A Obra Salvífica de Cristo (Parte 4) - Aspectos da Obra Salvífica de Cristo
O Sacrifício
Embora algumas idéias já tenham sido estudadas, faz-se necessário examinar mais de perto alguns aspectos da obra redentora de Cristo. Várias palavras bíblicas a caracterizam. Ninguém que leia as Escrituras de modo perceptivo pode fugir à realidade de que o sacrifício está no âmago da redenção, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A figura de um cordeiro ou cabrito sacrificado como parte do drama da salvação e da redenção remonta à Páscoa (Êx 12:1-13). Deus veria o sangue aspergido e "passaria por cima" daqueles que eram protegidos por sua marca. Quando o crente do Antigo Testamento colocava as suas mãos no sacrifício, o significado era muito mais que identificação (isto é: "Meu sacrifício"). Era um substituto sacrificial (isto é: "Sacrifico isto em meu lugar").

Embora não se deva forçar demais as comparações, a figura é claramente transferida a Cristo no Novo Testamento. João Batista apresentou-o, anunciando: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1:29). Em Atos 8, Filipe aplica às boas novas a respeito de Jesus a profecia de Isaías que diz que o Servo seria levado como um cordeiro ao matadouro (Is 53:7). Paulo se refere a Cristo como "nossa páscoa" (1Co 5:7). Pedro afirma que fomos redimidos "com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado" (1Pe 1:19). Até mesmo nas regiões celestiais, o Leão da Tribo de Judá era louvado e adorado como o Cordeiro que fora morto (Ap 5). Embora alguns possam achar "sanguinário" o conceito do sacrifício, removê-lo arranca da Bíblia o seu próprio âmago.

Os termos "propiciação" e "expiação" relacionam-se estreitamente com o conceito de sacrifício e procuram informar o efeito do sacrifício de Cristo. No Antigo Testamento, refletem kipper e seus derivados; no Novo, hilaskomai e seus derivados. Os dois grupos de palavras significam "aplacar", "pacificar" ou "conciliar" (isto é, propiciar) e "encobrir com um preço" ou "fazer expiação por" (a fim de remover pecado ou ofensa da presença de alguém: expiar). Às vezes a decisão de escolher um significado em preferência a outro tem mais a ver com a posição teológica que com o significado básico da palavra. Por exemplo, podemos tomar uma decisão teológica a respeito do que a Bíblia quer dizer com ira de Deus. Precisa ela ser aplacada?

Colin Brown refere-se a um "amplo segmento de estudiosos bíblicos que sustentam que o sacrifício na Bíblia tem mais a ver com a expiação que com a propiciação". G. C. Berkouwer refere-se à declaração de Adolph Harnack, no sentido de a ortodoxia conferir em Deus o "horrível privilégio" de não ter "condições de perdoar por amor". Leon Morris assim expressa o consenso geral dos evangélicos: "O ensino bíblico consistente é que o pecado do homem tem incorrido na ira de Deus... evitada pela oferta expiadora de Cristo. Deste ponto de vista, sua obra salvífica é corretamente chamada propiciação". Nem a Septuaginta nem o Novo Testamento esvaziaram o pleno significado de hilaskomai como "propiciação".

A Bíblia abandona a crueza freqüentemente associada à propiciação nos rituais pagãos. O Senhor não é uma divindade malévola e caprichosa, cuja natureza permanece tão inescrutável que nunca se sabe como Ele agirá. Mas sua ira não deixa de ser uma realidade. A Bíblia, no entanto, ensina que Deus, em seu amor, misericórdia e fidelidade às suas promessas, forneceu os meios pelos quais a sua ira seria aplacada. No caso do ensino neotestamentário, Deus não somente forneceu os meios como também veio a sê-los. 1 João 4:10 diz: "Nisto está a caridade: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em quem ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação [gr. hilasmos] pelos nossos pecados".

Todos os léxicos demonstram que kipper e hilaskomai significam "propiciar" e "expiar". A diferença está na interpretação de seu significado nas matérias bíblicas que tratam da expiação. Se aceitarmos o que a Bíblia diz a respeito da ira de Deus, uma solução possível se apresenta. As palavras têm uma referência vertical e uma horizontal. Quando o contexto focaliza a expiação em relação a Deus, falam da propiciação. Mas significam expiação quando o enfoque recai em nós e em nosso pecado. Não escolhemos "ou/ou", mas "tanto/quanto". O contexto histórico e literário determina o significado apropriado.

Uma pergunta pode surgir. Se Jesus suportou a penalidade da nossa culpa ao tomar sobre si a ira de Deus e cobrir o nosso pecado, teria sofrido exatamente as mesmas conseqüências e o mesmo tipo e grau de castigo que aqueles em favor dos quais morreu sofreriam cumulativamente? Afinal de contas, Ele era um só, e nós somos muitos. Assim como a muitíssimas interrogações desse tipo, não há uma resposta definitiva. A Bíblia não faz nenhuma tentativa nesse sentido. Lembremo-nos, no entanto, que não temos na cruz um evento mecânico ou uma transação comercial. A obra da salvação atua no plano espiritual, e não há analogias para explicar tudo isso.

