transtorno absoluto. A natureza humana, sua sabedoria e compreensão, não tem o direito de julgar as leis de Deus; mesmo que se esgotem as artes de todos os filósofos, sábios e mundanos entre os filhos dos homens. Pois a lei governa a humanidade; portanto, a lei julga a humanidade e não a própria lei.

Se Cristo não é Deus, então nem o Pai e nem o Espírito Santo poderiam ser Deus; pois o nosso artigo de fé fala assim: "Cristo é Deus, com o Pai e o Espírito Santo". São muitas pessoas que falam da divindade de Cristo, como o papa e muitos outros; mas eles discursam como um cego que fala sobre cores. Portanto, quando ouço falar de Cristo dizendo: "Vinde após mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei", então acredito firmemente que toda a divindade mostra uma substância indivisível e inseparável. Portanto, aquele que prega um deus que não morreu por mim na cruz, este deus eu não o receberei.

Aquele que possui este artigo, possui o principal e fundamental artigo de nossa fé em meio a esse mundo ridículo e insignificante. Cristo disse: "O Consolador que eu enviarei, não se afastará de você, mas permanecerá contigo, e te fará capaz de suportar todas as tribulações e maldades". Quando Cristo diz: "Vou orar ao Pai", então Ele fala como uma criatura humana, ou como o próprio homem; mas quando Ele diz que irá enviar o Consolador, então ele fala como o próprio Deus. Então eu aprendi neste meu artigo desta forma: "Que Cristo é Deus e homem".

Eu, pela minha própria experiência, sou capaz de testemunhar que Jesus Cristo é o Deus verdadeiro; eu O conheço muito bem quando encontrei o Teu Nome. Muitas vezes eu estive tão perto da morte e tive aquela certeza que iria morrer, mas nada me impediu em proclamar a Palavra a esse mundo perverso; mas Ele sempre depositou misericórdia em minha vida, me consolando e me refrescando. Portanto, usemos a presteza para manter a Sua Palavra, e então tudo estará seguro, embora o diabo tenha sido tão perverso e esperto, e o mundo sempre tão mal e hipócrita. Seja o que for que aconteça comigo, certamente abrirei caminho para o meu doce Salvador Jesus Cristo, pois nEle sou batizado; eu não posso saber de nada, apenas o que Ele me ensinou.

As Sagradas Escrituras, especialmente São Paulo, atribuem em todo lugar a Cristo o que Ele dá ao Pai, ou seja, o poder divino e todo poderoso; para que Ele possa dar graça, paz na consciência, perdão de pecados, vida, vitória sobre o pecado, sobre a morte e sobre o diabo. Agora, a menos que São Paulo roubasse de Deus a sua honra, e dê a outro que não é Deus, não ousou atribuir tais propriedades e atributos a Cristo, como se não fosse o Deus verdadeiro; e o próprio Deus disse em Isaías XIII: "Não darei minha glória a outro". E, de fato, nenhum homem pode dar aquilo que ele não tem para o outro; mas, vendo Cristo um doador da graça, da paz, e do Espírito Santo, Ele tem o poder de nos resgatar do diabo, do pecado e da morte; e assim é muito certo de que Ele tem um poder infinito, imensurável e bem poderoso, igual ao Pai.

Cristo também nos traz a paz, mas não como os apóstolos fizeram por meio da pregação; Ele nos dá a paz, como o Criador, para nós, que somos sua própria criatura. O Pai cria e dá a vida, a graça e a paz; e da mesma maneira dá ao Filho os mesmos presentes. Agora, para fornecer graça, paz, vida eterna, perdão de pecados, justificação, salvação, livramento da morte e do inferno, certamente essas coisas não são obras de nenhuma criatura, mas da única majestade de Deus, são coisas que nem mesmo os anjos podem criar ou fornecer. Portanto, tais obras pertencem à alta majestade, honra e glória de Deus, que é o único e verdadeiro Criador de todas as coisas. Nós não devemos pensar em nenhum outro Deus a não ser Cristo; o Deus que não fala da boca de Cristo, simplesmente não é Deus. Deus, no Antigo Testamento, se ligou ao trono da graça; havia o lugar onde Ele seria ouvido, desde que a política e o governo de Moisés se levantasse e florescesse. Da mesma maneira, Ele ainda não ouviria nenhum outro homem ou criatura humana, mas somente através de Cristo. À medida em que o número de judeus iam aumentando de um lado para o outro, carregando seus incensos e oferendas aqui e ali, e buscando a Deus em vários lugares, não em relação ao tabernáculo, e assim vai; Buscamos a Deus em todos os lugares; mas se não buscá-lo em Cristo, não o encontraremos em lugar algum.


