[PROF. WOLFGANG TESKE] MARTINHO LUTERO - UM INTELECTUAL À FRENTE DE SEU TEMPO


Categoria: Coluna, Martinho Lutero
Imagem: Blog do Professor Wolfgang Teske - http://alfarrabioteske.blogspot.com/
Publicado: 29 de Novembro de 2017, Quarta Feira, 00h00

Por: PROF. WOLFGANG TESKE (foto)

Martinho Lutero demonstrou ser um intelectual autêntico, quando, em pleno século 16, dominado por dois poderes que agiam de forma promíscua, representados pelo papado/clero e pelo Sacro Império Romano Germânico, travou um verdadeiro combate não com armas de guerra, mas com as suas ideias, polemizou sobre os mais diversos temas, tais como, questões de fé, razão, política, religião, economia, música, sexualidade, cristandade, literatura, educação, poder secular e eclesiástico entre tantos outros. Assuntos estes, que ultrapassavam, inclusive, as fronteiras de seus país, a Alemanha, e que abalou significativamente aos que se julgavam os donos do saber e do poder sacerdotal e eclesiástico daquela época.

Para entender e descrever Lutero, como intelectual, utilizarei a definição do notável jurista e filósofo político italiano Norberto Bobbio. Para este pensador do século 20, o poder ideológico está ao lado do poder econômico e do poder político e exerce uma grande influência sobre as sociedades, – “não sobre a posse de bens materiais, dos quais se necessita para viver e sobreviver, como o poder econômico, mas sobre as mentes pela produção e transmissão de ideias, de símbolos, de visões de mundo, de ensinamentos práticos, mediante o uso da palavra”. Certamente, foi isso que Lutero fez ao provocar uma verdadeira revolução intelectual, que se manifestou em ações que modificaram o modo de ver, entender e agir tanto do papado quanto do próprio Império, e consequentemente de toda a sociedade.

Lutero lança luzes para uma nova teoria do desenvolvimento para os séculos seguintes, tendo como base a educação. Uma demonstração clara da intelectualidade do reformador é quando analisa e propõe uma mudança radical da base teológica medieval da educação que era a escolástica, que tinha como fundamento principal o pensamento de Aristóteles (384-322 a.C.), um dos mais importantes filósofos da antiga Grécia. Dizia-se na época, que a filosofia era a serva da teologia e que, sem Aristóteles, ninguém poderia ser teólogo. O frade italiano da ordem dos dominicanos Tomás de Aquino, no século 13, foi um dos criadores desta corrente, e, a partir de então, se formaram escolas tomistas, que tinham como base esta corrente filosófica. Outras correntes surgiram como a dos escotistas, seguidores do franciscano escocês João Duns Escoto, um dos mais brilhantes pensadores escolásticos, que chegou a lecionar em Paris, na Inglaterra e em Colônia, na Alemanha. Também havia os occamistas, seguidores do franciscano inglês Guilherme de Occam, chamada de “via moderna”. Lutero foi educado por esta corrente occamista e logo percebeu que esta maneira de fazer teologia estava equivocada, o que o levou a estudar a fundo os escritos de Agostinho, um dos maiores pensadores de toda teologia cristã do quarto e quinto século.

Para Lutero, as verdades da fé não podiam ser compreendidas mediante a aplicação das regras da lógica filosófica, como se afirmava na educação escolástica e, por esta razão, tanto a teologia quanto a educação tinham que ser libertadas da ditadura aristotélica. Sendo ele um profundo conhecedor da filosofia de Aristóteles, o caracterizou dessa forma – “esse palhaço que, com sua máscara grega, tanto enganou a Igreja”. Em maio de 1517, escreveu para um amigo – “nossa teologia e Agostinho progridem bem, com a ajuda de Deus, e predominam em nossa universidade. Aristóteles decai pouco a pouco e está sendo arruinado”. Antes mesmo de deflagrar a Reforma Protestante, quando afixou as 95 teses na porta do Castelo de Wittenberg contra as indulgências, no dia 31 de outubro de 1517, Lutero havia escrito, um pouco antes, entre agosto e setembro, outras 97 teses, com uma severa crítica contra todo o sistema da teologia escolástica. Apenas para dar um exemplo, em relação à tese 41, Lutero se refere à Ética de Aristóteles como uma obra pagã, pois o filósofo reforçava que as potencialidades humanas eram suficientes para as virtudes. Esta passou a ser a base para a ética cristã na escolástica, e isto para o Reformador era uma verdadeira afronta à doutrina da graça e de questões sobre a obediência, livre arbítrio e do amor.

