Como Martinho Lutero Influenciou Martin Luther King Jr.
- Publicado neste site no dia: 07 de Fevereiro de 2021, Domingo, 15h55

O fato do político norte-americano Martin Luther King Jr. ter carregado o mesmo nome do reformador protestante Martinho Lutero, a influência do reformador alemão sobre o líder americano em questões dos direitos civis foi muito mais profundo do que isso.


Quando Martin Luther King Jr. trouxe sua campanha em prol dos direitos civis para a cidade de Chicago no ano de 1966, ele pegou um trecho do livro de seu homônimo alemão e anexou suas exigências por habitações mais justas à porta da prefeitura.

O episódio é um dos poucos casos em que o próprio Martin Luther King Jr. evocou diretamente o reformador protestante, famoso por ter pregado suas 95 teses contra a venda de indulgências na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg na Alemanha, em 1517.

A conexão mais óbvia entre King e Lutero é o nome de batismo, e foi através de seu pai Martin Luther King Sr. que originou esse elo.


Mudança de Nome
Há diferentes relatos sobre o antigo King, que nasceu Michael King e logo decidiu renomear a si mesmo e a seu filho após o seu retorno de uma conferência batista em Berlim na década de 1930, onde ficou impressionado com as histórias do reformador alemão Martinho Lutero. Em qualquer caso, embora os dois Kings, tanto o pai quanto o filho, tenham se tornado conhecidos publicamente pelo novo apelido, a mudança de nome aparentemente nunca foi registrada nos documentos oficiais, e os dois continuaram conhecidos na família como Grande Mike e Pequeno Mike (Big Mike e Little Mike).

Outro exemplo em que Luther King invocou deliberadamente seu homônio foi através de uma carta que ele escreveu quando estava preso em Birmingham. Nesta carta, Luther King cita a famosa frase de Lutero: "Aqui estou; não posso fazer de outra forma, que Deus me ajude", ao lado de outras referências a outros personagens históricos como Abraham Lincoln e Thomas Jefferson. Por outro lado, o pastor da Geórgia raramente citava o reformador alemão em suas pregações - é o que diz Richard Lischer, professor emérito da Duke University e autor de "The Preacher King: Martin Luther King Jr. and the Word that Moved America".

Ainda assim, a influência do reformador alemão sobre Luther King, que não era um estudioso das doutrinas luteranas, foi profunda, embora em grande parte indireta, como diz Lischer: "Acho que o que ele absorveu de Lutero foi um senso de coragem e de liberdade para desafiar a autoridade. Enquanto Lutero desafiou a autoridade religiosa, Luther King desafiou as autoridades políticas e culturais de seu país."


Tomando uma Posição
Para Mark Noll, professor emérito de História da Notre Dame University e notável estudioso do Cristianismo norte-americano, a jornada de Martinho Lutero para Worms no século XVI com o objetivo de se defender contra as acusações de heresias influenciou a postura de Luther King contra o racismo nas décadas de 1950 e 1960.


Luther King, assim como Martinho Lutero, arriscou tudo para lutar por suas crenças.

"A disposição de Martinho Lutero de se apresentar diante do imperador Carlos V em Worms em 1521, em certo sentido, foi uma inspiração para grandes líderes dos direitos civis, como Luther King Jr., e se posicionaram francamente contra séculos de tradição de segregação proclamando não apenas a boa ética, mas também a palavra do Senhor."

Tanto Martinho Lutero quanto Luther King tinham um profundo conhecimento das Sagradas Escrituras e da convicção de que sua batalha contra as autoridades deveria ser travada pacificamente, uma condição cuja importância é difícil de enxergar.

Embora Martinho Lutero e Luther King compartilhassem vários traços essenciais - como confrontar autoridades para seguir a vontade Deus, mesmo correndo o risco de graves consequências pessoais - em um nível teológico mais detalhado havia diferenças claras.


