Guerras Árabe-Israelenses


Por Cláudio Camargo

O panorama do Oriente Médio e, dentro dele, o conflito árabe-israelense, não pode ser compreendido senão na moldura mais geral do colonialismo e do imperialismo ocidentais. Desde o início do século XX, o controle daquela região do mundo pelas grandes potências transformou-se numa âncora do comércio mundial e, depois, da geopolítica global.

A expressão Oriente Médio é recente criação de cunho técnico e é marcado por nítida influência militar. Foi selecionada em 1902 para designar a área entre a Arábia e Índia, tendo como centro, do ponto de vista da estratégia naval, o Golfo Pérsico. É uma denominação que identifica o momento preciso em que os interesses petrolíferos entraram definida e definitivamente no planejamento estratégico dos estados-maiores das grandes potências. Faz parte do mapa-múndi desenhado pelo imperialismo no despontar do século XX. [1]

Assim, o chamado Oriente Médio viu-se engolfado pela disputa imperialista por matérias-primas e mercados e na definição de áreas de influência. Isso em grande medida determinou o surgimento de países - muitos deles artificiais, como a Jordânia e o Kuait - e de grande parte dos conflitos nos quais eles se veriam envolvidos ao longo do século XX. O processo tomou forma com o fim da Primeira Guerra Mundial, sob os escombros do Império Otomano, a potência que há séculos controlava grande parte da região. Nesse contexto, o Oriente Médio foi dividido em esferas de influência britânicas (Iraque, Palestina, Irã) e francesas (Síria e Líbano).

O advento da Segunda Guerra Mundial e a derrota do Eixo nazifascista criaram nova realdiade geopolítica mundial, na qual o equilíbrio de poder internacional estabelecido pelas antigas potências coloniais europeias - França e Grã-Bretanha - deu lugar a um mundo bipolarizado, dominado pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Na Guerra Fria, os conflitos entre árabes e israelenses ficaram inseridos no imenso campo de batalha travado por americanos e soviéticos.

Embora estabelecendo uma aliança muito estreita com Israel, o governo americano tinha o cuidado de manter como aliados as monarquias árabes produtoras de petróleo (Arábia Saudita e emirados do Golfo Pérsico). Moscou, por sua vez, dava apoio aos regimes árabes nacionalistas do Egito, da Síria e do Iraque. Mas nem americanos nem soviéticos controlavam inteiramente seus "peões" no tabuleiro; às vezes, estes agiam por conta própria, acionando os alarmes na Casa Branca e no Kremlim. Foi o que aconteceu com Israel, na Guerra de 1956, e com os árabes em 1973, quando o Egito desencadeou a Guerra do Yom Kippur, na terminologia israelense, ou Guerra de Novembro, na árabe.

O colapso da União Soviética, em 1990-1991, deixou os Estados Unidos como única superpotência mundial, o que lhes permitiu dar as cartas na região. A invasão do Iraque por uma coalizão liderada pelos americanos, em 1991, abriu caminho para a formulação dos Acordos de Oslo, uma frágil paz entre israelenses e palestinos. Israel estabeleceu tratados de paz com o Egito e a Jordânia mas a incapacidade política das lideranças palestinas e israelenses desencadeou, já em 2000, nova guerra civil. Na outra ponta, a presença americana na Arábia Saudita desatou forte reação árabe contra os americanos, que tem relação direta com os ataques terroristas a Nova York e Washington em 11 de Setembro de 2001.

Apesar dessa moldura geral em que se inscreve, o conflito árabe-israelense não pode ser reduzido unicamente às maquinações das grandes potências. O que se pode dizer é que estas certamente potencializaram seus efeitos. Assim, ao lado do contexto da luta interimperialista pela conquista de matérias-primas, mercados e esferas de influência, é necessário entender que o conflito árabe-israelense tem um leitmotiv próprio e poderoso.

Uma parábola do historiador Isaac Deutscher (1907-1967) pode ser a síntese desse drama:

Um homem pula do teto de uma casa em chamas, na qual muitos de sua família já morreram. Consegue salvar-se, mas na queda atinge uma pessoa, quebrando-lhe braços e pernas. Não havia escolha para os que saltou, mas o que ficou ferido culpa o outro por sua desgraça; e este, temendo vingança, surra-o cada vez mais que o encontra. [2]


Do Sionismo à Criação de Israel (1882-1948)
Pouco depois do 1 Congresso Sionista, realizado na Basileia (Suíça) em 1897, alguns rabinos de Viena enviaram dois representantes à Palestina, que então era uma possessão do Império Otomano habitada majoritariamente por árabes. Era uma missão exploratória para verificar a viabilidade das decisões daquele Congresso, que havia aprovado a criação de um "lar nacional" na Palestina para o povo judeu. Em outras palavras, o Congresso decidiu lutar pelo estabelecimento de um Estado judeu no mesmo local onde os hebreus viveram na Antiguidade, antes de serem expulsos por babilônios e, depois, pelos romanos e dispersos pelo mundo na chamada "diáspora".

Para isso, os sionistas previam a aquisição de terras na Palestina e a emigração de judeus para lá (na verdade, a aliya, como é chamada em hebraico a emigração para a Palestina, começara bem antes, em 1882). Depois de algum tempo, os emissários dos rabinos enviaram o seguinte telegrama a Viena: "A noiva é bela, mas está casada com um outro homem".[3] Era uma referência explícita ao fato de que uma população árabe já vivia naquela terra que os judeus reivindicavam como suas. Tempos depois, em 1907, Yitzhak Epstein, professor judeu-russo que se estabelecera na Palestina, registrou as mesmas inquietações:

Entre as graves questões suscitadas pelo conceito do renascimento do nosso povo em seu próprio solo, há uma que é mais importante do que todas as outras juntas: é a questão das nossas relações com os árabes. Essa questão não foi esquecida, mas permanece completamente oculta por parte dos sionistas e, em sua forma genuína, não encontrou quase nenhuma menção na literatura do nosso movimento.

O professor israelense Avi Shlaim, da Universidade de Oxford, autor do livro A muralha de ferro: Israel e o mundo árabe, completa: "A angústia de Epstein foi posta de lado pela maioria de seus contemporâneos sionistas. Porém, a questão oculta voltou a assombrar o movimento sionista e o Estado de Israel ao longo dos primeiros 50 anos de sua existência". [4]

A ideia do sionismo ganhara forma em 1896, quando o jornalista judeu húngaro Theodor Herzl (1860-1904) escreveu o livro Der Judenstaat (O Estado Judeu), defendendo a necessidade da criação de um Estado nacional judaico como resposta ao recrudescimento do antissemitismo na Europa Central e Oriental e ao fracasso da assimilação dos judeus nos países da Europa Ocidental. O curioso é que o próprio Herzl era um judeu assimilado - vivia em Viena, capital do Império Áustro-Húngaro -, que somente despertou para o problema judaico depois de ter presenciado, como jornalista, o virulento antissemitismo suscitado pelo Affair Dreyfus (1894-1906). Tratava-se do caso do capitão Alfred Dreyfus, oficial judeu do Exército francês que foi injustamente acusado pelos militares de traição, expulso, humlhado, condenado e enviado para o desterro na ilha do Diabo. Durante anos a fio, o episódio dilacerou a França, reabrindo feridas surgidas na Revolução de 1789, que opunham, de um lado, os defensores dos valores iluministas, como os republicanos, socialistas e democratas e, de outro, os nostálgicos do ancien régime (antigo regime), como o Exército, a Igreja Católica e os conservadores.

O sionismo, na verdade, inscreve-se no quadro dos nacionalismos europeus do século XIX. Corresponde a uma resposta dos judeus assimilados da Europa à imigração de judeus pobres da Rússia, fugindo das perseguições do czarismo.