CLXXXIII.
A festa que chamamos de Annunciation Mariae nos remete a mensagem de Deus que Maria recebeu do anjo para que ela conceba seu Filho, também pode ser chamada de "Festa da Humanidade de Cristo", pois foi a partir daí que teve início a nossa libertação. O mistério da humanidade de Cristo, que se humilhou em nossa carne, está além do nosso entendimento humano.


CLXXXIV.
Durante esses 33 anos que Cristo viveu, em cada ano ele subiu 3 vezes para Jerusalém, completando 99 vezes que Ele foi para lá. Se o papa pudesse demonstrar que Cristo tinha ido em Roma pelo menos uma única vez, que alarde ele faria! Porém Jerusalém foi destruída e enterrada.


CLXXXV.
São Paulo nos ensinou que desde que Cristo nasceu até o seu fim, Ele poderia ter restaurado tudo o que foi criado como foi no começo do mundo; isto é, levar-nos ao conhecimento de nós mesmos e do nosso Criador, para que possamos aprender a conhecer quem e o que fomos, e quem e o que somos agora; ou seja, que fomos criados segundo a semelhança de Deus, e depois, de acordo com a semelhança do homem; que nós fomos enfeitiçados pelo diabo e nos mergulhamos no pecado, e ficamos totalmente perdidos e destruídos; mas agora podemos ser libertos novamente, nos tornando puros, justificados e salvos.


CLXXXVI.
No dia da concepção de nosso Salvador Cristo, nós, pregadores, devemos diligentemente nos colocar diante do povo e marcar completamente em seus corações a história desta festa, que é apresentado por São Lucas em uma linguagem simples e clara. E devemos nos alegrar com essas coisas abençoadas, mais do que todo o tesouro da terra, sem questionar como aconteceu, pois nem o céu e nem a terra podem compreender, de como Ele foi incluso no corpo puro de sua mãe. Tais discussões impedem as nossas alegrias dando crédito a dúvidas e questionamentos.

Bernard ocupou todo o sermão com esta festa, em louvor a Virgem Maria, esquecendo-se do grande autor deste conforto, que este dia Deus foi feito homem. Na verdade, não podemos deixar de exaltar e louvar a Maria, que foi tão favorecida pelo Senhor, mas quando o próprio Criador vem, Aquele que nos livra do poder do diabo, nem nós, nem os anjos, podemos honrar, louvar e adorar.

O próprio Turco, que acredita em Deus como o criador de todas as coisas, e crê que Cristo é apenas um profeta, e nega que seja o Filho de Deus unicamente gerado, verdadeiro e natural.

Mas eu, Deus seja louvado, pelo conhecimento que tenho das Sagradas Escrituras, e pela experiência em minhas provações, tentações e ferozes combates contra o diabo, provo que este artigo da humanidade de Cristo é muito seguro e infalível; pois o que mais me ajudou nessas tentações espirituais foi o conforto que encontrei neste artigo, de que Cristo, o verdadeiro Filho do Deus Eterno, é a nossa carne e osso, como diz São Paulo aos Efésios cap. V: "Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos." Ele está à direita de Deus e intercede por nós. Com este escudo da fé, posso retirar aquele perverso com todos os seus dardos ardentes.

