A Obra Salvífica de Cristo (Parte 3) - Teorias da Expiação
Teoria da Influência Moral
A teoria da influência moral (também chamada teoria do amor de Deus ou exemplarismo) é geralmente atribuída a Pedro Abelardo (intelectual francês, filósofo, professor e teólogo, 1079-1142). Ao ressaltar o amor de Deus, rejeita qualquer idéia de haver em Deus uma exigência pela liquidação da dívida do pecado. Deus não exigiu pagamento pelo pecado, mas com amor perdoou graciosamente. Na encarnação e na cruz, vemos uma demonstração do amor assoberbador de Deus, visão que nos leva à gratidão e ao amor e, portanto, nos incita ao arrependimento, à fé e a um desejo de mudar nossa conduta. A teoria da influência moral não vê na cruz nenhum propósito ou efeito expiador.

Não devemos, porém, rejeitar esta teoria sem examiná-la, pois contém alguma verdade. Não é verdade que exemplos de coragem e bondade nos inspiram a mudar de comportamento e a ser também corajosos e bondosos? Não podemos olhar a cruz sem sentir inspiração. O conhecido hino Ao Contemplar a Tua Cruz dá expressão a essa teoria.

Não obstante enfatize corretamente o amor de Deus, o exemplarismo é lastimavelmente inadequado para explicar a razão da cruz. Ignora totalmente a santidade e justiça de Deus, bem como as declarações bíblicas que apontam a morte de Cristo como uma obra de expiação ou até mesmo de propiciação (Rm 3.25,26; Hb 2.17; 1Jo 2.2). Além disso, não demonstra como a mera emoção levará ao arrependimento. Não explica como os santos do Antigo Testamento vieram a ser salvos. Alister McGrath diz: "Talvez uma das [suas] dificuldades mais graves... seja a total ambigüidade da cruz. Se a única coisa que a cruz nos ensina é que Deus nos ama, por que Ele tratou de revelar o fato de modo tão ambíguo?" Se Cristo, na cruz, nada mais fez do que nos influenciar, sua morte é mera encenação para nos comover. A Bíblia assevera muito mais do que isso.


Teoria do Resgate
A teoria do resgate enfatiza a vitória de Cristo sobre Satanás. É chamada às vezes "resgate a Satanás" ou teoria dramática. Por causa do nosso pecado, estamos sob o domínio de Satanás. Mas Deus, por nos amar, ofereceu o seu Filho ao diabo como preço do resgate para nos libertar. O maligno ficou mais do que feliz com a troca, mas desconhecia o fato de que não conseguiria manter Cristo no Hades, e, com a ressurreição, perdeu tanto o resgate quanto seus presos originais. Os pais da Igreja não se preocuparam com o fato de que essa transação envolveria Deus num logro (pois Ele certamente sabia o resultado final). Para eles, significava apenas que Deus era mais sábio e mais forte que Satanás. A humanidade de Jesus era a isca que escondia o anzol da sua divindade, e o diabo a engoliu. A culpa era dele, não de Deus.

Depois de Anselmo, essa teoria desapareceu, mas em anos recentes um teólogo sueco, Gustaf Aulen (1879-1978), revivificou os aspectos positivos da teoria na sua obra clássica Christus Victor, que enfatiza a verdade bíblica de que a morte de Cristo realmente derrotou o diabo (Hb 2.14; Cl 2.15; Ap 5.5). A morte e o inferno foram vencidos (1Co 15.54-57; Ap 1.18). O Descendente da mulher esmagou a cabeça da serpente (Gn 3.15). Ver a expiação como a vitória sobre todas as forças do mal deve ser sempre parte vital da nossa proclamação vitoriosa do Evangelho. Não devemos descartar aquela verdade, embora rejeitemos a idéia que Deus usasse de astucioso engano para levar Satanás à derrota.