O sionismo é um movimento nacional, cunhado na Europa Ocidental por judeus emancipados, para responder a uma problemática da sociedade capitalista explicitada pelos judeus do Império Russo: "[...] em crise, o Império Russo estimula a ideologia antissemita, a ponto de as portas irem se fechando às camadas diferentes dentre os judeus [...]. Respondendo a esse antissemitismo, apoiando-se no nacionalismo europeu, desenvolve-se o sionismo, que é fruto das contradições do capitalismo russo que destruíra as bases do antigo regime.[5]

Um precursor de Herzl, Leon Pinsker, deixa explícita a ideia de criar colônias em outros países para os judeus pobres vindos da Rússia, os quais ele temia que abalassem o status dos emancipados na Europa Ocidental:

[Ele] pensa numa entidade colonizadora, liderada pela elite que, de forma organizada - e sem preocupação com os eventuais habitantes do lugar -, instalaria o "excedente judaico" na Síria, na Palestina ou nos Estados Unidos. A atividade colonizadora, natural para o capitalismo europeu em expansão, parece ser o caminho/solução da "questão judaica"'.[6]

Os sionistas tiveram sua primeira grande vitória diplomática em meio à Primeira Guerra Mundial com a Declaração Balfour de 1917, uma carta que o ministro do Exterior britânico Arthur James Balfour enviou ao lorde L. W. Rothschild, na qual expressava o apoio do governo de Sua Majestade Britânica ao projeto sionista. Na época da divulgação da declaração, a população judaica na palestina era de cerca de 56 mil pessoas, contra uma população árabe nativa de 644 mil almas. Os sionistas acreditavam que os benefícios econômicos trazidos pela emigração judaica atenuariam a resistência árabe à entrada de judeus na Palestina.

Mas a Grã-Bretanha estava em plena guerra contra o Império Otomano e, como precisava do apoio das populações árabes que habitavam aqueles territórios controlados pelos turcos, prometeu-lhes também mundos e fundos. Por isso, antes da Declaração Balfour, o governo de Londres havia se comprometido com o emir Hussein ibn Ali, prefeito de Meca, a apoiar o estabelecimento de um reino árabe independente no Oriente Médio, em retribuição ao esforço árabe na guerra contra os otomanos. Pior: antes dessas vãs promessas, em 1916, os britânicos haviam firmado com os franceses os Acordos Sykes-Picot, que previam a divisão do Oriente Médio em esferas de influência anglo-francesas em caso de vitória dos Aliados da Tríplice Entente (França, Grã-Bretanha e Rússia) contra a Tríplice Aliança (Alemanha, Austro-Hungria e Império Otomano).

Da conferência de paz de Paris, em 1919, nasceu o sistema de mandatos, relativos a nações antes pertencentes ao finado Império Otomano, que deveriam ser administrados pelas potências aliadas vencedoras (leia-se França e Grâ-Bretanha), em tese para preparar esses povos para se organizarem como países e, num futuro não definido, viverem como Estados indepedentes. Assim, o Tratado de San Remo, de 1920, criou os mandatos britânicos sobre os territórios da Mesopotâmia (Iraque), da Palestina e da Transjordãnia (futura Jordânia), enquanto a França ficou com a Síria e Líbano.

Em 1922, a Liga das Nações - antecessora da ONU - aprovou o sistema de mandatos, incluindo os termos da Declaração Balfour sobre o estabelecimento de um lar nacional judaico na Palestina. E, claro, isso provocou o ressentimento dos árabes. Afinal, de um elemento da política externa da Grã-Bretanha, o mandato britânico sobre a Palestina fez do patrocínio ao projeto sionista uma política oficial da Liga das Nações. E a Grã-Bretanha, em vez de impulsionar a independência da Palestina, passou a preocupar-se com a colonização judaica. Na verdade, a "pérfida Albion", como era chamada a Inglaterra, pretendia manter seu controle sobre a Palestina, uma região estratégica situada próxima ao Iraque, onde os ingleses tinham expectativa de encontrar petróleo - o que somente ocorreria em 1927.

Com isso, as organizações sionistas intensificaram a emigração de judeus da Europa Oriental e Central para a Palestina. Em 1931, já havia na região 174.600 judeus, numa população total de 1.035.800. A emigração era impulsionada pela crise econômica mundial desencadeada com o crack da bolsa em Nova York em 1929, que fortalecia na Europa os movimentos nacionalistas e antissemitas, de cunho fascistas. O Fundo Nacional Judaico, braço da Organização Sionista Mundial, intensificou a compra de terras, que se tornavam "propriedade eterna do povo judaico", inalienável, que só poderiam ser arrendadas a judeus. Nesse ínterim, desenvolvia-se um movimento nacional palestino, liderado por Hajj Amin al-Husseini, o grão-múfti (principal autoridade legal dos muçulmanos) de Jerusalém. Rejeitando qualquer proposta de conciliação, Husseini liderou em 1936 uma grande revolta contra as autoridades britânicas e os judeus. "Nós e eles queremos a mesma coisa: ambos queremos a Palestina. E esse é o conflito fundamental", declarou na época David Ben-Gurion, futuro fundador e primeiro-ministro de Israel.

Essa escalada de violência obrigou o governo britânico a dar um giro na sua política em relação ao sionismo. Em 1937, uma comissão liderada por lorde Peel concluiu que o nacionalismo judaico era tão intenso e autocentrado quanto o nacionalismo árabe. Por isso, propôs um plano de partilha da Palestina entre dois Estados separados, um judeu e outro árabe. O plano foi rejeitado pelos dois lados e, em 1939, Londres abandonou a defesa do lar nacional judaico e editou o famoso Livro Branco. O documento propunha o fim da imigração judaica em cinco anos, limitando a 75 mil o total de imigrantes durante esse tempo; a criação de um Estado binacional para judeus e árabes e a exclusão da Transjordânia da área disponível para a ocupação judaica.

A mudança da política britânica coincidiu com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A retirada do apoio do governo de Sua Majestade Britânica ao projeto sionista tinha a ver, mais uma vez, com a necessidade de Londres de contar com o apoio árabe, desta vez contra a Alemanha nazista. Então, para combater o poderio árabe, os judeus formaram suas milícias; a principal delas seria a Haganá (Defesa, em hebraico), embrião das futuras Forças de Defesa de Israel (FDI).

Essas milícias também lutaram ao lado dos britânicos contra os nazistas, mas as organizações de extrema direita judaica como o Irgun Zvai Leumi (organização militar nacional) e a Gangue Stern (também conhecida como Lohamei Herut Israel ou combatentes pela liberdade de Israel), lutaram principalmente contra os britânicos e os árabes. O Irgun, aliás, foi o responsável pela explosão do Hotel King David, em 1946, em Jerusalém, que causou a morte de 91 pessoas, entre britânicos, árabes e judeus. Seu principal líder era Menachem Begin (que anos depois, como primeiro-ministro de Israel, assinaria a paz com o Egito). Já o múfti Hajj Amin al-Husseini aliou-se a Adolf Hitler contra os britânicos e os judeus. Mas essas são outras histórias e ainda estamos falando da catástrofe na Europa.

A Segunda Guerra Mundial acabou criando condições políticas favoráveis ao projeto do sionismo. O principal motivo, que alinhou a opinião pública mundial ao lado da causa judaica, foi a revelação do maior genocídio da história, o extermínio de cerca de 6 milhões de judeus perpetrado pelo regime nazista, principalmente em campos da morte na Europa Oriental como Auchwitz-Birkenau, Chelmno, Majdanek, Treblinka e Sobibor. O horror do Holocausto acabou acelerando a imigração ilegal de judeus para a Palestina, principalmente daqueles oriundos da Europa Central e Oriental. A população judaica na região passou de 445 mil, em 1939, para 808 mil em 1946, de uma população total de 1,5 milhão e 1,97 milhão, respectivamente.