Primeiramente, o sofrimento, pela sua própria natureza, não está sujeito a cálculo matemático nem a ser pesado na balança. Em certo sentido, sofrer o pior caso de braço quebrado é sofrer todos os casos. Morrer uma só morte excruciante e agonizante é morrer todas elas. Em segundo lugar, é preciso relembrar o caráter e a natureza do sofrimento pessoal. Cristo era perfeito em santidade e, portanto, não possuía nenhum senso de culpa ou remorso pessoal, que teríamos ao saber que estávamos sofrendo o justo castigo pelos nossos pecados. Há algo de heróico na incisiva repreensão do ladrão da cruz ao seu companheiro de crimes: "Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez" (Lc 23:40,41). A perfeição de Cristo não lhe diminuiu o sofrimento, e até pode tê-lo intensificado, por saber Ele que era imerecido. Sua oração, pedindo que não lhe fosse necessário "beber o cálice" não era um gesto teatral. Ele bem sabia o sofrimento que o esperava. O fato de Ele ter sofrido como Deus certamente lança luz sobre a questão.


A Reconciliação
Diferente de outros termos bíblicos e teológicos, "reconciliação" aparece em nosso vocabulário comum. É um termo tirado do âmbito social. Todo relacionamento interrompido clama por reconciliação. O Novo Testamento ensina com clareza que a obra salvífica de Cristo é um trabalho de reconciliação. Pela sua morte, Ele removeu todas as barreiras entre Deus e nós. O grupo de palavras empregado no Novo Testamento (gr. allssõ) ocorre raramente na Septuaginta e é incomum no Novo Testamento, até mesmo no sentido religioso. O verbo básico significa "mudar", "fazer uma coisa cessar e outra tomar o seu lugar". O Novo Testamento emprega-o seis vezes, sem referência à doutrina da reconciliação (por exexmplo, At 6:14; 1Co 15:51,52). Somente Paulo dá conotação religiosa a esse grupo de palavras. O verbo katallassõ e o substantivo katallagê transmitem com exatidão a idéia de "trocar" ou "reconciliar", da maneira como se conciliam os livros contábeis. No Novo Testamento, o assunto em pauta é primariamente o relacionamento entre Deus e a humanidade. A obra reconciliadora de Cristo restaura-nos ao favor de Deus porque "foi tirada a diferença entre os livros contábeis".

Os textos mais relevantes são Romanos 5:9-11 e 2 Coríntios 5:16-21. Em Romanos, Paulo coloca a ênfase na certeza de salvação. Usando suas vezes a expressão "quanto mais", ele assevera que a obra de Cristo nos salvará da ira de Deus (Rm 5:9) e que quando ainda éramos inimigos (Cl 1:21-22) a sua morte nos reconciliou com Deus. Logo, o fato de Ele estar vivo garante a nossa salvação (Rm 5:10). Podemos regozijar-nos em nossa reconciliação com Deus por meio de Cristo (5:11). Se em Romanos a ênfase recai sobre o que Deus fez "por nós" em Cristo, em 2 Coríntios incide sobre Deus como agente principal da reconciliação (cf. Cl 1:19,20). O sermos novas criaturas provém de Deus "que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo" (2 Co 5:18) e que "estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (5:19). Estes versículos enfatizam o que pode ser chamado reconciliação ativa: isto é, para que a reconciliação aconteça, a parte lesada desempenha papel primário. Se a pessoa lesada não demonstrar a disposição de acolher quem a lesou, não poderá haver reconciliação.

Observe como acontece a reconciliação nos relacionamentos humanos, entre marido e mulher, por exemplo. Se eu pecasse contra minha esposa e assim provocasse um rompimento em nossa relação, mesmo que eu tomasse a iniciativa e pedisse com sinceridade a reconciliação - com presentes, flores ou rogando de joelhos - seria necessário ela me perdoar de coração para que a restauração pudesse acontecer. Ela teria de tomar a iniciativa, pois sua atitude é fator crucial. Em Cristo, Deus nos garante que já tomou a iniciativa. Ele já nos perdoou. Agora, devemos corresponder, reconhecendo que já rasgou de cima a baixo o véu que nos separava dEle, e entrar com ousadia na sua presença perdoadora. Essa é a parte que devemos cumprir, aceitando o que Deus tem feito através de Cristo. Se não ocorrerem as duas ações, a reconciliação jamais acontecerá.