Teoria da Satisfação
Anselmo (Teólogo medieval e arcebispo de Cantuária, 1033-1109) propôs uma teoria que deu forma a quase totalidade do pensamento católico e protestante sobre o assunto até ao tempo presente. Escreveu, em parte contra os judeus de seus dias, que negavam uma encarnação genuína, seu tratado Cur Deus Homo ("Por que Deus se Tornou Homem"). Oferece uma das primeiras e bem-pensadas teorias da expiação, usualmente chamada teoria da satisfação. Diz que as pessoas, ao pecarem, ultrajam a honra do Deus soberano e infinito. A ofensa contra um soberano não pode passar sem castigo, e exige satisfação. Mas como poderemos nós pagar essa multa se o Soberano ultrajado é o Deus infinito? Ao mesmo tempo, o amor de Deus pleiteia em favor do pecador. Como o aparente conflito em Deus será resolvido? Nós cometemos o pecado, e por isso devemos uma satisfação. Porém, como somente Deus poderia pagar o preço e somente nós devemos pagá-lo, apenas um Deus-homem poderia dar uma satisfação pela ofensa contra a honra de Deus e pagar o preço infinito do perdão.

A teoria da satisfação apresenta muitos aspectos recomendáveis. Focaliza sua atenção naquilo que Deus (e não Satanás) exige na expiação. Adota um conceito muito mais profundo da gravidade do pecado que as teorias da influência moral e do resgate. Propõe uma teoria da satisfação, idéia esta que explica mais adequadamente as questões bíblicas.

Mas a teoria da satisfação apresenta também suas fraquezas. Torna Deus um senhor feudal cujos vassalos o desonraram gravemente. E Ele não pode deixar tal coisa passar sem castigo, para conservar sua posição. Anselmo deixou de levar em conta a possibilidade de que um soberano pudesse ser misericordioso sem prejudicar sua posição de superioridade. A teoria parece subentender um conflito entre os atributos de Deus, o que a Bíblia não pode confirmar. Além disso, assume uma dimensão quantitativa: sendo os pecados virtualmente infinitos em número e na sua natureza - porque cometidos contra um Deus infinito - sacrifício também deve ser quantitativa e qualitativamente infinito. Embora esta explicação não deva ser totalmente rejeitada, a ênfase bíblica não recai numa transação comercial, mas na ação de um Deus amoroso e gracioso. Não somos simples circunstantes a receber os benefícios indiretos de uma transação realizada entre Deus e seu Filho. Somos, sim, a razão de tudo isso. Embora a teoria de Anselmo tenha suas fraquezas, estas não anulam o sentido fundamental - uma expiação que presta contas.


Teoria Governamental
A teoria governamental deve sua origem a Hugo Grodus (1583-1645), jurista, estadista e teólogo holandês. Ele considerava Deus um Legislador que tanto promulga quanto sustenta as leis do Universo. A Lei é o resultado da vontade de Deus, e Ele tem a liberdade para "alterá-la ou até mesmo ab-rogá-la". A Lei declara inequivocamente: "A alma que pecar, essa morrerá". A justiça rigorosa exige a morte eterna dos pecadores.

Como poderia Deus impor respeito à Lei e, ao mesmo tempo, demonstrar clemência aos pecadores? Perdoá-los simplesmente, o que Ele poderia ter feito, não sustentaria a Lei. Ele mesmo a sustentou, não aplacando um princípio de ira judicial em sua natureza, mas apresentando a morte de Cristo como "um exemplo público da profundidade do pecado e de até que ponto Deus iria para sustentar a ordem moral do Universo". Os efeitos da morte de Cristo não se aplicariam diretamente a nós, mas apenas de modo secundário, sendo que Ele não teria morrido em nosso lugar, somente em nosso favor. Assim, o enfoque primário não era a salvação dos pecadores, mas a guarda da Lei. Na cruz, Deus mostrou que pode abominar a ilegalidade e, ao mesmo tempo, manter a Lei e perdoar os iníquos.

