A Família de Jesus
Lucas mais tarde dirá sobre Jesus: Nazaré, onde fora criado (Lc 4.16). Quantas coisas em tão poucas palavras! Continuemos nossa exposição, reunindo aqui alguns dados relativos à família humana do Salvador e à vida que ele teve com seus pais e seus irmãos na aprazível aldeia onde Deus o havia ocultado até o início de seu ministério.

Antes de tudo, tentaremos esboçar o retrato moral dos pais de Jesus. As Escrituras Sagradas continuarão sendo o nosso guia neste estudo psicológico, que não tem outra pretensão a não ser a de reunir em um só capítulo as notícias dispersas que temos encontrado aqui e ali, e que acharemos mais adiante nos evangelhos. Não obstante a estranha reserva que os escritos inspirados guardam a respeito de Maria e José, eles dizem o suficiente para que possamos tirar deles algumas conclusões importantes.


Perfil Biográfico de Maria
De suas descrições inspiradas e dramáticas, ainda que trágicas em algumas ocasiões, nas quais Maria desempenha em variadíssimas circunstâncias seu ofício maternal com relação a Jesus, destaca-se uma fisionomia moral de grande beleza. O mais excelso mérito pessoal dela consiste em ter respondido plenamente a tantos privilégios e a tantas bênçãos, e em haver conduzido nobremente, sem ficar envaidecida, o peso de uma dignidade sem semelhança.

Modesta, reservada, silenciosa, Maria se esforçou sempre para permanecer durante a vida pública de seu filho em um lugar secundário. Assim posto, os evangelistas falaram dela o menos possível depois da infância do Salvador, quando já não lhe eram tão necessários os cuidados maternais. Que diferença entre esta profunda humildade de Maria e a conduta, comumente ativa e presunçosa, das mães dos heróis e dos grandes personagens da história! E o que dizer da obediência tão confiada, tão sublime, de Maria a uma ordem que, por mais honrosa que fosse, lançava, de certa maneira, sua vida ao desconhecido e que tantos sofrimentos haveria de expor-lhe?

Os estudiosos da Palavra de Deus dos primeiros séculos se compraziam em contrapor esta obediência de Maria à nefasta desobediência de Eva. E o que dizer da coragem de Maria, quando percebeu as cruéis dúvidas que José sentia com relação a ela, depois durante a fuga e a permanência no Egito, e finalmente ao pé da cruz em que seu amado filho expirou? Importa, pois, que conheçamos um pouco da história da vida dela antes da anunciação de que seria a mãe do Messias e depois da ascensão do Salvador. A vida de Maria, que interessa aos anais da redenção, é mais a interior do que a exterior.

Nós nos contentaremos em saber que ela era filha de Joaquim e de Ana, piedosos israelitas, ambos da família de Davi, e que Maria foi ainda na infância apresentada ao Senhor e educada junto ao templo de Jerusalém. Além disso, depois da ascensão de Cristo, Maria viveu ao lado de João, o discípulo amado de Jesus, que fora dado a ela por filho adotivo. Ela morreu em Éfeso ou, mais provavelmente, segundo a antiga tradição, em Jerusalém, onde ainda existiria o seu sepulcro no vale de Cedrom, um pouco ao norte do Getsêmani. A última referência a ela na Bíblia está em Atos 1.14, quando, no cenáculo, ela, os apóstolos, os discípulos e as santas mulheres, juntos, aguardavam para receber o Espírito Santo.


José, Um Homem de Grande Caráter
Por suas qualidades e virtudes, José também foi digno da dupla missão que Deus lhe confiou acerca de duas pessoas que ele havia de cuidar em nossa pobre terra: Jesus e Maria. Mas o perfil de José é ainda mais difícil de ser traçado que o de Maria, porque os evangelistas são muito sucintos em seus comentários a respeito dele. Assim, o discreto olhar que nos permite lançar sobre o noivo de Maria nos dois primeiros capítulos de Mateus nos informa acerca de um homem possuidor de uma alma de incomparável beleza.

O evangelista, não contente em retratá-lo de uma maneira geral com o epíteto de justo (Mt 1.19), informando-nos que José era um fiel observador da lei judaica, destacou também, em quatro ocasiões sucessivas (Mt 1.24; 2.14,21,22), a prontidão e a perfeição da obediência dele a outras tantas ordens divinas, em meio às dificuldades que o tornavam destacadamente meritório.

A atitude para com sua noiva que José se propunha a ter [não infamá-la, assumindo a culpa pelo rompimento da aliança] antes que o anjo o informasse de que ela estava grávida do Messias pelo Poder de Deus, revela um vivíssimo sentimento de honra pessoal, um coração cheio de ternura e de coragem para suportar aquela dolorosa prova. Ele se mostrou um homem de grande caráter.

Contudo, o que há em José de mais belo e comovedor é, indubitavelmente, o amor que ele sentia por sua esposa e pelo menino de quem era pai adotivo. José nunca cessou de demonstrar esse amor em todas as ocasiões, apesar da humilde situação a que havia sido reduzido em virtude das dificuldades pelas quais passava a nação de Israel, sendo ele um herdeiro legal do trono de Davi. José possuía, com efeito, grandes sentimentos e rara elevação moral.