Com o fim da guerra, a Comissão Anglo-Americana na Palestina propôs em 1946 a continuidade do mandato britânico, decisão rejeitada pela Organização Sionista Mundial, que exigia o estabelecimento de um Estado judeu. O problema foi transferido para a recém-fundada Organização das Nações Unidas (ONU). Em novembro de 1947, a Assembléia Geral da ONU, presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, votou a resolução 181, sobre a partilha da Palestina, estabelecendo a criação de um Estado judeu ao lado de um Estado Palestino. A resolução, aprovada por 33 votos (incluindo Estados Unidos e União Soviética) contra 13 e 10 abstenções, dava ao futuro Estado judeu, que tinha 30% da população, 53,5% do território, e ao Estado Palestino, com 70% da população, 45,4% das terras. Pela proposta, Jerusalém ficaria sob controle internacional.

A resolução foi aceita pela Organização Sionista Mundial, mas rejeitada pelos países árabes, àquela altura independentes. Nesse ínterim, Golda Meir, emissária de Ben-Gurion e futura primeira-ministra israelense, tentou um acordo com um monarca árabe moderado, o rei Abdulah, da Transjordânia, pelo qual judeus e jordanianos dividiram a Palestina às expensas dos palestinos. Tanto Ben-Gurion como Abdullah tinham laços com a Grã-Bretanha e interesse em aniquilar a resistência palestina liderada por Hajj Al-Husseini. Apesar da boa vontade recíproca, o acordo não prosperou devido à polarização que a partilha provocou entre árabes e judeus.

A violência entre as duas comunidades explodiu, antecipando a retirada britânica. Depois de ter submetido a região a seus caprichos durante mais de duas décadas, a Grã-Bretanha declarou-se incapaz de mediar os conflitos e antecipou a retirada de suas tropas de outubro para abril de 1948. Em 9 de abril, as milícias do Irgun e do Stern, lideradas pelos futuros primeiros-ministros Menachem Begin e Yitzhak Shamir, massacraram mais de cem civis árabes, inclusive velhos e crianças, em Der Yassin, uma aldeia na vizinhança de Jerusalém, provocando a fuga de mais de 100 mil palestinos. Era o início de um drama interminável, que até hoje envenena as relações entre as duas comunidades.

O Estado de Israel foi proclamado em 14 de maio de 1948 e imediatamente reconhecido pelos Estados Unidos e pela União Soviética. No dia seguinte, a nação recém-nascida foi atacada por forças regulares do Egito, da Síria, da Transjordânia, do Líbano e do Iraque, que reforçaram as forças irregulares palestinas e o Exército Árabe de Libertação, comandado pela Liga Árabe.


1948-1949: A Glória Israelense e a Desgraça Árabe-Palestina
Ao contrário do que diz a historiografia oficial israelense, a Guerra da Independência de Israel não foi uma luta de Davi contra Golias. A vitória final dos israelenses refletiu o equilíbrio militar no campo de batalha, como hoje reconhecem muitos historiadores do país. A Haganá tinha cerca de 30 mil homens, incluindo 2.500 na Palmach, a unidade de elite, 3.500 nas milícias do Irgun e da Gangue Stern. Durante a primeira trégua, a Haganá recebeu suprimentos ilegais de armas vindas da Thecoslováquia. Parece incrível que um país da órbita soviética ajudasse os israelenses contra os árabes, mas naquela época as peças do tabuleiro do Oriente Médio ainda estavam sendo dispostas. A URSS foi o segundo país a reconhecer Israel, depois dos EUA, e na época da Independência nutria esperança de influenciar o Estado sionista. As raízes profundas do apoio soviético inicial a Israel encontram-se nas vertentes socialistas do movimento sionista e na concepção marxista de superioridade histórica das sociedades europeias.

Os soldados judeus também estavam muito bem treinados e motivados, tanto que os efetivos da Haganá triplicaram até o final dos conflitos, atingindo 94 mil homens em armas em dezembro de 1948. Do lado árabe, havia inicialmente uma superioridade numérica, cerca de 40 mil soldados e milicianos, mas escasso treinamento militar. As tropas mais bem preparadas eram as da Síria e do Egito.

O ataque árabe começou com o bombardeio de Tel-Aviv por aviões egípcios, em 14 de maio. No dia seguinte, as tropas sírias atacaram o vale do Jordão, capturando a cidade de Zemah. Em 20 de maio, capturaram a cidade de Degania, mas foram rechaçados pela Haganá. O Exército sírio retirou-se em 23 de maio. No norte, o Exército libanês atacou o norte da Galileia, mas foi detido por um contra-ataque israelense. Outras forças árabes conseguiram penetrar na Galileia central, onde foram recebidos por árabes palestinos. Simultaneamente, os sírios voltaram ao ataque, capturando a localidade de Mishmar Hayarden.

As forças do Iraque atacaram Gesher mas foram rechaçados por tropas israelenses, que, numa contraofensiva, conquistaram várias aldeias árabes e a cidade de Jenin. O Egito atacou pelo sudoeste, no deserto de Negev, mas foi contido no povoado de Yad Mordechai. Os egípcios foram atacados, pela primeira vez, por aviões da Força Aérea Israelense, quatro velhos Messerschmit BF-109 alemães. Já o Exército da Transjordânia cruzou o rio Jordão e atacou a cidade nova de Jerusalém, habitada majoritariamente por judeus, e a cidade velha, de maioria árabe. A Haganá resistiu ao cerco na cidade nova, mas a parte velha de Jerusalém caiu nas mãos dos transjordanianos. Sob os auspícios da ONU, um cessar-fogo foi assinado em 11 de junho de 1948. A trégua seria utilizada pelos dois lados para ganhar terreno.

Mas o cessar-fogo foi abalado por um conflito interno em Israel. Desde 28 de maio, a Haganá se havia transformado em Forças de Defesa de Israel (FDI), e o governo proibiu a existência de milícias como a Stern e o Irgun, que deveriam incorporar-se às forças regulares. Mas as milícias continuaram atuando de maneira independente. O Irgun designou até um navio, o Altalena, para trazer cerca de mil voluntários, armas e munições. O premiê David Ben-Gurion não permitiu que o Irgun ficasse com parte do armamento e, ante a recusa da organização, ordenou que a Palmach - a força especial da FDI comandada por Yigal Alon e Yithzak Rabin - impedisse a qualquer custo a captura das armas pelos rebeldes. O ataque ocorreu a 22 de junho em Tel-Aviv, quando a Palmach bombardeou o Altalena, que se incendiou, causando a morte de mais de cem pessoas. Muitos se jogaram no mar e foram salvos por botes, inclusive Menachem Begin, o líder do Irgun.

Enquanto isso, a guerra com os árabes continuava. O mediador enviado pelo Conselho de Segurança da ONU, o conde Folke Bernadotte, da família real sueca, propôs uma parceria entre a Transjordânia e Israel. Pelo plano, o rei Abdullah, da Transjordânia, ficaria com o controle da Margem Ocidental, conhecida como Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental; os árabes ficariam com a região de Negev, ao sul, e Israel com a Galileia Ocidental. A imigração judaica seria ilimitada durante dois anos e depois ficaria sob controle de uma agência da ONU. E os refugiados palestinos teriam permissão para voltar às suas casas. A proposta era inaceitável para os israelenes, porque não refletia o equilíbrio de forças militares, e para os árabes, porque implicava demasiadas concessões aos israelenses e ao rei Abdullah - o chefe nominal das forças militares árabes -, mas que era tido pelos israelenses como "o melhor inimigo dos judeus".