Deus, desde o início, manteve-se firme nesse artigo e defendeu poderosamente o mesmo contra todos os hereges, o papa e o turco; e depois foi confirmado com muitos sinais milagrosos, de modo que todos os que se opuseram foram levados à ruína.


CLXXXVII.
Toda sabedoria do mundo é uma tolice infantil em comparação com a sabedoria de Cristo. Para o que é mais maravilhoso do que o indizível mistério, o Filho de Deus, a imagem do Pai eterno, assumiu a natureza do homem. Sem dúvida, ele ajudou seu suposto pai, José, a construir casas; pois José era carpinteiro. O que irão pensar os nazarenos no dia do julgamento, quando verem Cristo sentado na sua divina majestade; certamente eles ficarão surpresos e dirão: "Senhor, você nos ajudou a construir as nossas casas, o quão confortável é essa tamanha honra?"

Quando Jesus nasceu, sem dúvida, ele chorou e chorou, como outros filhos, e sua mãe o cuidou enquanto outras mães também cuidavam de seus filhos. Enquanto ele crescia, era submisso a seus pais. Eu imagino ele levando um banquete para o seu pai, José, e, quando retorna, Maria pergunta: "Meu querido Jesus, onde esteve?". Então, aquele que não transgride algo simples, humilde por meio da vida de Cristo, é dotado da alta arte divina e sabedoria; sim, tem um dom especial de Deus no Espírito Santo. Recordemos sempre que o nosso bem-aventurado Salvador se humilhou e se abateu, caindo até a morte da cruz, para o nosso conforto, que somos criaturas pobres, miseráveis e condenados.


CLXXXVIII.
Se o imperador lavasse os pés de um mendigo, como o rei francês e o imperador Charles costumam fazer todas as Quintas-Feiras santas, o quão essa humildade seria exaltada e louvada! Mas, embora o Filho de Deus, Senhor de todos os imperadores, reis, príncipes, na medida mais profunda, se humilhou, até a morte da cruz. Todavia, nenhum homem se questiona, exceto apenas uma pequena multidão de fiéis que reconhece e adora, de fato, o suficiente, quando ele foi considerado o homem mais desprezado, atormentado e ferido de Deus (Isaías LIII), e por nossa causa passou por tamanha vergonha.


CLXXXIX.
Não podemos praticar o mal, e sim ensinar, pregar, cantar e falar de Jesus. Por isso que gosto muito quando cantamos na igreja: Et homo factus est; et verbum caro factum est. O diabo não suporta tais palavras e voa pra bem longe, pois ele sente profundamente o que está contido nestas palavras. Oh, como é feliz! Encontramos tanta alegria nestas palavras que o diabo se assusta com elas. Mas o mundo condena as palavras e as obras de Deus, porque elas são puras e simples. Bem, os bons e piedosos não se ofendem com isso, pois eles têm em conta o eterno tesouro celestial, e a riqueza que ali se esconde, e que é tão preciosa e gloriosa, que até os anjos se deleitam ao vê-las. Há alguns que se ofendem agora, e depois nos púlpitos dizemos: Cristo era filho de um carpinteiro, e como blasfemador e rebelde, foi colocado na cruz e enforcado entre dois malfeitores.

Mas, ao verem nossas pregações através deste artigo, e através do credo de nossos filhos, dizem: Que o nosso Salvador Cristo sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e enterrado, etc., por nossos pecados, por que, então, não deveria ser dito que Cristo era filho de um carpinteiro? Especialmente vendo que ele é claramente chamado no evangelho, quando o povo se questionou sobre sua doutrina e sabedoria dizendo: "Não é esse o carpinteiro, filho de Maria?" (Marcos VI).


CXC.
Cristo, nosso Sumo Sacerdote, é ascendido aos céus, e está à direita de Deus Pai, onde, sem cessar, intercede por nós (ver Romanos VIII), onde São Paulo, com muita excelência e palavras gloriosas, nos mostra a imagem de Cristo; como em sua morte, ele é um sacrifício oferecido pelos pecados; na sua ressurreição, um conquistador; na sua ascensão, um rei; ao realizar a mediação e intercessão, um Sumo Sacerdote. Pois, na lei de Moisés, o Sumo Sacerdote só entrava no Lugar Santíssimo para orar pelas pessoas.

