"A Lenda da Venda de Indulgências"
Rafi Sevghenian

Bom dia! Meu nome é Rafi, sou da igreja envagélica luterana do Brasil. Os católicos atualmente dizem que a Igreja Católica nunca vendeu indulgências, dizem que o Papa não sabia dessa venda que Tetzel, monge dominicano estava fazendo. E para isso citam a tese de número 50 de Lutero que diz: "Deve-se ensinar aos Cristãos que se o Papa soubesse das extorsões dos pregadores de indulgências, ele preferiria que a Basílica de São Pedro fosse reduzida a cinzas, a ser ela edificada com a pele, a carne e os ossos das suas ovelhas".

Quando li isso fiquei confuso, porque até Lutero defendeu a idéia de que a Igreja Católica nunca praticou oficialmente a venda de indulgências e que esta venda foi uma prática de alguns que eram maus religiosos. E ainda dizem que até alguns líderes protestantes atuais reconhecem isso.

Como responder a estes argumentos católicos?

Obrigado
Rafi



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Prezado Rafi Sevghenian
Graça e Paz do Senhor Jesus Cristo
Bendito seja Deus, o Senhor de nossas vidas
A Razão do nosso viver

Amado,
A Igreja Romana é baseada numa estrutura altamente hierarquizada. Lá em baixo estão os Diáconos, depois vem os Presbiteros/Padres, um pouco mais acima estão os Bispos. Logo depois os Arcebispos, os Patriarcas, os cardeais e, por fim a autoridade geral, o Papa.

Durante toda a história da hierarquia (seja religiosa ou não), sempre havia um grupo de informantes/mensageiros para levar as notícias do reino ao rei. Então, podemos dizer que o Papa possuía tais servos espalhados pelo mundo Católico com o objetivo de obter informações dos acontecimentos e levá-los até ao Pontífice.

Devemos também ressaltar que na Tese 50 de Lutero existe uma condição: "se o Papa soubesse... das extorsões dos pregadores, de indulgências, ele preferirira que a Basílica de São Pedro fosse reduzida a cincas...".

E, mais uma vez, devemos ressaltar que Martinho Lutero foi educado debaixo dos ensinamentos católicos. Ele via no Papa, a Santidade Suprema. Infalível.

Por um outro lado, Martinho Lutero cria que receberia o apoio do Papa ao revelar os males da venda das indulgências e jamais pôde imaginar a repercussão que as suas teses teriam. Myconius, um contemporâneo de Lutero, escreveu sobre as teses do reformador: "As teses, em apenas 15 dias percorreram quase toda a Cristandade, como se os anjos fossem os mensageiros".

Inicialmente o Papa achou graça nas teses de Lutero, dizendo: "Um alemão embriagado escreveu-as." Mas não tardou para que ele mesmo tivesse que mudar de idéia e começasse a agir contra esse "monge rebelde".

Devemos ressaltar que o conceito "indulgências" surgiu no século III e significa a remissão parcial ou total, perante Deus, da pena temporal suportada por um pecado perdoado. Sendo que mais tarde, tornou-se um negócio lucrativo.

"Acreditava-se que Cristo em pessoa, a Virgem Maria e muitos santos tivessem ganhado, durante sua vida, um surplus de mérito que poderia ser distribuído entre os cristãos menos praticantes da fé e que haviam, ao contrário deles, acumulado um déficit em razão dos pecados cometidos, e, para expiá-los, deveriam passar um longo período de tempo no Purgatório. Os papas, depositários, através de Pedro, das chaves da Igreja, tinham acesso a esse tesouro e podiam estendê-lo aos pecadores que precisassem de uma diminuição na pena. Estes podiam, assim, privar-se de parte das riquezas acumuladas durante a vida terrena e receber em troca a riqueza espiritual dos santos. Mesmo não sendo possível comprar a salvação, podia-se, no entanto, pagar pela remissão (mesmo total) da pena". (David Christie-Murray, 1998, p. 169).

Segundo o Wikipédia, em 1510, o Papa Julio II lançou a Indulgência do Jubileu para custear a nova basílica de São Pedro. A venda fora iniciada em Magdeburgo em 1515, sendo o Arcebispo de Magdeburgo Alberto de Branderburgo, o responsável eclesiástico local.