Em 9 de julho, os árabes romperam a trégua e a luta recomeçou. Em dez dias, as forças israelenses, reforçadas, mantiveram a contraofensiva e conquistaram novas posições. Enquanto isso, a ONU fez nova proposta: a divisão da Palestina entre Israel e a Transjordânia. Israel ganharia a Galileia Ocidental e o Reino de Abdulah ficaria com Jerusalém e o Negev. Embora tivesse o apoio dos EUA e da Grã-Bretanha, a proposta foi derrotada, porque os outros países árabes e a URSS se opuseram. Enquanto isso, Israel ocupava militarmente o Negev. Em setembro, o conde Bernadotte foi assassinado por membros da Gangue Stern, entre os quais se incluía o futuro primeiro-ministro do Likud, Yitzhak Shamir. O terrorismo, como se vê, nunca foi instrumento exclusivo dos árabes e palestinos.

Em dezembro, as FDI lançaram uma ofensiva no sul, ocupando a Faixa de Gaza e o deserto do Sinai, mas se retiraram depois de intensa pressão dos americanos. Em 7 de janeiro de 1949, Israel e os países árabes aceitaram os apelos do Conselho de Segurança para iniciar as negociações para um armistício. Apesar de sofrer pesadas perdas humanas, Israel saíra-se vitorioso e confiante, enquanto os árabes estavam derrotados e exauridos. Entre novembro de 1947 e janeiro de 1949, mais de 5 mil judeus morreram e 2 mil civis ficaram feridos, de uma população de 650 mil - quase 1% da população. Os árabes provavelmente tiveram baixas numericamente ainda maiores, mas os números nunca foram divulgados.

As fornteiras foram estabelecidas ao longo das linhas que marcavam as posições existentes dos exércitos. A primeira guerra árabe-israelense terminou oficialmente em 20 de julho de 1949, quando foi assinado o útlimo acordo, entre Israel e Síria. Depois da guerra, Israel tinha expandido muito seu território: de 55% da Palestina que lhe tinham sido atribuídos pelo plano de partilha da ONU, conquistou 79% dela pelas armas. Essas terras tornaram-se, de fato, território de Israel. Ficaram de fora a cadeia de baixas montanhas do centro e sul da Palestina, conhecidas como Margem Ocidental ou Cisjordânia, que ficou sob controle da Transjordânia, além da Faixa de Gaza, que ficou sob administração militar egípcia. Jerusalém foi dividida entre a parte oriental - a cidade antiga e o bairro extramuros, que foram ocupadas pelos jordanianos; e a parte ocidental extramuros, que ficou sob o controle de Israel.

O governo israelense proclamou Jerusalém como capital, decisão que foi ignorada pela comunidade internacional, pois violava a resolução 181 das Nações Unidas, que recomendava status internacional para a cidade. A parte oriental da cidade foi anexada pela Transjordânia, agora renomeada Reino Hachemita da Jordânia. O Estado de Israel foi admitido na ONU em 11 de Maio de 1949.

As grandes vítimas da Guerra de Independência foram os palestinos que, como os judeus na Antiguidade, passaram a viver sua própria diáspora. Quando o conflito terminou, mais de 700 mil palestinos tinham fugido do território conquistado pelos israelenses. A maioria dos refugiados foi para a Cisjordânia e Transjordânia (350 mil); os demais foram para a Faixa de Gaza (190 mil), Líbano (100 mil), Síria (75 mil), Egito (4 mil), Iraque (4 mil). Israel jamais permitiu o retorno desses refugiados, que constituem até hoje um dos grandes obstáculos para a paz na região. A resolução 194 da ONU reconheceu o direito de os refugiados palestinos retornarem a seus lares ou serem indenizados, mas Israel sempre se recusou a aceitá-la. "De modo interessante, o acordo pós-guerra baseou-se no mesmo princípio com o qual o rei Abdullah e Golda Meir tinham concordado em novembro de 1947: a partilha da Palestina à custa dos palestinos."[7]


1956: Derrota Militar, Vitória Política do Egito
Apesar dos armistícios, a convivência entre Israel e os Estados árabes estava longe de ser pacífica. A derrota teve consequências políticas graves no mundo árabe: golpes militares derrubaram os reinos da Síria (1949) e do Egito (1952), marcando a ascensão de regimes militares nacionalistas. O mais famoso deles seria o do coronel Gamal Abdel Nasser, do Egito, que em pouco tempo chamaria para si a bandeira do pan-arabismo.

Essa bandeira originou-se no processo de enfraquecimento do Império Otomano, no século XIX, ganhou impulso com a ascensão dos Jovens Turcos - os militares reformadores do Império - e tomou forma em oposição aos Acordos Sykes-Picot e aos Estados árabes formados na sua esteira. Seu líder mais expressivo foi Hussein ibn Ali, que lutava por unir os povos árabes num Estado árabe independente. Com a formação de Israel, o pan-arabismo centrou-se na luta pela expulsão dos sionistas da Palestina. A tentativa de Nasser de criar um embrião desse Estado - a união da Síria e do Egito na República Árabe Unida - fracassou em 1961.

Na Jordânia, o rei Abdullah, tido como "amigo de Israel", foi assassinado em 1951 em Jerusalém por um muçulmano fanático, que temia que o monarca fizesse uma paz em separado com os israelenses. Empenhados em "empurrar os judeus para o mar", os árabes tentaram construir um cerco ao nascente Estado judaico através de um boicote econômico total. Assim, o comércio entre Israel e o mundo árabe foi proibido e qualquer governo que estabelecesse laços comerciais com a "entidade sionista" seria excluído do comércio com as nações árabes.

Para os governantes de Israel, nova guerra contra os países árabes era uma questão de tempo. No gabinete do premiê Ben-Gurion, destacavam-se as posições do general Moshe Dayan, chefe do Estado-Maior das FDI - um "falcão" que queria provocar o Egito para a guerra antes que aquele país árabe estivesse militarmente preparado -, e o chanceler Moshe Sharett, que pretendia impedir a todo custo novo confronto. Ao mesmo tempo, Sharett apostava no bom relacionamento de seu país com os EUA, inclusive para obter armas dos americanos.

Sob a presidência de Dwight Eisenhower, a Casa Branca acreditava que Israel deveria fazer concessões para buscar a paz com os países árabes. Washington queria evitar a polarização com os soviéticos na região, já que Moscou estava apoiando e armando os novos regimes árabes. Mas Dayan, com o apoio de Shimon Peres - outro futuro primeiro-ministro -, jogava suas cartas na hipótese de que se Israel se comportasse mal, poderia receber armas como "incentivo" para ter um comportamento mais adequado. O pano de fundo era a constituição de uma aliança estratégica dos EUA com Israel, em contraposição à aproximação do Egito com a URSS.

Com a complacência de Ben-Gurion, Dayan e Peres trabalharam para costurar uma aliança com a França, que pretendia atacar o Egito pelo apoio do Cairo aos guerrilheiros da Frente de Libertação Nacional (FLN) da Argélia, àquela altura ainda uma colônia francesa. "A França só nos dará armas se lhe dermos uma ajuda séria na questão argeliana. Ajuda séria significa matar egípcios, nada menos", disse Dayan a Ben-Gurion.[8] O acordo foi possível depois que os EUA deixaram claro que não enviariam armas a Israel, de maneira a pressionar o governo de Ben-Gurion. Para contrabalançar o armamento dos egípcios pelos soviéticos, o governo francês forneceu 72 aviões Mystère e 200 tanques AMX, fazendo o equilíbrio militar pender novamente para o lado de Israel. Assim, do ponto de vista militar, o Egito não representava mais ameaça à segurança de Israel.