Cristo sempre permanecerá como um Sacerdote e Rei, embora nunca tenha sido consagrado por nenhum bispo papista ou se ordenado por algum desses padres; mas ele foi ordenado e consagrado pelo próprio Deus, e por ele ungido, onde diz: "Tu és sacerdote para sempre". Aqui, a palavra Tu é maior do que a pedra nas Revelações de João, que era mais de trezentas ligas. E o segundo Salmo diz: "Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião". Portanto, ele certamente permanecerá ungido, e todos os que nele crêem.

Deus disse: "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque". Portanto, somos dependentes desse sacerdote, pois ele é fiel e verdadeiro, um presente de Deus que nos ama mais que a própria vida, como mostrou através de sua paixão e amarga morte. Ah! Quão bem-aventurado é o homem que acredita nisso de todo o coração.

"O Senhor jurou e não se arrependerá, tu és sacerdote." Esta é a frase mais gloriosa em todos os Salmos, onde Deus nos declara que este será o nosso Bispo e Sumo Sacerdote, e, sem cessar, intercederá por aqueles que são dele, e nenhum outro além dele. Não há Caifás, nem Anás, nem Pedro, nem Paulo, nem o papa, mas Cristo, somente Cristo; portanto, nos refugiemos nele. A epístola aos hebreus faz um bom uso desse verbo.

É, de fato, um grande e glorioso consolo (que todo piedoso e bondoso cristão não perdeu, nem foi esquecido, por toda a honra e riqueza do mundo) que conhecemos e acreditemos que Cristo, nosso Sumo Sacerdote, é a mão direita de Deus, orando e meditando por nós sem cessar - o verdadeiro pastor e bispo de nossas almas, que o diabo não pode arrancar de nossas mãos.

Mas, então, o espírito sagaz que o diabo deve ser, quem pode temer, e com seus dardos ardentes atraem os corações das pessoas boas e piedosas que estão neste excelente conforto, e acabam que mudando seus pensamentos sobre Cristo; que Cristo não é o Sumo Sacerdote, e acabam criticando a Deus; que ele não é o bispo de suas almas, mas um juiz severo e cheio de ira. O Senhor disse para Cristo: "Governe no meio dos teus inimigos". Por outro lado, o diabo afirma ser príncipe e Deus deste mundo. Ele é, portanto, inimigo jurado de Jesus Cristo e de sua Palavra, e daqueles que seguem esta Palavra com sinceridade e sem engano. Não é possível para Jesus Cristo e diabo permanecerem no mesmo teto. Aquele sempre deve ceder para o outro - o diabo para Cristo. Os judeus e os apóstolos estavam por algum tempo sob o mesmo teto, e os judeus atormentaram e perseguiram os apóstolos e seus seguidores, mas depois de algum tempo, eles mesmos foram expulsos pelos romanos. Tão pouco os luteranos e os papistas podem estar juntos. Um partido deve render, e pela benção e ajuda de Deus, estes serão os papistas.


CXCI.
EM BREVE.





Fonte: CRTA - Center for Reformed Theology and Apologetics
Tradução para o português: Marcell de Oliveira




"Conversas à Mesa" de Lutero
(Defesa da Fé Cristã)
"Conversas à Mesa" (Tischreden, em alemão) é a compilação de anotações feitas por alunos e colaboradores de Martinho Lutero durante encontros informais, como as refeições. A primeira edição das Tischreden foi publicada por Johann Aurifaber, em 1566, vinte anos após a morte de Lutero. A edição completa, porém, só foi publicada em 1836. O texto utilizado aqui vem da tradução para o inglês que o capitão Henry Bell traduziu e publicou por volta de 1650. Semanalmente, publicaremos aqui porções do texto traduzido.

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