A Obra Salvífica de Cristo (Parte 1) - Introdução; O Significado de Salvação
Introdução
A obra salvífica de Cristo é a coluna central no templo da redenção divina. É o sustentáculo que carrega a maior parte do peso, sem o qual a estrutura jamais poderia ter sido completada. Podemos compará-la também ao eixo em torno do qual gira toda a atividade de Deus na revelação. É a obra que fornece uma cabeça ao corpo, um antítipo ao tipo, uma substância às sombras e prefigurações. Tais afirmações em nada diminuem a importância do que Deus fez em favor do seu povo, segundo a aliança do Antigo Testamento, e às nações em redor. Para os estudiosos das Escrituras, permanece sua incalculável relevância, refletindo o pensamento de Hebreus 1.1: "Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho". Deus falou de modo infalível e relevante no passado, mas não pela última vez. Sua derradeira palavra só chegou com a vinda de seu Filho, e o registro dessa vinda aparece de forma infalível e definitiva nos 27 livros do cânon do Novo Testamento.


O Significado de Salvação
O estudo da obra salvífica de Cristo deve começar pelo Antigo Testamento, onde descobrimos, nas ações e palavras divinas, a natureza redentora de Deus. Descobrimos tipos e predições específicos daquEle que estava para vir e do que Ele estava para fazer. Parte de nossas descobertas provém da terminologia empregada no Antigo Testamento para descrever a salvação, tanto a natural quanto a espiritual.

Qualquer um que tenha estudado o Antigo Testamento hebraico sabe quão rico é o seu vocabulário. Os escritores sagrados empregam várias palavras que fazem referência ao conceito geral de "livramento" ou "salvação", seja no sentido natural, jurídico ou espiritual. O enfoque recai em dois verbos: natsal e yasha'. O primeiro ocorre 212 vezes, mais freqüentemente com o significado de "livrar" ou "libertar". Deus revelou a Moisés ter descido para "livrar" Israel das mãos dos egípcios (Êx 3.8). Senaqueribe escreveu ao rei em Jerusalém: "O Deus de Ezequias não livrará o seu povo das minhas mãos" (2 Cr 32.17). Freqüentemente, o salmista implorava o salvamento divino (Sl 22.21; 35.17; 69.14; 71.2; 140.1). O emprego do verbo indica haver em vista uma "salvação" física, pessoal ou nacional.

O termo assume ainda conotação espiritual: a salvação mediante o perdão dos pecados. Davi apela a Deus para salvá-lo de todas as suas transgressões (Sl 39.8). Em Salmos 51.14, é provável que Davi tenha em mente a restauração e salvação espirituais pessoais, quando ora: "Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça".

Embora o Salmo 79 seja uma lamentação por causa da invasão de Israel e da profanação do Templo pelos inimigos, o salmista reconhece que um livramento só seria possível com o perdão dos seus pecados (v. 9).

A raiz yasha' ocorre 354 vezes, sendo a maior concentração nos Salmos (136 vezes) e nos livros proféticos (cem vezes). Significa "salvar", "livrar", "conceder vitória" ou "ajudar". Ocasionalmente, a palavra ocorre sem matizes teológicas, por exemplo, quando Moisés defende as filhas de Reuel e as livra da ação opressiva dos pastores (Êx 2.17). Mais freqüentemente, porém, tem Deus como o sujeito e o povo de Deus como o objeto. Ele livrou os seus de todos os tipos de aflição, inclusive de inimigos nacionais e pessoais (Êx 14.30; Dt 20.4; Jz 3.9; Jr 17.14-18) e de calamidades (2 Cr 20.9). Por isso, Yahweh é "Salvador" (Is 43.11,12), "meu Salvador" (Sl 18.14) e "minha salvação" (2 Sm 22.3; Sl 27.1).

