Martinho Lutero - Um Escritor Incansável
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13 de Julho de 2017, Quinta Feira, 16h29

Série 500 Anos da Reforma Protestante

Em 2016, a UNESCO declarou como patrimônio mundial 14 escritos, únicos e autênticos de Martinho Lutero, com destaque especial para um cartaz contendo as 95 teses, que foram afixadas na Igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, data em que se deu início à Reforma Protestante, e um exemplar da Bíblia de Lutero, além de cartas, outros escritos e livros originais.

Para a UNESCO estas obras são documentos de relevância internacional e insubstituíveis. Na cerimônia especial que oficializou este evento, a ministra alemã da Educação e Pesquisa, Johanna Wanka ressaltou que as obras de Martinho Lutero tiveram grande influência no desenvolvimento da sociedade por vários séculos, e, por esta razão, este título se torna ainda mais especial nas comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante.

O Instituto Leibniz de História Europeia foi o responsável que elaborou o dossiê dos escritos de Lutero para a UNESCO, e justificou a decisão pelo seguinte fato: os escritos do Reformador desencadearam uma radical transformação que modificou a religião, a política, a sociedade e a cultura, através do meio tecnológico mais moderno da época, ou seja, a imprensa.

Lutero demonstrou ser um escritor voraz e incansável desde muito cedo. Mesmo antes de desencadear a Reforma em 1517, ele desenvolvia uma atividade intensa na Universidade de Wittenberg e afirmou: - "Preciso praticamente de dois escreventes e passo grande parte do dia escrevendo cartas. Sou pregador do Convento, sou consultado durante as refeições, querem que eu pregue diariamente na igreja do paço. Sou diretor de estudo, vigário de minha Ordem, isto é, onze vezes prior. Faço preleções sobre Paulo, junto matéria para as preleções sobre os Salmos". A partir da Reforma, Lutero escreve ainda mais, e podemos destacar o ano de 1520, quando se dedicou a quatro de seus livros que mexeram com o poder da igreja e do papado, com o poder do Império e dos governantes, com a postura da sociedade e a vida cristã das pessoas.

Quando escreveu e publicou o livro Cativeiro Babilônico da Igreja, ele ataca frontalmente o poder papal e do Vaticano. Suas pretensões não eram de formar uma nova igreja, mas que a Igreja Católica Romana retornasse ao que Jesus e os apóstolos tinham instituído e estabelecido como igreja cristã. É necessário observar que, no século XV e XVI a Europa estava norteada por um sistema semifeudal e da burguesia mercantil, no qual a Igreja era uma peça fundamental. Por esta razão, a Sé Romana ou Vaticano, os bispos, especialmente os do Sacro Império Germânico, tinham grandes interesses econômicos, políticos, jurídicos e inclusive militares. O papa detinha um enorme poder sobre o Império e seus príncipes e, com isso, obtinha vantagens e benefícios. Além disto, Lutero desaprovou e condenou a prática da Santa Sé, que acumulava no Castelo de Frederico Prudente 17.413 relíquias, que podiam ser veneradas mediante pagamento, e os fiéis através deste ato poderiam ser agraciados com 128.000 anos de indulgência. Lutero afirmou que a tirania do papa não tinha limites e insistia em pregar que a justificação não se alcançava mediante as obras humanas, pois esta só era alcançada pela fé em Jesus Cristo crucificado. Este livro ainda contém diversas denúncias contra os abusos da Igreja, ao ponto de afirmar que Roma estava construída sobre o próprio inferno.

Ao escrever o livro À Sua Majestade Imperial e à Nobreza Cristã na Alemanha, Lutero denunciou a superioridade do estado religioso sobre o civil, no qual afirma que o papa pretendia dominar a tudo e a todos. Neste livro deixa claro que a função da Igreja não é governar a sociedade civil, apesar de insistir de que a função da Igreja era formar homens e mulheres íntegros que pudessem assumir a função do governo civil. Ele vai além, ao afirmar: - "É impossível existir um Estado cristão, uma democracia cristã, ou coisa parecida. Não se pode governar a sociedade civil com os preceitos de evangelho ou do Sermão do Monte, seria como juntar leões com ovelhas e pedir que mantenham a paz". Outro alerta que faz é sobre a questão do papa se autodeclarar como o único com o direito de interpretar as Escrituras Sagradas, pois Lutero ensinava que todos os cristãos tem esse direito, e, por esta razão, era necessário que aprendessem a ler, escrever e interpretar as Escrituras.

O tratado sobre a Liberdade Cristã, livro enviado a várias autoridades da época, inclusive, juntamente com uma carta, ao papa Leão X, pode ser considerado um dos mais significativos textos sobre a tradição cristã. Lutero mesmo resume este livro em duas afirmações: - "O cristão é um homem livre e ninguém submetido - pela fé. O cristão é um servo obediente a todas as coisas e submetido a todos - pelo amor".

No livro sobre o Sermão sobre as Boas Obras, ele destaca o seguinte: - "As boas obras não fazem um bom cristão, mas um bom cristão faz boas obras". Lutero ainda escreveu muitos outros livros, tais como: O Livre Arbítrio, vários tratados sobre Ética, Ética na Política, Governo, Guerra dos Camponeses, Guerra contra os Turcos, Paz Social, Sexualidade, Educação, só para mencionar alguns. Também escreveu manuais para ensinar crianças e jovens, dos quais se destaca o Catecismo Menor, no qual, em forma simples de perguntas e respostas trata das principais doutrinas da fé cristã. Outro manual foi o Catecismo Maior, escrito para os instrutores, pastores e pais, no qual exorta para a necessidade de se educarem os filhos para servirem a Deus e ao mundo, e não apenas para ganharem dinheiro e adquirir propriedades. Outra obra de fundamental importância para a Reforma foi a Confissão de Augsburgo e os Artigos de Esmalcalde, que fundamentaram a defesa do luteranismo perante o Imperador e o papa, com o intuito de instalar a paz religiosa.

Entretanto, um destaque especial para Lutero como escritor deve ser dado por ter traduzido a Bíblia, pois ele era um profundo conhecedor das línguas originais, o grego e o hebraico. Após a publicação, em poucos meses, a Bíblia traduzida estava na mão do povo. Mais de cem mil exemplares foram vendidos em quarenta anos, 84 edições enquanto Lutero estava vivo e 253 edições depois de sua morte. Contudo, ele se recusava vender os seus escritos, deixando todo o lucro para os tipógrafos, contrariando, inclusive, a sua esposa, que achava justo ele ficar com uma parte. Mas o seu objetivo era difundir as obras, e assim o povo iria descobrir a verdade.

Atualmente, as obras de Lutero estão publicadas e traduzidas em diversas línguas em todos os continentes.


Demais artigos da série 500 Anos da Reforma Protestante:

1- Luteranos e Católicos em paz?
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2016/10/luteranos-e-catolicos-em-paz.html

2- 500 Anos da Reforma Luterana
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/01/500-anos-da-reforma-luterana-02.html

3- A educação que transformou Lutero no herói da Reforma
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/02/a-educacao-que-transformou-lutero-no.html

4- Lutero - um monge agostiniano que encontrou a liberdade
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/03/lutero-um-monge-agostiniano-que.html

5- Mudança do sistema escolar promovida por Martinho Lutero
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/04/mudanca-do-sistema-escolar-promovida.html

6- Concepções de Lutero para a educação: escola pública, universal, gratuita e obrigatória
http://alfarrabioteske.blogspot.com.br/2017/05/concepcoes-de-martinho-lutero-para.html




Fonte: Alfarrábio Pensar


Prof. Wolfgang Teske
Colunista



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