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23 de Junho de 2017, Sexta Feira, 00h02

CLXXI.
A idolatria é toda maneira de buscar santidade e adoração através de falsas espiritualidades que demonstram serem justas e gloriosas; em uma palavra, é todo tipo de devoção sem Cristo, o Mediador, Sua Palavra e autoridade. No governo papal foi realizado uma obra de grandiosa santidade para que os monges possam meditar em suas celas sobre Deus e seus milagres; para se entusiasmarem com zelo, estando de joelhos e orando, e tendo suas contemplações imaginárias de objetos celestiais, com tal suposta devoção que os faziam chorar de alegria. Nestes conceitos que eles seguem, passaram a banir todos os desejos e pensamentos de mulheres, e o que mais é temporal e evanescente. Davam a impressão que estavam apenas meditando em Deus e em suas obras maravilhosas. No entanto, todas essas aparentes ações sagradas de devoção, que o espírito e a sabedoria do homem considera como santidade angelical, não são nada mais que obras da carne. Todo tipo de religião onde as pessoas servem a Deus sem a sua Palavra e autoridade, é simplesmente idolatria, e quanto mais santa e espiritual tal religião aparenta ser, mais dolorosa e venenosa ela é; pois todas essas coisas afastam as pessoas da fé em Cristo, e as fazem depender mais ainda de suas próprias forças, obras e justiça. Da mesma maneira, todo tipo de ordenança dos monges, jejuns, orações, vestimentas peludas, austeridades dos Capuchinhos, que no papado são consideradas as mais santas de todas, são meros trabalhos da carne. Porque os monges sustentam que são santos e serão salvos, não através de Cristo, a quem eles vêem como um juiz severo e zangado, mas pelas regras da sua ordem.

Nenhum homem pode fazer os papistas acreditarem que a missa particular é a maior blasfêmia de Deus, e a mais alta idolatria sobre a terra, uma abominação que nunca esteve em nenhum momento presente na cristandade, nem mesmo no tempo dos apóstolos; porque eles estão cegos e endurecidos nessa tradição, de modo que o entendimento e conhecimento que eles carregam de Deus, e de todas as outras coisas divinas, são pervertidos e errôneos. Eles sustentam que esse é o mais reto e maior serviço de Deus, mas na verdade é a maior e mais abominável idolatria. E sempre eles sustentam que pela idolatria, na verdade, é o serviço reto e mais aceitável de Deus, o Cristo acusador, e crendo nele. Mas nós, que verdadeiramente cremos em Cristo, e estamos em Seu Espírito, nós, Deus seja lovado, conhecemos e julgamos todas essas coisas; mas não confiamos em nenhuma criatura humana.


CLXXII.
O Dr. Carlstad me perguntou: Se um homem com boas intenções, levanta uma obra piedosa, mas sem a Palavra de Deus ou a Sua autoridade, ele serve aqui a um Deus verdadeiro ou falso? Lutero respondeu: Um homem honra à Deus e o chama para poder esperar pelo conforto, ajuda, e todo o bem vindo dEle. Agora, se esta mesma honra e invocação à Deus for feita de acordo com a Palavra de Deus - isto é, quando um homem espera dEle todas as graças por causa de suas promessas feitas a nós em Cristo, então ele honra o verdadeiro, vivo e eterno Deus. Mas se um homem tomar em mãos uma obra ou um serviço, por sua própria devoção, como ele pensa bem, para assim apaziguar a ira de Deus, ou obter o perdão dos pecados, vida eterna e salvação, como é o modo de todos os hipócritas que carregam uma aparência santa, então, eu digo categoricamente, ele honra e adora um ídolo no coração; e isso não o ajuda absolutamente em nada, mesmo que ele pense que faz isso para a honra do Deus verdadeiro; isso não é fé, e sim um pecado.


CLXXIII.
Hipócritas e idólatras são como aqueles cantores que não apresentam suas cantorias com boa qualidade, e mesmo não sendo cantores desejados, ninguém o fazem parar. Assim também são os falsos trabalhadores da santidade; quando Deus os ordena em obedecer aos mandamentos que são amar o próximo, ajudá-lo com conselhos, conceder, admoestar, consolar, etc., ninguém faz essas coisas; muito pelo contrário, eles se apegam em suas próprias escolhas, fingindo que esta é a melhor maneira de honrar e servir a Deus - uma grande ilusão da parte deles. Essas pestes que atormentam seus corpos com aparência de jejum, oração, cantorias, leituras, etc.; afetam grande humildade e santidade, e fazem todas essas coisas com grande zelo, fervor e incessante devoção. Mas tais obras também serão recompensadas, como o próprio Cristo disse: "Em vão me adoram, pois ensinam doutrinas que não passam de regras criadas por homens".