Deus, mais freqüentemente, escolhia representantes para trazer a salvação. No entanto, "arte do próprio Deus". Em Ezequiel, o termo assume qualidades morais. Deus promete: "E nos livrarei de todas as vossas imundícias" (36.29); "E os livrarei de todos os lugares de sua residência em que pecaram e os purificarei" (37.23).

Lendo o Antigo Testamento e considerando séria e literalmente a sua mensagem, facilmente concluíremos que a salvação é um dos temas dominantes, e Deus, o protagonista. O tema da salvação já aparece em Gênesis 3.15, na promessa de que o Descendente - ou "semente" - da mulher esmagará a cabeça da serpente. "Este é o protoevangelium, o primeiro vislumbre da salvação que virá através daquEle que restaurará o homem à vida". Javé salvava o seu povo através de juízes (Jz 2.16,18) e outros líderes, como Samuel (1 Sm 7.8) e Davi (1 Sm 19.5). Javé livrou até mesmo a Síria, inimiga de Israel, por meio de Naamã (2 Rs 5.1). Não há salvador à parte do Senhor (Is 43.11; 45.21; Os 13.4).

O texto clássico do emprego teológico de yasha', entre os narrativos, é Êxodo 14, onde Javé "salvou Israel da mão dos egípcios" (v. 30). O evento veio a ser o protótipo do que o Senhor faria no futuro para salvar o seu povo. Tudo indicando o tempo em que Deus traria a salvação, mediante o Servo sofredor - a todos, não somente a Israel. Em Isaías 49.6, Ele diz ao Servo: "Também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra". Os "atos salvíficos no Antigo Testamento vão preparando o palco para o derradeiro ato salvífico, que incluirá todas as pessoas sob suas bênçãos".

No que diz respeito ao conceito de "salvar", "livrar" ou "libertar", a evidente riqueza lexical do Antigo Testamento não ocorre no Novo. Este emprega primariamente a palavra sõzõ, que significa "salvar", "preservar", ou "tirar do perigo", e suas formas derivadas. Na Septuaginta, sõzõ traduz yasha' em sessenta por cento das ocorrências, e sõtêria é empregada principalmente para os derivados de yasha'. O termo hebraico sustenta o nome que o anjo anunciou a José: "... e lhe porás o nome de JESUS, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados" (Mt 1.21). "O exegeta e filósofo judeu da Alexandria, Filo, atesta que o significado do nome era muitíssimo bem conhecido, ao interpretar assim o nome de Josué: 'lêsous sõtêria kyriou' - Jesus significa salvação mediante o Senhor". Por isso, a palavra empregada no Novo Testamento para a obra salvífica de Cristo reflete idéias veterotestamentárias.

Sõzõ pode referir-se a salvar a pessoa da morte (Mt 8.25; At 27.20,31), da enfermidade física (Mt 9.22; Mc 10.52; Lc 17.19; Tg 5.15), da possessão demoníaca (Lc 8.36) ou da morte que já sobreveio (Lc 8.50). Mas, na grande maioria das ocorrências, refere-se à salvação espiritual que Deus providenciou por meio de Cristo (1 Co 1.21; 1 Tm 1.15) e que as pessoas experimentam pela fé (Ef 2.8).

Embora o título "salvador" (gr. sõtêr) fosse atribuído pelos gregos aos seus deuses, líderes políticos e outros que trouxessem honra ou benefícios ao seu povo, na literatura cristã era aplicado somente a Deus (1 Tm 1.1) e a Cristo (At 13.23; Fp 3.20). O substantivo "salvação" (gr. sõtêria) aparece 45 vezes e se refere quase exclusivamente à salvação espiritual, que é a possessão presente e futura de todos os crentes verdadeiros. Todavia, embora as palavras gregas traduzidas por "salvar" e "salvação" não sejam muito freqüentes, o próprio Jesus proclama o tema do Novo Testamento quando diz: "O Filho do Homem veio buscar e salvar [sõsai] o que se havia perdido" (Lc 19.10).


Fonte: Teologia Sistemática, CPAD. Stanley M. Horton




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