A Redenção
A Bíblia também emprega a metáfora do resgate ou da redenção para descrever a obra salvífica de Cristo. O tema aparece muito mais freqüentemente no Antigo Testamento que no Novo. O tema aparece muitas vezes no Antigo Testamento, referindo-se aos ritos da "redenção" no tocante às pessoas ou aos bens (cf. Lv 25; Rt 3 e 4, que empregam a palavra hebraica ga'al). O "parante redentor" funciona como um go'el. O próprio Javé é Redentor (heb. go'el) do seu povo (Is 41:14; 43:14), e eles são os redimidos (heb. ge'ulim, Is 35:9; 62:12). O Senhor tomou medidas para redimir (heb. padhah) os primogênitos (Êx 13:13-15). Ele redimiu Israel do Egito (Êx 6:6; Dt 7:8; 13:5) e também os remirá do exílio (Jr 31:11). As vezes Deus redime um indivíduo (Sl 49:15; 71:23); ou um indivíduo ora, pedindo a redenção divina (Sl 26:11; 69:18). Mas a obra divina na redenção é primariamente moral no seu escopo. Em alguns textos bíblicos, a redenção claramente diz respeito aos assuntos morais. Salmos 130:8 diz: "Ele remirá a Israel de todas as suas iniqüidades". Isaías diz que somente os "remidos", os "resgatados", andarão pelo chamado "O Caminho Santo" (Is 35:8-10). Diz ainda que a "filha de Sião" será chamada "povo santo, os remidos do Senhor" (62:11,12).

No Novo testamento, Jesus é tanto o "Resgatador" quanto o "resgate"; os pecadores perdidos são os "resgatados". Ele declara que veio "para dar a sua vida em resgate [gr. lutron] de muitos" (Mt 20:18; Mc 10:45). Era um "livramento [gr. apolutrõsis] efetivado mediante a morte de Cristo, que libertou da ira retributiva de Deus e da penalidade merecida do pecado". Paulo liga nossa justificação e o perdão dos pecados à redenção que há em Cristo (Rm 3:24; Cl 1:14, apolutrõsis neste dois textos). Diz que Cristo "para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção" (1Co 1:30). Diz, também que Cristo "se deu a si mesmo em preço de redenção [gr. antilutron] por todos" (1 Tm 2:6). O Novo Testamento demonstra claramente que Ele proporcionou a redenção mediante o seu sangue (Ef. 1:7; Hb 9:12; 1Pe 1:18-19; Ap 5:9), pois era impossível que o sangue dos touros e dos bodes tirasse os pecados (Hb 10:4). Cristo nos comprou (1Co 6:20; 7:23, gr agorazõ) de volta para Deus, e o preço foi o seu sangue (Ap 5:9).

Sendo que as palavras subentendem o livramento de um estado de escravidão mediante o pagamento de um preço, então, de que fomos libertos? A contemplação dessas coisas é motivo de grande alegria! Cristo nos livrou do justo juízo de Deus que realmente merecíamos, por causa dos nossos pecados (Rm 3:24,25). Ele nos livrou das conseqüências inevitáveis de se quebrar a lei de Deus, que nos sujeitava à ira divina. Embora não façamos tudo quanto a Lei requer, já não estamos debaixo de uma maldição. Cristo tomou sobre si essa maldição (Gl 3:10-13). A sua redenção conseguiu para nós o perdão dos pecados (Ef 1:7) e nos libertou deles (Hb 9:15). Ele, ao entregar-se por nós, remiu-nos "de toda iniqüidade [gr. anomia]" (Tt 2:14), mas não para usar a "liberdade para dar ocasião à carne" (Gl 5:13) ou como "cobertura da malícia" (1Pe 2:16). (Anomia é a mesma palavra que Paulo usa em 2 Tessalonicenses 2:3, ao referir-se ao "homem do pecado"). O propósito de Cristo ao redimir-nos é "purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras" (Tt 2:14).

Pedro diz que "fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que, por tradição, recebestes dos vossos pais" (1Pe 1:18). Não podemos ter certeza de quem são os "pais". Seriam pagãos, judeus, ou ambos? Ambos, provavelmente, pois o Novo Testamento considera fúteis os modos pagãos (At 14:15; Rm 1:21; Ef 4:17) e também vê certa futilidade nas práticas externas da religião judaica (At 15:10; Gl 2:16; 5:1; Hb 9:10,25,26; 10:3,4). Haverá, também, uma redenção final dos gemidos e dores da era presente quando acontecer a ressurreição, e veremos o resultado de termos sido adotados como filhos de Deus mediante a obra de Cristo na nossa redenção (Rm 8:22,23).

Os evangélicos crêem que o Novo Testamento ensina haver Cristo pago o preço pleno do resgate para nos libertar. Sua é a obra objetiva da expiação, cujos benefícios, quando aplicados a nós, não deixam nada a ser completado por nós. É uma obra definitiva, não poderá ser repetida. uma obra incomparável, que jamais será imitada ou compartilhada por outros.


Fonte: Teologia Sistemática, CPAD. Stanley M. Horton




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MENSAGEM #01
Mensagem Recebida: 10 de Abril de 2016, Domingo, 16h04
Publicada no Site: 12 de Abril de 2016, Terça Feira, 00h33
Nome: aristo olimpio de oliveira
Mensagem: muito bom



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