CLXXIV.
Pelo que pude perceber, a idolatria de Moloch é como se fosse um grande show, uma adoração mais aceitável e agradável a Deus do que a obra comum ordenado por Moisés; portanto, muitas pessoas que aparentemente demonstrava santidade e que pretendiam realizar uma obra aceitável para honrar a Deus de acordo como imaginam, acabaram que oferecendo e sacrificando seus filhos e filhas, pensando, sem dúvida, que estavam seguindo o exemplo de Abraão, e então praticavam um ato aceitável e agradável a Deus.

Contra essa idolatria, os profetas de Deus pregavam com zelo ardente, não os chamando de oferendas a Deus, mas de ídolos e demônios, como mostra o Salmos 106 e Jeremias cap. VII e XII. Mas eles julgaram os profetas como impostores e hereges malditos.

Essa adoração de ídolos era muito frequente no Papado, no meu tempo ainda, embora com outros hábitos; os papistas do papado consideram sagrado fornecer seus filhos aos mosteiros para tornarem monges ou freiras, para que possam servir a Deus, dizem eles, dia e noite. Daí o provérbio: Abençoe a mãe da criança que é uma pessoa espiritual! É verdade que esses filhos e filhas do Papado não são queimados e oferecidos aos ídolos corporalmente, assim como os filhos dos judeus. O que acontece é muito pior! Eles são espiritualmente empurrados para a garganta do diabo, onde o Papa com seus discípulos e falsa soberania, lamentavelmente acabam que assassinando as almas com falsas doutrinas.

A Sagrada Escritura geralmente menciona Moloch, assim como Lyra; e os comentários judaicos mostram que era um ídolo de cobre e bronze, como um homem que segurava em suas mãos uma brasa de fogo. Quando a escultura ficava muito quente, um pai se aproximava e oferecia seu filho empurrando-o para as mãos brilhantes do ídolo, pelo qual a criança era consumida pelo fogo até a morte. Enquanto a criança era consumida, eles faziam barulhos com tamborins, pratos, trombetas, para que os pais não ouvissem o lamentável choro da criança. Os profetas escreveram que Acab ofereceu seu filho dessa maneira.


CLXXV.
Os bezerros de Jeroboão ainda permanecem no mundo, e permanecerão até o último dia; não é um homem qualquer que levanta bezerros como os de Jeroboão, mas sobre tudo o que o homem depende ou confia - Deus deixou de lado - estes são os bezerros de Jeroboão, isto é, os outros deuses estranhos que são honrados e adorados em vez do único, verdadeiro, vivo e Deus eterno. Somente o Deus verdadeiro nos ajuda e nos consola em todas as necessidades. Do mesmo modo, todos que confiam e dependem de sua arte, sabedoria, força, santidade, riqueza, honra, poder ou qualquer outra coisa, independentemente do título ou do nome no qual o mundo constrói, acaba levantando e adorando os bezerros de Jeroboão. Pois eles confiam e dependem de criaturas ausentes, que é adoração de ídolos e idolatria. Nós caímos facilmente na idolatria, pois somos naturalmente inclinados a esse pecado, e a carregamos como herança aparentando ser agradável.


CLXXVI.
São Paulo nos apresenta estas palavras: "Quando você não conhece a Deus, você fez uma obra", etc., ou seja, quando ainda não conhecemos a Deus ou a vontade de Deus, servimos aqueles que por natureza não eram deuses; servimos os sonhos e pensamentos de nossos corações, com os quais são contra a Palavra de Deus, simulamos um Deus que se deixa conciliar com as obras e adorações de acordo com a nossa devoção que foi escolhida com boa intenção. Para toda a idolatria existente nesse mundo, as pessoas tiveram um conhecimento em comum, de que existe um deus, sem o qual a idolatria permaneceria impraticável. Com esse conhecimento implantado na humanidade, eles, sem a Palavra de Deus, criaram as mais diversas teorias terríveis sobre Deus e passaram a considerar como verdades divinas, imaginando um deus que não é verdadeiro.