Em 26 de julho de 1956, Nasser anunciou a nacionalização do canal de Suez. A declaração veio em resposta à recusa dos americanos em financiar a construção da represa de Assuã. A nacionalização do canal atingia diretamente a França e a Grã-Bretanha, que eram as principais acionistas da Companhia do Canal, Paris e Londres começaram a discutir uma operação conjunta contra Nasser, embora o governo britânico quisesse manter Israel fora da questão.

Em outubro, Ben-Gurion, Dayan e Peres foram a Paris discutir com o primeiro-ministro francês, o socialista Guy Mollet, e com o secretário do Exterior britânico, Selwyn Lloyd. No encontro, os governos dos três países concordaram em realizar uma ação militar comum para retomar o controle do canal de Suez do Egito. De quebra, os israelenses conseguiram um acordo para a construção de um reator nuclear e o fornecimento de urânio enriquecido, conforme revelado em 1995 nas memórias de Shimon Peres.[9]

A campanha foi lançada em 29 de outubro, quando um destacamento de paraquedistas pulou no desfiladeiro de Mitla, na península do Sinai. Os egípcios mobilizaram suas tropas e os governos da Grã-Bretanha e da França, como combinado, exigiram a retirada de ambas as forças em conflito. A FDI retirou-se, mas as tropas de Nasser não, dando o pretexto esperado para a intervenção franco-britânica. A Royal Air Force e a Armée d'Air bombardearam os campos de aviação egípcios. Em poucos dias, as tropas israelenses avançaram no Sinai, empurrando os egípcios para a margem esquerda do canal de Suez.

Mas a vitória aplastada no campo militar sofreu um duro revés na arena diplomática. Os Estados Unidos e a União Soviética pressionaram duramente Israel para se retirar, de imediato, da Faixa de Gaza e do Sinai. O governo soviético chegou a ameaçar atacar os israelenses. A administração Eisenhower ficou furiosa com a iniciativa anglo-francesa e levou o caso à Assembléia Geral da ONU, onde a operação foi submetida a duras críticas. Além disso, o presidente americano ameaçou cortar toda a ajuda oficial e privada a Israel, além de eventualmente apoiar a expulsão do país da ONU. Washington via seus interesses na região dentro do prisma maior da Guerra Fria e não podia permitir que seus aliados, em nome de interesses nacionais, se arriscassem a um confronto com os soviéticos. Em 9 de novembro, o governo israelense anunciava a retirada do Sinai e da Faixa de Gaza.

Do ponto de vista militar, Israel conseguiu seus objetivos na Campanha do Sinai. Afinal, a FDI derrotou o Exército egípcio, abriu o estreito de Tiran à navegação e pôs fim aos ataques de guerrilheiros palestinos fedayin, destruindo suas instalações baseadas na Faixa de Gaza. Mas a vitória militar não se traduziu em conquistas políticas. Israel não conseguiu derrubar o regime nasserista, expandir seu território ou estabelecer nova ordem política no Oriente Médio.

O prestígio de Nasser cresceu enormemente e ele despontou como a grande liderança árabe capaz de enfrentar Israel; em consequência, o discurso do pan-arabismo ganhou força. A campanha também foi desastrosa para o sionismo, que se viu associado aos interesses do decadente imperialismo anglo-francês no mundo árabe. Por fim, a Campanha do Sinai foi o canto de cisne da França e da Grã-Bretanha como grandes potências mundiais. Doravante, elas não se moveriam mais com tanta liberdade no cenário político internacional.


Da Autodefesa à Expansão: A Guerra dos Seis Dias, 1967
Israel e os Estados árabes viveram quase 11 anos de escaramuças, mas sem recorrerem à guerra. O líder egípcio Gamal Abdel Nasser sabia que o inimigo sionista tinha poderio militar superior a todos os países árabes juntos e, portanto, esperava o momento certo de, com a ajuda soviética, poder reverter o equilíbrio bélico para lançar uma ofensiva conjunta. Diplomaticamente, entretanto, a beligerância era total. Na Conferência do Cairo de 1964, a Liga Árabe declarou pela primeira vez que seu objetivo final era a destruição do Estado de Israel. Estabeleceu-se, também, a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). A OLP tinha um braço militar, o Exército de Libertação da Palestina, cujas unidades estavam sob o comando de vários países árabes. A exceção era a organização guerrilheira palestina Al Fatah, que existia desde 1958 e incorporou-se à OLP, mas agia de maneira independente.

A Fatah buscava utilizar os países árabes como base para suas operações militares contra Israel, mas o Egito e a Jordânia, para evitar represálias israelenses, impediam ações guerrilheiras partindo da Faixa de Gaza, do Sinai e do território jordaniano. Apenas a Síria, governada desde 1961 por um regime nacionalista e pró-soviético, dava cobertura às ações de Fatah. Em abril de 1967, Israel, que já vinha ameaçando atacar a Síria pelo apoio aos guerrilheiros palestinos, abateu seis MiGs-21 sírios nos céus de Damasco, num incidente que teve início numa zona desmilitarizada perto do lago Kinneret, mar da Galileia.

Pressionado pelos sírios e pelos jordanianos, Nasser, que não planejava a guerra contra Israel, teve de tomar atitudes para preservar sua liderança no mundo árabe. Assim, em maio, ele acionou a engrenagem que daria início à catástrofe árabe (Jordânia e Síria tinham assinados pactos de ajuda militar mútua em caso de guerra): enviou grande quantidade de tropas para o deserto do Sinai e exigiu a retirada da Força de Emergência da ONU, que desde o fim da guerra de 1956 policiava o local. Mais grave, o governo egípcio enviou barcos armados para fechar o estreito de Tiran, no Golfo de Ácaba, à navegação israelense.

Em 5 de junho de 1967, depois de receber luz verde da Casa Branca, o governo de Levi Eshkol - que pessoalmente se inclinava por uma saída diplomática - desencadeou uma blitzkrieg contra o Egito. Naquela manhã, em apenas duas horas, aviões da Força Aérea Israelense (FAI) destruíram no solo quase todos os aviões de combate egípcios - 309 dos 340. Quando aviões sírios e jordanianos atacaram alvos dentro de Israel, a FAI também destroçou a quase totalidade das forças aéreas daqueles países. Ao todo, cerca de 400 aviões árabes foram destruídos no primeiro dia de combate.

No segundo dia, as forças israelenses cruzaram a fronteira norte do Sinai. Em 7 de junho, paraquedistas israelenses conquistaram a cidade velha de Jerusalém, até então sob controle dos jordanianos. O ministro da Defesa, Moshe Dayan, que ordenara o ataque, e o chefe do Estado-Maior, Yitzhak Rabin - futuro primeiro-ministro de Israel -, entraram na cidade triunfalmente pelo Portão dos Leões.

Perto do Muro das Lamentações, Dayan declarou: "Esta manhã, a FDI libertou Jerusalém. Nós reunimos a Jerusalém dividida. Retornamos aos lugares sagrados de Israel, e voltamos com o objetivo de não sairmos nunca mais." Segundo o chefe do Comando Central, Uzi Narkis, o general Shlomo Goren, rabino-chefe da FDI, chegou a lhe sugerir que explodisse o Domo da Rocha - lugar sagrado dos muçulmanos por ser supostamente o local de onde o profeta Maomé subiu aos céus, construído sobre as ruínas do Segundo Templo judeu. No mesmo dia 7, paraquedistas israelenses saltaram em Sharm el-Sheikh, acima do estreito de Tiran, e encontraram a fortaleza egípcia abandonada. Em 8 de junho, chegaram a Rumani, perto do canal de Suez.