Havia também nesta época, o movimento humanista, que se originou com os intelectuais das universidades e que contestava os princípios da escolástica, ou seja, não reconhecia a autoridade plena dos concílios eclesiásticos e do papa, mas firmando-se na autoridade centrada nas Escrituras Sagradas. O tripé da pedagogia humanista se baseava na gramática, dialética e retórica. Um dos maiores expoentes do humanismo foi Erasmo de Roterdã, que divergiu de Lutero por conta da doutrina do livre arbítrio e, por esta razão, foi duramente repreendido pelo reformador, o que causou a ruptura entre eles. Contudo, é importante registrar que Lutero promoveu uma reforma que ia muito além do humanismo. Enquanto Erasmo propunha um modelo de educação muito restrito, sem a preocupação com toda a sociedade, Lutero cria um sistema educacional que vai integrar a todos, meninos e meninas, repreende os pais que não querem enviar os seus filhos à escola, propõe um sistema público e universal de ensino, bancado pelo Estado e não mais pela Igreja. Em outras palavras, Lutero com isto provocou uma verdadeira reforma política e religiosa da educação, e este tipo de projeto era uma inversão total da prática da época, diferenciando-se do projeto pedagógico renascentista humanista. Todo este sistema será a base do pensamento moderno e do Iluminismo.

Vygotsky, psicólogo e proponente da Psicologia cultural-histórica, pensador do século 20, é considerado pioneiro sobre desenvolvimento intelectual das crianças ao propor brincadeiras como método de aprendizagem.


Martinho Lutero tocando alaúde.

Entretanto, Lutero, 400 anos antes, colocou em prática uma mudança no processo didático-pedagógico, isto quer dizer, na forma de educar crianças e jovens, afirmando que deveriam aprender brincando e que o processo teria que ser prazeroso, lúdico, acompanhado com músicas, danças, jogos e brincadeiras.

Outro ponto que diferencia Lutero é a elaboração de propostas no âmbito de uma reforma social, nas quais insere questões de gênero, com a inclusão e a condição das mulheres. Para ele, tanto homens quanto mulheres fazem parte do sacerdócio universal e, sendo assim, ele repudia uma das situações de vulnerabilidade das mulheres na época, que eram violentadas, e demonstrava preocupação, principalmente, com as mais pobres que se tornavam prostitutas. Para o reformador, a educação era o meio de reverter esta situação e, por esta razão, teria que haver igualdade de gênero, mesmo que exercessem funções de forma diferente, quando afirma – “também o mundo precisa de homens e mulheres excelentes e aptos para manter seu estado secular exteriormente, para que então os homens governem o povo e o país, e as mulheres possam governar bem a casa e educar bem os filhos e a criadagem”. Entendemos, obviamente, que não se tratava de uma compreensão moderna como temos atualmente, a de igualdade de gêneros, entretanto, para a época, isto significava uma verdadeira revolução. Contudo, Lutero faz referência a três mulheres mártires da igreja antiga, Santa Inês, Lúcia e Anastácia, considerando-as intelectuais, numa demonstração clara de reconhecimento da capacidade das mulheres para exercer qualquer função.

O doutor Martinho Lutero abalou o mundo de sua época com ideias inovadoras nas mais diversas áreas sobre as quais estudou e escreveu, e isto é uma demonstração inequívoca de que se tratava de um intelectual muito à frente de seu tempo.

Demais artigos da série 500 Anos da Reforma Protestante:

1- Luteranos e Católicos em paz?
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2016/10/luteranos-e-catolicos-em-paz.html

2- 500 Anos da Reforma Luterana
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/01/500-anos-da-reforma-luterana-02.html

3- A educação que transformou Lutero no herói da Reforma
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/02/a-educacao-que-transformou-lutero-no.html

4- Lutero – um monge agostiniano que encontrou a liberdade
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/03/lutero-um-monge-agostiniano-que.html

5- Mudança do sistema escolar promovida por Martinho Lutero
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/04/mudanca-do-sistema-escolar-promovida.html

6- Concepções de Lutero para a educação: escola pública, universal, gratuita e obrigatória
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/05/concepcoes-de-martinho-lutero-para.html

7 – Martinho Lutero – um escritor incansável
https://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/06/martinho-lutero-um-escritor-incansavel.html

8 – Martinho Lutero – precursor da unificação da língua alemã
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/07/martinho-lutero-precursor-da-unificacao.html


Gostou do artigo? Comente!
Nome:

E-Mail:

Comentário:



- Nenhum comentário no momento -

Desde 3 de Agosto de 2008