CLXXVII.
Aquele que vai do evangelho à lei, pensando em ser salvo pelas boas obras, cai com tanta facilidade, como aquele que cai da verdadeira obra de Deus à idolatria; pois, sem Cristo, tudo é idolatria e imaginações fictícias sobre Deus, seja do Alcorão turco, dos decretos do papa ou da lei de Moisés; se um homem pensa dessa maneira para se justificar e se salvar diante de Deus, ele está perdido.

Quando um homem vai servir a Deus, ele não considera o que deve ser feito; não é sobre a obra, mas como deve ser feito, e se Deus o ordenou ou não; considerando o que diz Samuel: "Deus tem mais prazer na obediência do que nos holocaustos".

Quem não atende à voz de Deus, é um idólatra, mesmo que desempenhe o mais alto e denso serviço para Deus. É a própria natureza da idolatria em não fazer escolha daquilo que é estimado fácil e leve, mas sim daquilo que é grande e pesado, como vemos nos frades e monges, que estão constantemente inventando novos desejos de Deus; porém, através da Sua Palavra, Deus não lhes deu tais ordens, sendo, portanto, idolatria e blasfêmia. Todos esses pecados que chegam a atuar em pregações, devem ser repreendidos de uma forma intrépida e gratuita, não dependendo das hierarquias e poderes dos homens. Para os profetas, como vemos em Oséias, eram repreendidos e ameaçados não só a casa de Israel em geral, mas também, em particular, os sacerdotes, o próprio rei e toda a corte. Eles não se preocupavam com o grande perigo que poderia resultar do magistrado por ser tão abertamente criticado, ou que eles mesmos deveriam cair em desgosto ou desonra, e que sua pregação seria algo rebelde. Eles foram obrigados devido a um perigo muito maior, para que, por meio de exemplos dos poderes superiores, os assuntos acabariam sendo seduzidos para o pecado.


CLXXVIII.
Os papistas tomaram a invocação dos santos dos pagãos, que dividiram Deus em inúmeras imagens e ídolos, e foram ordenados para cada um deles, sua função e obra particular.

Estes papistas, sem nenhuma cristandade e muito menos vergonha, imitaram os pagãos negando a Glória do Poderoso Deus; cada homem que está distante da Palavra de Deus, acaba fiando para si mesmo uma opinião particular de acordo com a sua própria fantasia; como um dos sacerdotes que estava celebrando a missa, quando foi consagrar muitas ofertas no altar de uma só vez, pensou que não seria apropriado pronunciar, de acordo com as regras gramaticais: "Este é o meu corpo", então ele disse: "Estes são meus corpos"; em seguida, ele exaltou seu plano dizendo: "Se eu não fosse bom na gramática, eu iria consagrar uma heresia e não uma oferta".

Tal como os colegas que apresentam o mundo; os gramáticos, os lógicos, os retóricos e os filósofos, todos falsificando a Sagrada Escritura e a sofisticando com suas artes aquilo que Deus ordenou e designou. A divindade deveria ser a imperatriz, e a filosofia e outras artes deveriam ser seus servos, para não governá-la e nem dominá-la, como Servetus, Campanus e outros sedutores fizeram. Que Deus preserve sua igreja, que por Ele é carregada como criança no útero da mãe e que a defenda dessa tal divindade filosófica.

A invocação dos santos é uma cegueira e uma heresia abominável; ainda assim, os papistas não desistirão. O maior lucro do papa surge dos mortos; pois a invocação dos santos mortos traz-lhe infinitas somas de dinheiro e riquezas, muito mais do que ele obtém dos vivos. E assim vai o mundo; superstição, incredulidade, falsa doutrina, idolatria, tudo isso para obter mais crédito e lucro ao invés de construir uma religião reta, verdadeira e pura.


CLXXIX.
Deus e a adoração de Deus são parentes; o que não pode existir sem o outro; pois Deus deve sempre ser o Deus de algumas pessoas ou de uma nação, e está sempre em predicamento relationis. Caso contrário, Deus teria que invocar e honrar a Ele mesmo; para ter um Deus e honrá-lo juntos. Portanto, quem traz uma adoração divina através de sua própria escolha, sem a ordem de Deus, é um adúltero, é como uma mulher casada se relacionando com um outro homem que não é o seu marido, buscando o outro e não o verdadeiro Deus, e de nada serve o que ele pensa sobre as ordens de Deus aqui.