Quando iniciaram a ofensiva, os israelenses não tinham planos de capturar a Cisjordânia. Nas palavras de Yitzhak Rabin, "a guerra desenvolveu-se como uma consequência de sua própria lógica interna e esse desenvolvimento cercou todas as tropas do Exército jordaniano na Judeia e na Samaria e, para o bem ou para o mal, levou à captura da fronteira natural da Terra de Israel - o rio Jordão".[10]

Também em relação à Síria, não houve um planejamento prévio e a ocupação das colinas do Golã se deu durante o curso do conflito. Um grupo de colonos do norte de Israel fez grande pressão para que o governo agisse para que eles não fossem deixados à mercê das forças sírias do Golã. O ministro da Defesa, Moshe Dayan, era contra o ataque à Síria:

"Iniciamos a guerra com o objetivo de destruir a tropa egípcia e abrir o estreito de Tiran. No caminho, assumimos a Cisjordânia. Não acho que seja possível abrir uma outra campanha contra a Síria. Se a ideia é entrar na Síria e mudar a fronteira para facilitar a vida nos assentamos, sou contra."[11]

Max Dayan mudou de ideia e mandou a FDI atacar a Síria em 9 de junho, ocupando as colinas de Golã.[12] No final da guerra relâmpago, Israel estava amplamente vitorioso, ocupando Cisjordânia, Gaza, Jerusalém oriental, as colinas do Golã e a Península do Sinai. O conflito custou a vida de 980 soldados israelenses e deixou 4.520 deles feridos e o país perdeu quarenta aviões e 394 tanques. Do lado árabe, morreram 4.300 soldados e 6.120 ficaram feridos. Egito, Jordânia e Síria perderam 444 aviões e 965 tanques.

A Guerra dos Seis Dias foi um conflito que nenhuma das partes desejava e que, ao contrário do que possa parecer, careceu de planejamento político e estratégico por parte de Israel, embora muitos analistas árabes acreditassem que o conflito fora deliberadamente provocado pelos israelenses para expandir seu território. Contudo, a conquista e ocupação da Cisjordânia e das colinas de Golã foram definidos ao longo das batalhas e não estavam nos planos iniciais dos estrategistas israelenses. Tanto é que, em 19 de junho, o gabinete israelense reuniu-se e decidiu propor um acordo de paz com o Egito e a Síria, retirando suas tropas das áreas ocupadas desde que fossem garantidas a liberdade de navegação no estreito de Tiran e no canal de Suez; a desmilitarização da península do Sinai e das colinas do Golã e a não interferência no escoamento de água das nascentes do rio Jordão. Em relação à Cisjordânia - que na época já tinha uma população de 1,2 milhão de palestinos -, o gabinete ficou dividido entre a opção de dar autonomia aos palestinos mas manter o território sob controle israelense ou devolver parte dele à Jordânia.

Mas a conferência de cúpula árabe que aconteceu em 28 de agosto, em Cartum, no Sudão, foi um banho de água fria em qualquer tentativa de conciliação, ao aprovar uma esdrúxula resolução dos "três nãos": não ao reconhecimento de Israel; não à negociação e não à paz. O resultado da conferência enterrou por muito tempo a possibilidade de trocar terra por paz e fez Israel fechar-se atrás das linhas conquistadas na guerra do deserto. Em novembro de 1967, o Conselho de Segurança da ONU votou a resolução 242, que pedia a "retirada das Forças Armadas israelenses dos territórios ocupados" e o "respeito ao direito de cada Estado na área de viver em paz dentro das fronteiras seguras e reconhecidas, livres de ameaças ou atos de força". A resolução agradou aos EUA e URSS, à Jordânia e ao Egito, mas não à Síria. Até Israel saiu ganhando com o texto, na medida em que ele não mencionava a saída de todos os territórios conquistados, mas de "territórios".

A cegueira política dos líderes árabes, no entanto, contribuiu para que os expansionistas defensores do "Grande Israel" ganhassem força. Assim, Jerusalém Leste foi anexada ainda em 1967, bem como as colinas de Golã, estas apenas em 1981. A Cisjordânia e a Faixa de Gaza permaneceram ocupadas e receberam vários assentamentos judaicos, numa anexação de fato dos territórios palestinos. O impasse começaria a ser rompido dez anos depois, quando Egito e Israel iniciaram conversações que terminariam num acordo de paz patrocinado pelos Estados Unidos no ano seguinte. Mas antes disso, árabes e israelenses teriam de se enfrentar em outro decisivo conflito.


Yom Kippur, 1973: A Guerra Para Romper o Impasse
Durante os anos em que Golda Meir chefiou o governo israelense (1969-1974), Israel viveu uma situação de imobilismo autoconfiante que só foi rompida quando os árabes atacaram o país de surpresa em outubro de 1973, durante os festejos sagrados do Yom Kippur (o Dia do Perdão para os judeus). A velha senhora era absolutamente intransigente, não considerava nenhuma possibilidade de mudança no status quo do Oriente Médio depois da Guerra dos Seis Dias, a não ser que os árabes aceitassem negociar nos termos de Israel. Com o firme apoio dos militares da FDI, Golda rejeitou qualquer negociação que não significasse um tratado de paz sem garantia de retirada israelense dos territórios ocupados, cuja primeira versão foi o chamado Plano Alon.

No início de seu governo, o Egito desencadeou uma "guerra de atrito" que consistia em bombardeio de artilharia às posições de Israel no canal de Suez, ataques aéreos e por terra, seguidos de rápida retirada. Na impossibilidade de vencer, a estratégia dos egípcios era deixar Israel permanentemente amedrontado e exaurido. Durante a guerra de atrito, o governo israelense iniciou a construção de um pequeno arsenal nuclear. A decisão foi do ministro da Defesa, Moshe Dayan, com o apoio de Shimon Peres, futuro primeiro-ministro que depois ganharia a fama de pacifista. Dayan temia que Israel não pudesse manter indefinidamente, apenas com armas convencionais, o equilíbrio militar a seu favor. Fazia parte da estratégia israelense jamais admitir em público a existência do arsenal atômico.

Para os Estados Unidos, Israel agora se tornara uma peça fundamental no tabuleiro da Guerra Fria na região, para contrabalançar a influência soviética sobre os países árabes. Afinal, o Egito e a Síria estavam recebendo modernos armamentos dos soviéticos, bem como assessoria militar. Por isso, o Departamento de Estado procurou elaborar um plano de paz nos termos da Resolução 242 da ONU. Mas o gabinete israelense rejeitou a proposta sob a alegação de que a sobrevivência de Israel não podia ser sacrificada por "nenhuma política de poder". A par disso, os "falcões" israelenses também tinham em mente a redução da dependência de Israel de fornecimento de armas dos americanos. Afinal, o embargo armamentista imposto pela França a Israel em 1967 deixou o país à mercê da boa vontade de Washington.

A morte do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e sua substituição por Anuar Sadat em 1970, sinalizou a disposição do Cairo em assinar um tratado de paz com Israel nos termos da resolução 242 da ONU. Fracassada a primeira tentativa, com a mediação dos americanos, os egípcios fizeram uma proposta de acordo parcial, com a reabertura do canal de Suez e a retirada parcial das tropas israelenses. Mas enquanto o Departamento de Estado via com bons olhos a iniciativa egípcia - chegou a suspender a venda de aviões Phantom para pressionar Israel -, Golda Meir aferrava-se às posições intransigentes. A única concessão que a primeira-ministra admitia fazer era em relação à Jordânia, cujo rei, Hussein, tinha grande interesse em cooperar com Israel.