Embora a teoria governamental contenha um núcleo de verdade, pois "a penalidade imposta a Cristo também é instrumento para garantir os interesses do governo divino", não expressa o âmago do ensino bíblico, e nisso vemos a objeção principal. Ela presta um desserviço a muitas passagens bíblicas que, interpretadas no sentido mais óbvio, indicariam o tema da substituição na morte de Cristo (Mt 20.28; 26.28; Jo 10.14,15; 2Co 5.21; Ef 5.25). Também deixa de explicar a razão da escolha de uma pessoa sem pecado para demonstrar o desejo de Deus em sustentar a Lei. Por que não executar o pior dos pecadores? Por que Cristo, e não Barrabás? Este último certamente seria um exemplo mais claro da profundidade do desejo que Deus sentia de demonstrar quão detestável lhe era a ilegalidade. Além disso, a teoria governamental não considera plenamente a depravação da raça. Assim como a teoria da influência moral, toma por certo que um mero exemplo bastará para nos capacitar a levar adiante um modo de vida fiel à Lei. Nada poderia estar mais distante da verdade bíblica.


Teoria da Substituição Penal
Refletindo o pensamento básico dos reformadores, o evangelicalismo afirma a idéia da substituição penal para explicar o significado da mçrte de Cristo. Declara que Cristo suportou em nosso lugar a total penalidade que deveríamos pagar. Ou seja, sua morte foi vicária, totalmente em favor dos outros. Significa que Ele sofreu, não meramente para nosso benefício ou vantagem, mas em nosso lugar (gr. anti - "ao invés de", como em Mc 10.45 e 2Co 5.14).

O Novo Testamento jamais emprega a expressão "substituição penal", mas de todas as teorias esta parece representar mais adequadamente os ensinos da Bíblia. Leva a sério a Bíblia, que retrata a santidade e a justiça de Deus expressa na sua ira judicial. Considera plenamente o que a Bíblia diz a respeito de nossa depravação e a conseqüente incapacidade de nos salvarmos. Aceita literalmente as declarações que dizem tipologicamente (no sistema sacrificial), profeticamente (nas predições diretas) e historicamente (no registro do Novo Testamento) que Cristo "tomou o nosso lugar".

Devemos expressar com cuidado esta opinião, porque nem todos concordam com a teoria da substituição penal. Podemos responder algumas objeções, como as seguintes:

1. Sendo que o pecado não é externo, pode ser transferido de uma pessoa para outra? Fazer assim seria, na realidade, imoral. Entenda-se, porém, que não se trata de uma transferência mecânica de pecados, mas da identificação (a raça pecaminosa) que Cristo assumiu conosco, e diminuir-se-á a intensidade da objeção. Cristo tornou-se igual a nós, mas sem pecado. Seria possível, então, dizer também que é imoral a transferência da justiça de Cristo a nós? Precisamos compreender que Deus é o sacrifício. Em Jesus, Deus assumiu a culpa e suportou a penalidade.

2. A teoria da substituição penal subentende um conflito na Deidade: Cristo, Salvador amoroso, precsia arrancar o perdão do punho cerrado de um Pai irado, cuja justiça está acima do seu amor. A verdade, porém, é que as Escrituras claramente excluem essa dupla objeção. O Pai amou tanto ao mundo que enviou o Filho. João diz: "Nisto está a caridade: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 4.10). João 3.36 diz: "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece". O amor e a ira aparecem juntos com relação ao envio de Jesus a Terra. Nenhuma dessas qualidades aparece acima da outra.

3. A teoria da substituição minimiza a livre graça de Deus ao sugerir que Ele não perdoaria, e realmente não poderia perdoar, a não ser que fosse aplacado por um sacrifício, Embora haja nesta objeção alguma verdade, é falha por não reconhecer que a obra expiadora de Cristo é o próprio perdão de Deus, onde Ele demonstra que é perdoador e que realmente perdoa. Os que levantam objeções à teoria da substituição penal precisam reconhecer as implicações de semelhante decisão. Quem realmente suporta a penalidade pelo pecado: Cristo ou nós? Precisamos decidir entre os dois caminhos da redenção. O Cristianismo é uma religião de redenção? Se não for, onde está a nossa esperança? Caso afirmativo, fica implícita a substituição.


Fonte: Teologia Sistemática, CPAD. Stanley M. Horton




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