Questão da Ética
"Para Lutero, o momento redentor é antes de tudo muito pessoal na cruz de Jesus. Já para Luther King é mais corporativo, e ele encontra Deus trabalhando por meio do êxodo do Egito e da libertação de todas as pessoas do cativeiro", disse Lischer.


Martinho Lutero pregando suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.

Isso não é algo surpreendente, visto que a ética cristã mais ampla sustentada por Martinho Lutero e Luther King também diferia significativamente. Lutero, explicou Noll, construiu sua ética sobre a doutrina dos dois reinos em que a igreja é o lugar para o povo ouvir a mensagem de Deus, e a esfera governamental é o lugar onde o Senhor deu aos governantes autoridade que deve ser obedecida pela sociedade, mesmo que as pessoas sofram injustamente, pois os governantes são vistos como servos de Deus para manter a paz no mundo.

"Obviamente, essa é uma ética muito diferente que Luther King sustentou quando sentiu que havia algo errado na sociedade", disse Noll. "Quando ele sentia que havia algo de errado, algo mau na sociedade, era dever de um pastor com moral para desafiar diretamente a injustiça que via na sociedade e trabalhar de todos os modos possívels para mudar essa sociedade".

A respeito das percepções de Luther King sobre o papel do cristão na sociedade, ele provavelmente teria discordado de algumas posições de Lutero como na questão dos camponeses e dos judeus, segundo relata Lischer. Luther King observara que Martinho Lutero ficou muito calado na esfera política. Da mesma forma, o reformador alemão tinha um grande temor à desordem e enfatizou os desafios das autoridades, como Luther King tinha promovido, segundo relata Noll.


Impacto Profundo
"Acredito que Martinho Lutero ficaria orgulhoso no que Luther King tem feito ao se levantar corajosamente diante das autoridades e dizer: 'Minha consciência é cativa à Palavra de Deus onde diz que todas as pessoas são criaturas iguais diante de Deus e essa igualdade precisa ser implementada na prática, e não apenas na teoria", acrescentou.


Se não fosse os trabalhos de Luther King, provavelmente o presidente Barack Obama não teria sido eleito nos EUA.

De maneiras e contextos completamente diferentes, Martinho Lutero e Luther King foram personagens importantes que ocasionaram profundas mudanças.

"Lutero conseguiu uma ampla transformação do pensamento humano e, ao fazê-lo, também tirou o poder de uma instituição, ou seja, a igreja de sua época, para decretar o que as pessoas eram e o que esperar de Deus", disse Lischer.

"Luther King transformou a vida americana em um período de tempo muito curto", disse Noll. "A América que temos hoje é muito diferente da América dos anos 1950 e 1960 no que diz respeito à liberdade racial."


Revelância para Hoje
Ao questionar sobre a relevância contínua de Martinho Lutero e Luther King, os dois estudiosos argumentaram que o reformador alemão e o líder norte-americano dos direitos civis continuam sendo guias morais essenciais para hoje.

"Como cristão acho que a mensagem de Martinho Lutero sobre a necessidade de todas as pessoas de se reconciliarem com Deus é uma mensagem tão relevante atualmente como era há 500 anos", disse Noll. "E acho que Luther King é, de muitas maneiras, tão ou até mais relevante hoje do que era na década de 1960. O racismo é um pecado original dos EUA e nunca foi plena e conscientemente tratado como uma falha moral e cultural."



Fonte: DW Made For Minds
Tradução: Marcell de Oliveira


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Autor:
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Cento e dois anos depois de João Huss expirar na fogueira, o "cisne" afixou, na porta da Igreja em Wittenberg, as suas noventa e cinco teses contra as indulgências, ato que gerou a Grande Reforma. João Huss enganara-se em apenas dois anos, na sua predição.

Para dar o valor devido à obra de Martinho Lutero, é necessário notar algo das trevas e confusão dos tempos em que nasceu.

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