Golda, como o monarca jordaniano, temia os palestinos e preferia que parte da Cisjordânia ficasse sob a administração de Aman. Para ela, o povo palestino não existia como nação. "Os palestinos não existem", dizia ela. O rei chegou a elaborar um plano para incluir a Cisjorânia e a Faixa de Gaza ao seu reino, com Jerusalém como capital. Israel rejeitou o plano e acabou fortalecendo a opção da OLP de Yasser Arafat, que lutava por um Estado palestino independente. Suspeitando que a Jordânia estivesse tentando fazer uma paz em separado com os israelenses a respeito do Sinai, o Egito acabou cortando suas relações com Aman.

Nas palavras de Henry Kissinger, o poderoso assessor de segurança nacional do presidente Richard Nixon e futuro secretário de Estado, Golda Meir

[...] considerava Israel militarmente inexpugnável; não havia, rigorosamente falando, nenhuma necessidade de qualquer mudança. Porém, dada a incapacidade congênita dos americanos em não interferir no que está suficientemente bem, ela estava disposta a entrar em conversações, embora não a compremeter-se com um resultado.[13]

Moshe Dayan corroborava o raciocínio: "Nossos amigos americanos nos oferecem dinheiro, armas e conselhos. Pegamos o dinheiro, as armas e recusamos os conselhos".[14] O presidente Sadat concluiu que não tinha outra opção senão uma ação militar para romper o impasse. Ele não tinha nenhuma ilusão de que poderia vencer a FDI, mas calculou que um ataque surpresa poderia criar condições políticas para obrigar os israelenses a irem à mesa de negociações.

Às 14 horas de 6 de outubro de 1973, um sábado, enquanto Israel comemorava o Yom Kippur, as forças egípcias e sírias desfecharam um ataque conjunto contra Israel; as primeiras no Sinai e no canal de Suez e as últimas nas colinas de Golã. Embora a inteligência israelense tivesse informações suficientemente precisas sobre os preparativos militares dos árabes, Moshe Dayan achou que não precisaria fazer um ataque preventivo como em 1967. Os egípcios romperam a Linha de Bar-Lev, uma fortificação que os israelenses tinham construído ao longo da margem leste do canal de Suez, que contava com poucas defesas. Armadas com modernos mísseis soviéticos antitanques e antiaéreos, os egípcios impuseram pesadas baixas às forças blindadas e à aviação israelense. Nas colinas do Golã, o avanço sírio foi duramente contido pela FDI.

O curso da guerra começou a mudar em 14 de outubro, quando a ofensiva egípcia avançou demais dentro do Sinai e foi contida por uma poderosa contraofensiva israelense. Grande parte das forças blindadas egípcias foi destruída e a FDI entrou na margem oeste do canal de Suez. Com isso, o Terceiro Exército egípcio ficou isolado na margem leste do canal e o Cairo ficou à mercê das tropas israelenses. Simultaneamente, a FDI conseguiu abrir caminho para a Síria, chegando a ameaçar a capital, Damasco. Com a intervenção dos Estados Unidos e da União Soviética, preocupados com a generalziação do conflito, foi firmada uma trégua em 22 de outubro.

Apesar de derrotar os atacantes árabes, Israel foi tomado de surpresa e, pela primeira vez, provou-se que a FDI não era invencível. Em termos militares, pode-se dizer que a guerra terminou empatada, já que os árabes venceram o primeiro round e os israelenses o segundo. Os israelenses tiveram perdas consideráveis: 2.838 mortos e 8.800 feridos; os árabes tiveram 8.528 mortos e 19.549 feridos. Israel perdeu 103 aviões e 840 tanques; os árabes, 392 aviões e 2.554 tanques. O governo israelense foi obrigado a instaurar uma comissão de inquérito para examinar a responsabilidade das autoridades civis e militares pelo desastre. A comissão, presidida pelo presidente da Suprema Corte, Simon Agranat, concluiu em 1974 que Golda Meir e Moshe Dayan eram os responsáveis diretos pela falta de preparo. Mas a comissão culpou mais os militares do que os líderes civis.

A guerra também provocou a mudança da atitude de Washington. Henry Kissinger, poderoso formulador da política externa da Casa Branca, compreendeu a necessidade de mudança de enfoque, buscando envolver mais ativamente os árabes nas negociações. Em janeiro de 1974, foi firmado um acordo de desocupação militar egípcio-israelense; o acordo sírio-israelense saiu em maio. Israel retirou-se do lado ocidental do canal de Suez e uma área de 30 quilômetros do lado oriental do canal foi dividida em três zonas: Israel, Egito e forças da ONU.

Assim, a Guerra do Yom Kippur abriu caminho para que, em 1978, o Egito de Anuar Sadat, e Israel, então liderada pelo ex-terrorista Menachem Begin, assinassem um acordo de paz mediado pelo presidente americano, Jimmy Carter. No plano político, a guerra sepultou de vez o pan-arabismo e a herança política de Nasser. Daí em diante, estavam plantadas as sementes do fundamentalismo islâmico do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) e da Jihad (Guerra Santa), que cresceria nos territórios ocupados de Gaza e Cisjordânia.


A Paz é Possível no Oriente Médio?
Ao longo da década de 1980, ficou claro que a superioridade bélica de Israel não era suficiente para garantir a segurança a seus cidadãos. Em 1987, irromperam distúrbios generalizados nos territórios ocupados de Gaza e Cisjordânia, no movimento que ficaria conhecido como Intifada (levante, em árabe), em que jovens animados por oganizações muçulmanas como o Hamas e a Jihad enfrentavam o Exército israelense com paus e pedras.

Os guerrilheiros laicos da OLP, que aos poucos abandonavam as táticas terroristas em favor da diplomacia, estavam sendo superados pelas milícias islâmicas. Depois do fim da Guerra Fria e da Primeira Guerra no Golfo (1991), em que uma coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiu o Iraque para expulsá-lo do Kuait, Washington resolveu patrocinar um acordo de paz entre palestinos e israelenses. Em 1993, depois dos chamados Acordos de Oslo, o primeiro-miistro israelense, Yitzhak Rabin, e o líder da OLP, Yasser Arafat, assinaram um histórico acordo de paz nos jardins da Casa Branca, mediados pelo presidente Bill Clinton. O acordo previa a entrega de partes da Cisjordânia e Gaza aos palestinos e a criação da Autoridade Nacional Palestina (ANP), embrião de um futuro Estado palestino. Acordos de paz semelhantes seguiram-se com a Jordânia, em 1994. Questões cruciais como o status de Jerusalém e a formação de um Estado independente palestino foram adiadas.

Tentativas de aprofundar os acordos entre israelenses e palestinos fracassaram em 2000 e nova Intifada foi lançada, agora com o apoio de Arafat. A resposta de Israel foi uma violenta repressão aos territórios ocupados, a reocupação de áreas controladas pelos palestinos e o confinamento de Arafat ao seu QG em Ramalá, na Cisjordânia. A eleição do linha-dura Ariel Sharon para o governo de Israel só fez radicalizar a situação. Mas a nova invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, e a morte de Arafat, no final de 2004, abriram novamente as perspectivas de negociações. Com a eleição do moderado Abu Mazen para a presidência da Autoridade Nacional Palestina em 2005, o governo israelense, pressionado pelos EUA, começou a elaborar um plano de desocupação da Faixa de Gaza.


A Grande Transformação
Como lembra o historiador Avi Shlaim, o fundador do sionismo revisionista, Ze'ev Jabotinsky (1880-1940), foi o primeiro líder a reconhecer que os palestinos eram uma nação e que não se poderia esperar que eles renunciassem voluntariamente ao direito a uma autonomia nacional. Por isso, ele propunha que os judeus construíssem uma "muralha de ferro" que os árabes não conseguiriam romper. Ele acreditava que, depois de baterem as cabeças em vão, os palestinos reconheceriam por fim sua fragilidade diante dos judeus e então seria o momento de entrar em negociações a respeito de seus direitos na Palestina.