O auge dessa prática se deu durante o pontificado do próximo Papa (Leão X) que oferecera indulgências para aqueles que dessem esmolas com o objetivo de reconstruir a Basílica de São Pedro em Roma. Logo veio Tetzel com um marketing de terror e que provocou Lutero a escrever suas 95 Teses sobre as vendas de indulgências. Tetzel seria punido por Leão X por seus sermões que iam muito além dos ensinamentos reais sobre as indulgências. Porém, oferecer indulgências para aqueles que dessem esmolas e o pesado marketing de Tetzel, qual é a diferença? Ambos tinham objetivo de arrecadar fundos. Tetzel foi um pouco mais pesado e cruel digamos assim.

Martinho Lutero, como um mestre teólogo católico, não negava o direito do Papa ou da Igreja de conceder perdões e penitências. Porém ele não acreditava que dar esmolas seria uma boa ação, mais um ato semelhante à compra das indulgênicas e o perdão das penas temporais.

O Concílio de Trento teve longos debates sobre questões das indulgências. Em Julho de 1562, o concílio proibiu o cargo de quaestores e reservou a concessão de indulgências por esmolas ao bispo da diocese. Em seguida, no final de 1563, a venda de indulgências foi abolida definitivamente e instruindo aos bispos para punir qualquer abuso relacionado à elas. Logo mais tarde, Papa Pio V, em 1567, cancelou todas as concessões de indulgências envolvendo quaisquer taxas ou outras operações financeiras.

Lembrando que a venda de indulgências também havia sido condenada um século e meio antes da Reforma por Wycliffe (1320-1384) e Huss (1369-1415), porém ambos foram perseguidos pela Igreja. Wycliffe, mesmo depois de falecido, teve seu corpo desenterrado para ser queimado. Já Huss (João Huss) foi jogado na fogueira ainda vivo e quando estava sendo queimado profetizou a chegada de uma Reforma na Igreja - A Reforma Protestante.

Ou seja, a venda das Indulgências era praticada a muito tempo. Devia ter sido condenada oficialmente antes mesmo de Martinho Lutero chegar.

E, apenas para complementar, solicitei ajuda aos irmãos do grupo Cristãos & Reformados e eles informaram sobre a Indulgentiarum Doctrina e sobre a Taxa Camarae. A Indulgentiarum Doctrina é a doutrina das indulgências na visão da Igreja Romana. Neste documento enfatiza muito as obras - o que se deve fazer para alcançar o perdão de um determinado pecado de acordo com a tradição romana. Entretanto, não há um parágrafo enfatizando a dar esmolas/ofertas para alcançar o perdão pelos pecados. O próprio Martinho Lutero defendia alguns pontos da Indulgentiarum Doctrina, tais como:

"(19) Assim se constitui o "tesouro da Igreja", (20) que não é uma soma de bens comparáveis às riquezas materiais acumuladas no decorrer dos séculos, mas é o valor infinito e inesgotável que têm junto a Deus as expiações e os méritos de Cristo Senhor, oferecidos para que a humanidade toda seja libertada do pecado e chegue à comunhão com o Pai; não é outra coisa que o Cristo Redentor, em quem estão e persistem as satisfações e os méritos de sua redenção." (Indulgentiarum Doctrina, cap. II)

E, mesmo Martinho Lutero defendendo a verdadeira essência das Indulgências em sua época, como foi falado acima, o Papa não prestou-lhe nenhum apoio.

E por fim, foi nos passado a Taxa Camarae que, segundo alguns estudiosos católicos é um documento não confiável publicado por um escritor ateu e anti-cristão chamado Pepe Rodriguez. Este documento, segundo informações do autor, foi divulgado em 1517 pelo Papa Leão X e é uma lista das indulgências previstas para os vários pecados, com tarifários a elas referentes. Citarei apenas 3 pontos dessa lista:

"(7). A mulher adúltera que pedir a absolvição para se ver livre de qualquer processo e ser dispensada para continuar com a relação ilícita pagará ao papa 87 libras e 3 soldos. Em um caso análogo, o marido pagará o mesmo montante; se tiverem cometido incesto com o próprio filho, acrescentar-se-ão 6 libras pela consciência. (18). Aquele que quiser comprar antecipadamente a absolvição por qualquer homicídio acidental que possa vir a cometer no futuro pagará 168 libras e 15 soldos. (19). O herege que se converter pagará, pela absolvição, 269 libras. O filho do herege que tiver sido queimado, enforcado ou executado de qualquer outra forma poderá ser readmitido apenas mediante o pagamento de 218 libras, 16 soldos e 9 denários."

Sendo o documento Taxa Camarae confiável ou não, a venda de indulgências era real. Pois, toda lágrima, todo suor e todo o sangue derramado para a Reforma da Igreja não foi em vão.


Que Deus te abençoe e te guarde.


Seja bendito o Nome do Senhor desde agora e para sempre, amém.
Protestante Online
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