CLXXX.
Em todas as criaturas estão uma declaração e uma expressão da Santíssima Trindade. Em primeiro lugar, temos o significado da essência do Todo-Poderoso Deus, o Pai. Em segundo lugar, a forma e a definição declaram a sabedoria de Deus, o Filho; e, em terceiro lugar, o poder e a força são um sinal do Espírito Santo. Então Deus está presente em todas as criaturas.


CLXXXI.
No Evangelho de São João cap. III, é mostrado claramente a diferença do ser humano, na gigantesca obra que Deus realizou para nós, pobres criaturas humanas, nos justificando e nos salvando; pois está claramente escrito que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito. Aqui está presente duas pessoas - Pai e Filho. O Pai ama o mundo; e entrega o Seu Filho. O Filho carrega sobre si o sofrimento do mundo, e "para ser levantado na cruz, como a serpente foi levantada no deserto, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Desta obra teremos, em seguida, o Espírito Santo, que acende a fé no coração através da Palavra, e assim nos regenera e nos torna filhos de Deus.

Esse artigo, embora seja ensinado mais claramente no Novo Testamento, era sempre violado de tal modo que São João precisou escrever o seu evangelho. Então apareceu esse herege, Cerinthus, ensinando contra Moisés, e dizendo que havia apenas um só Deus e concluindo, portanto, que Cristo não poderia ser Deus, ou Deus homem.

Mas me deixem ficar com a Palavra de Deus na Sagrada Escritura, a saber, que Cristo é o Deus verdadeiro com o Pai, e que o Espírito Santo também é o Deus verdadeiro, ainda por cima não são três deuses, nem três substâncias como três homens, três anjos, três janelas, etc.; Deus não está separado ou dividido, e sim há apenas uma essência divina, e nada mais além disso.

Portanto, embora existam Três Pessoas - Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo -, não devemos dividir e nem separar a substância, pois há apenas um Deus em uma única substância inseparável, como São Paulo claramente fala de Cristo, Coloss. I, que Ele é a imagem expressa do Deus invisível, o primogênito da criação; pois através dele foram criadas todas as coisas que estão no céu e na terra, visíveis, etc., e tudo foi feito por Ele, e Ele já existia antes de tudo, e todas as coisas consistem nEle.

Agora, a Terceira Pessoa é explicada por São João, em seu evangelho no capítulo XV, onde ele diz: "Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim". Aqui, Cristo fala não apenas da obra do Espírito Santo, mas também da sua substância e fé; Ele sai ou procede do Pai, isto é, está saindo desse processo, é sem todo princípio e eternidade. Portanto, o santo profeta Joel lhe dá o nome, e o chama, "o Espírito do Senhor".

Agora, embora esse artigo pareça estranho, o que importa? Não é uma questão de saber ou não, mas que se baseia ou não na Palavra de Deus. Se é realmente a Palavra de Deus, então não devemos duvidar disso; Ele nunca mente; portanto, mantenha-se próximo da Palavra de Deus e não discordem de como o Pai, o Filho e o Espírito Santo podem ser um só Deus; pois nós, que somos infelizes pecadores, não podemos rir dessas coisas; ou como nossos olhos que enxerga uma montanha alta a dez milhas de distância; ou quando estamos dormindo, parecemos com um corpo morto, mas estamos vivos. Este pequeno conhecimento que não podemos alcançar; apesar de termos sido ajudados nos conselhos e nas artes de todos os sábios do mundo, não podemos conhecer o mínimo de coisas que nos dizem a respeito; e, no entanto, escalamos nossa sabedoria humana e presumimos em compreender o que Deus é em sua incompreensível majestade.



Fonte: CRTA - Center for Reformed Theology and Apologetics
Tradução para o português: Marcell de Oliveira



"Conversas à Mesa" de Lutero
(Defesa da Fé Cristã)
"Conversas à Mesa" (Tischreden, em alemão) é a compilação de anotações feitas por alunos e colaboradores de Martinho Lutero durante encontros informais, como as refeições. A primeira edição das Tischreden foi publicada por Johann Aurifaber, em 1566, vinte anos após a morte de Lutero. A edição completa, porém, só foi publicada em 1836. O texto utilizado aqui vem da tradução para o inglês que o capitão Henry Bell traduziu e publicou por volta de 1650. Semanalmente, publicaremos aqui porções do texto traduzido.

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