De certa forma, as guerras árabes-israelenses seguiram esse roteiro. Entretanto, ficou claro, principalmente depois da Guerra dos Seis Dias, que Israel era incapaz de impor a paz, apesar de todas as suas conquistas territoriais. Por sua vez, os árabes, apesar de suas derrotas, muitas vezes fragorosas, ainda eram capazes de empreender grandes campanhas militares - e econômicas, como se viu quando a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) aumentou os preços do petróleo depois da Guerra do Yom Kippur, mergulhando o Ocidente na primeira grande crise de energia.

A Guerra dos Seis Dias fortaleceu a convicção de lideranças palestinas, Yasser Arafat à frente, de que as guerras convencionais não seriam capazes de abalar a fortaleza israelense. Daí a opção da OLP pelas espetaculares ações terroristas para chamar a atenção do mundo sobre o drama do povo palestino. Paradoxalmente, como assinala Michael B. Oren em Seis dias de guerra, realizações diplomáticas antes tidas como inconcebíveis tornaram-se quase lugares-comuns nos anos seguintes. "O moderno Oriente Mèdio, criado em 1967, foi por conseguinte um híbrido: uma região de perspectivas incipientes, mas também de perigos iminentes, uma mistura de novos e velhos conflitos."[15] Nesse sentido, apesar da aparência de imobilidade, as guerras árabe-israelenses forjaram, a contrapelo, a consciência de que a sobrevivência de Israel somente será possível com a resolução, ainda que parcial, da questão nacional palestina.

A questão ganha relevância maior com a entrada em cena o fundamentalismo islâmico, que deixou há muito de ser um problema regional. Principalmente depois do 11 de setembro, está colocado para o Ocidente, em particular para Washington, o desafio da contenção do terrorismo islâmico. A estabilidade no Oriente Médio é premissa fundamental, embora não exclusiva, para se combater a hidra gerada pelos arriscados jogos geopolíticos da Guerra Fria.

Militarmente, os conflitos árabe-israelenses representaram uma mudança do paradigma bélico da Segunda Guerra Mundial, baseada em grande mobilização de blindados. O papel da Força Aérea foi decisivo na rápida definição do conflito, como mostrou principalmente a Guerra dos Seis Dias. Esse modelo seria depois desenvolvido pelos Estados Unidos na Guerra do Golfo (1991), no Kosovo (1995) e na invasão do Iraque (2003).


Divórcio Antes da Paz
Depois de tantos conflitos sangrentos, é possível pensar em paz entre israelenses, árabes e palestinos no Oriente Médio? Em seu livro Contra o fanatismo, o escritor israelense Amós Oz argumenta que um acordo entre os dois povos é possível e necessário, embroa seja doloroso, pois trata-se de um conflito entre o certo e o certo. A citação é longa, mas vale a pena:

Os palestinos estão na Palestina porque esta é a sua terra, e a única terra natal do povo palestino [...]. Os judeus israelenses estão em Israel porque não há nenhum outro país no mundo a que os judeus, como povo, poderiam chamar seu lar. Como indivíduos, sim, mas não como povo, não como nação. Os judeus foram expulsos da Europa, exatamente da mesma forma que os palestinos foram inicialmente expulsos da Palestina e, em seguida, dois países árabes. Os palestinos tentaram, involuntariamente, viver em outros países árabes. Foram rejeitados, às vezes até humilhados e perseguidos, pela chamada 'família árabe'. Tomaram conhecimento, da maneira mais dolorosa, de sua 'palestinidade', pois não eram desejados como libaneses, como sírios, como egípcios ou como iraquianos. Eles tiveram de aprender, pelo caminho mais difícil, que são palestinos e este é o único país em que eles podem segurar-se.[16]

Prossegue o autor de A caixa preta:

O que precisamos é de um compromisso doloroso. Porque ambos os povos amam o país, porque judeus israelenses e árabes palestinos têm raízes históricas e emocionais profundas, diferentes, mas profundas, no país [...]. Se há algo a esperar, isso é um divórcio justo e razoável entre Israel e Palestina. E os divórcios nunca são felizes, mesmo quando são justos. Especialmente esse divórcio específico, que será um divórcio bastante engraçado, porque as duas partes que se divorciam ficarão definitivamente no mesmo apartamento. Ninguém vai se mudar. Como este é muito pequeno, será preciso decidir quem fica com o quarto A e quem fica com o quarto B, e o que se fará em relação à sala de estar[...]. Muito inconveniente. Mas melhor do que o inferno vivo que todos estão enfrentando agora naquele país amado. Palestinos que são diariamente oprimidos, assediados, humilhados, que passam privações por causa do cruel governo militar israelense. O povo israelense que é diariamente aterrorizado por ataques terroristas impiedosos e indiscriminados contra civis, homens, mulheres, crianças, adolescentes, consumidores num shopping. Qualquer coisa é preferível a isto! Sim, um divórcio razoável.[17]

As opções militares e políticas falharam miseravelmente no Oriente Médio. Quem sabe, então, se o caminho apontado por um escritor que está longe de ser um pacifista ingênuo seja, afinal mais razoável?


NOTAS
[1] Isaac Akcelrud, O Oriente Mèdio, São Paulo/Campinas, Atual/Unicamp, 1985, p. 6.
[2] Isaac Deutscher, O judeu não judeu, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1970, p. 16.
[3] Apud Avi Shlaim, A muralha de ferro: Israel e o Mundo Árabe, Rio de Janeiro, Fissus Editora, 2004, p. 40.
[4] Idem, ibidem, p. 37.
[5] Jaime Pinsky, Origens do nacionalismo judaico, São Paulo, Hucitec, 1978, p. 143.
[6] Idem, ibidem, p. 122.
[7] Avi Shlaim, op. cit., p. 87.
[8] Bar-On, Desafio e discórdia, p. 89.
[9] Shimon Peres, Barding for Peace, New York, Randon House, 1995, p. 93.
[10] Avi Shlaim, op. cit., p. 305.
[11] Apud Avi Shalim, po. cit., p. 342.
[12] Em 1976, numa entrevista ao jornalista Rami Tal, Dayan admitiu que essa decisão fora um erro e que o governo cedeu à pressão dos colonos. "A delegação que chegou para persuadir Eshkol a tomar as colinas de Golã não estava pensando em segurança. Estava pensando nas terras que poderiam ser cultivadas por eles nas colinas do Golã."
[13] Henry Kissinger, Years of Upheaval, New York, Simon&Schuster, 1995, p. 294.
[14] Apud Ali Shalim, op. cit., p. 360.
[15] Michael B. Oren, Seis dias de guerra, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004, p. 386.
[16] Amós Oz, Contra o fanatismo, Rio de Janeiro, Ediouro, 2004, p. 36.
[17] Idem, ibidem, p. 37.


BIBLIOGRAFIA
Eban, Abba. An autobiography, London: Widenfeld and Nicolson, 1978.
Gilbert, Martin. Atlas of the Israeli conflit. London: Orion Publishing Group Limited, 1993.
Hiro, Dilip. Dictionary of the Middle East. New York: St. Martin's Press, 1996.
Herzi, Theodore. The Jewish State. New York: Herzl Press, 1970.
Laquer, Walter e Rubin, Barry. The Israel-Arab Reader. New York: Penguin Books, 1995.
Kissinger, Herny. Years of Upheaval. New York: Simon & Schuster, 2000.
Oz, Amós. Contra o fanatismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
Peres, Shimon. Battling for Peace: A Memoir. New York: Random House, 1995.
Said, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Shlaim, Ali. A muralha de ferro: Israel e o Mundo Árabe. Rio de Janeiro: Fissus Editora, 2004.


Fonte: História das Guerras, Demétrio Magnoli, Editora Contexto, P. 425-251.




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