A Obra Salvífica de Cristo (Parte 5) - O Alcance da Obra Salvífica de Cristo
Há entre os cristãos uma diferença significativa de opiniões quanto à extensão da obra salvífica de Cristo. Por quem Ele morreu? Os evangélicos, de modo global, rejeitam a doutrina do universalismo absoluto (isto é, o amor divino não permitirá que nenhum ser humano ou mesmo o diabo e os anjos caídos permaneçam eternamente separados dEle). O universalismo postula que a obra salvífica de Cristo abrange todas as pessoas, sem exceção. Além dos textos bíblicos que demonstram ser a natureza de Deus de amor e de misericórdia, o versículo chave do universalismo é Atos 3:21, onde Pedro diz que Jesus deve permanecer no Céu "até aos tempos da restauração de tudo". Alguns entendem que a expressão grega apokastaseõs pantõn ("restauração de todas as coisas") tem significado absoluto, ao invés de simplesmente "todas as coisas, das quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas". Embora as Escrituras realmente se refiram a uma restauração futura (Rm 8:18-25; 1Co 15:24-26; 2Pe 3:13), não podemos, à luz dos ensinos bíblicos sobre o destino eterno dos seres humanos e dos anjos, usar esse versículo para apoiar o universalismo. Fazer assim seria uma violência exegética contra o que a Bíblia tem a dizer deste assunto.

Entre os evangélicos, a diferença acha-se na escolha entre o particularismo, ou expiação limitada (Cristo morreu somente pelas pessoas soberanamente eleitas por Deus), e o universalismo qualificado (Cristo morreu por todos, mas suas obra salvífica é levada a efeito somente naqueles que se arrependem e crêem). O fato de existir uma nítida diferença de opinião entre crentes bíblicos igualmente devotos aconselha-nos a evitar a dogmatização extrema que temos visto no passado e ainda hoje. Os dois pontos de vista, cada um pertencente a uma doutrina específica da eleição, têm sua base na Bíblia e na lógica. Os dois concordam que a questão não é de aplicação. Nem todos serão salvos. Os dois concordam que, direta ou indiretamente, todas as pessoas receberão benefícios da obra salvífica de Cristo. O ponto de discórdia está na intenção divina: tornar a salvação possível a todos ou somente para os eleitos?

Os particularistas olham para os textos bíblicos que dizem que Cristo morreu pelas ovelhas (Jo 10:11, 15), pela Igreja (Ef 5:25; At 20:28) ou por "muitos" (Mc 10:45). Citam também numerosas passagens que, em seus respectivos contextos, claramente associam os que crêem à obra expiadora de Cristo (Jo 17:9; Gl 1:14; 3:13; 2Tm 1:9; Tt 2:3; 1Pe 2:24). Os particularistas argumentam: (1) Se Cristo morreu por todos, Deus estaria sendo injusto se alguém perecesse pelos seus próprios pecados, pois Cristo tomou sobre si a penalidade total, pelos pecados de todos. Deus não cobraria duas vezes a mesma dívida. (2) A doutrina da expiação ilimitada leva logicamente ao universalismo, pois pensar de outra maneira lançaria dúvidas sobre a eficácia da obra de Cristo, que era para "todos". (3) A exegese e a hermenêutica sadias deixam claro que a linguagem universal nem sempre é absoluta (cf. Lc 2:1; Jo 12:32; Rm 5:18; Cl 3:11).

Os defensores do universalismo qualificado argumentam: (1) Somente este dá sentido à oferta sincera do Evangelho a todas as pessoas. Os oponentes respondem que a ordem no sentido de pregar o Evangelho a todos acha-se na Grande Comissão. Uma vez que a Bíblia ensina a eleição e não sabemos quais são os eleitos (cf. At 18:10: "Tenho muito povo nesta cidade [Corínto]"), devemos pregar a todos. Mas seria esta uma oferta genuína da parte de Deus, que diz "Todo aquele que desejar", quando Ele sabe que isso não é realmente possível? (2) Antes da ascensão do calvinismo, o universalismo qualificado havia sido a opinião majoritária desde o início da Igreja. "Entre os reformadores, a doutrina encontra-se em Lutero, Melanchthon, Bullinger, Latimer, Cranner, Coverdale e até mesmo Calvino, em alguns de seus comentários. Por exemplo, Calvino diz... a respeito de Marcos 14:24, 'que por muitos é derramado: Com a palavra muitos, Marcos quer dizer, não uma mera parte do mundo, mas a raça humana inteira'". (3) As acusações de que, se fosse verdade uma expiação ilimitada Deus seria injusto e que o universalismo seria a conclusão lógica, não podem ser sustentadas. Até mesmo os eleitos precisam crer para ser salvos. A aplicação da obra de Cristo não é automática. Se alguém optar por não crer, não significa que Cristo não tenha morrido por ele ou que se pode lançar suspeitas sobre o caráter de Deus.

O ponto crucial da defesa, no entanto, é não se poder facilmente considerar o significado óbvio dos textos universalistas. Diz Millard Erickson: "A hipótese da expiação universal consegue levar em conta um segmento maior do testemunho bíblico com menos distorção que a hipótese da expiação limitada". Por exemplo, Hebreus 2:9 diz que Jesus, pela graça de Deus, provou a morte para "todos". Fica bastante fácil argumentar que o contexto (2:10-13) não significa todos de modo absoluto, mas os "muitos filhos" que Jesus traz à glória. Semelhante conclusão, no entanto, vai além da credibilidade exegética. Além disso, há um sentido universal no contexto (2:5-8,15). Quando a Bíblia diz que "Deus amou o mundo de tal maneira" (Jo 3:16) ou que Cristo é "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1:29) ou que Ele é "o Salvador do mundo" (1Jo 4:14), significa isso mesmo.

Certamente a Bíblia emprega a palavra "mundo" num sentido qualitativo, referindo-se ao sistema maligno que Satanás domina. Mas Cristo não morreu em favor de um sistema. Entregou sua vida em favor das pessoas que dele fazem parte. Em texto algum do Novo Testamento, "mundo" se refere à Igreja ou aos eleitos. Paulo diz que Jesus "Se deu a si mesmo em preço de redenção por todos" (1Tm 2:6) e que Deus "quer que todos os homens se salvem" (1Tm 2:4). Em 1 João 2:1,2, temos uma separação explícita entre os crentes e o mundo e uma afirmação de que Jesus Cristo, o Justo, "é a propiciação" (v. 2) para ambos. H. C. Thiessen reflete o pensamento do Sínodo de Dort (1618-19): "Concluímos que a expiação é ilimitada no sentido de estar à disposição de todos; é limitada no sentido de ser eficaz somente para aqueles que crêem. Está à disposição de todos, mas é eficiente apenas para os eleitos".


Fonte: Teologia Sistemática, CPAD. Stanley M. Horton




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