Fora dos relatos da infância do Salvador, José só é mencionado nos evangelhos de maneira indireta (Jo 1.45; 6.42). Em Marcos 6.3, há uma referência a um carpinteiro, que designa Jesus. Qual teria sido o verdadeiro ofício de José? O termo tomado tanto em Mateus como em Marcos (Mt 13.55); Mc 6.3) tem que ver com a palavra operário.

Este substantivo, de significação muito vaga, pode ser aplicado tanto ao operário que trabalha com ferro como àquele que trabalha com madeira. Alguns antigos intérpretes preferiram achar que José trabalhava com ferro. Todavia, está muito mais em harmonia com a tradição admitir que o pai adotivo de Jesus tenha sido carpinteiro e que, conseqüentemente, Jesus também o tenha sido.

Num texto de Justino Mártir, no diálogo com o judeu Trifon, está escrito assim: "José achava trabalho de carpintaria entre os ricos e as pessoas simples de Nazaré, e mesmo entre os camponeses que freqüentavam o mercado".

Seria fácil, se conhecêssemos o que entre os judeus representava o ofício de carpinteiro, imaginar quais eram as atividades ou as encomendas que José recebia: preparar vigas para sustentação dos terraços das casas, fabricar jugos, lanças, camas, arcas, amassadeiras, guarda-papéis para os escribas, comerciantes ou rabinos. Tais eram, com efeito, os diferentes trabalhos que os carpinteiros judeus costumavam executar. Estes mesmos ou semelhantes seriam os objetos confeccionados pelo carpinteiro José e por Jesus. Portanto, eles manejaram o serrote, a plaina e usaram pregos e martelo como instrumentos de trabalho.

Eis tudo o que nos dizem os documentos antigos acerca do esposo de Maria e pai adotivo de Jesus. Será possível formarmos uma idéia exata da vida que aquele casal levava em Nazaré quando Jesus, ainda criança, tornou-se o gracioso adolescente e mais tarde o jovem perfeito que atraía juntamente para sí a benevolência do céu e o afeto dos homens? Sim, até certo ponto, conforme o que conhecemos da alma deles e pelo que nos dizem os costumes daquele tempo, que em grande parte são conservados ainda em Nazaré.

Em primeiro lugar, temos de considerar que José e Maria levaram uma vida humilde e na obscuridade. Muitas vezes, tem-se exagerado a pobreza da família humana de Jesus, confundindo-a com a miséria e a indigência. Mais tarde, quando Jesus viveu sua fatigosa vida de missionário, depois de ter deixado tudo para propagar a boa nova por toda a Palestina, o Filho do Homem disse que não tinha nada, nem uma pedra onde pudesse reclinar a cabeça (Mt 8.20; Lc 9.58).

Paulo dirá de Jesus: porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo ricos, por amor de vós se fez pobre, para que, pela sua pobreza, enriquecêsseis (2Co 8.9). Mas, graças ao contínuo trabalho de José e do próprio Jesus, quando cresceu, a vida daquela família não foi de miséria e de indigência. Além disso, temos de levar em conta que os orientais geralmente se contentam com pouco no que diz respeito à habitação, às vestimentas e aos alimentos. Simples e sóbrios, eles poderiam viver facilmente com gastos reduzidíssimos.

A casa, os móveis, as vestes e os alimentos de Maria, de José e dos demais irmãos de Jesus eram muito simples. Sua vida era também de trabalho ativo, conforme se deduz do que acabamos de dizer acerca do ofício exercido por José e depois por Jesus, e por meio desse ofício eles supriam as necessidades da família. Jesus e seu pai adotivo servem de modelo para os trabalhadores cristãos.

Além disso, já vimos que o trabalho manual era tido, então, em grande conta na terra de Jesus, e que os mais célebres rabinos não se esquivavam de dedicar-se a ele.

Maria também se dedicava infatigavelmente às múltiplas ocupações domésticas, cumprindo com perfeição a significativa divisa da mulher respeitável romana: "permaneceu em casa, e fiou a lã".

Em sua epístola a Tito (2.5), Paulo expressa o desejo de que as mulheres cristãs sejam mulheres trabalhadoras. Maria possuía esta qualidade em alto grau. Em sua humilde esfera, ela retratava a mulher forte e ideal do capítulo 31 de Provérbios.

Podemos supor também que a casa de José tinha uma horta nos fundos, que Maria a cultivava em suas horas livres, aumentando seus modestos recursos. A colaboração dela era, sem dúvida, procurada na época dos grandes trabalhos agrícolas. E talvez José fosse chamado aos lugares vizinhos para construções ou reparos próprios do seu ofício.

Certamente, naquele lar havia espaço para a consagração, para a santidade, porque a família de Jesus estava em perpétua união com Deus, e o próprio Senhor contemplava a vida deles e se alegrava com sua dedicação.

Na casa em Nazaré, orava-se com freqüência, Ali, mais ainda do que nas outras famílias de Israel, os assuntos espirituais faziam parte dos pormenores da vida. Tudo no lar de Jesus servia para promover a consagração a Deus.

No Sábado e nos demais dias de festa religiosa, Jesus, seus irmãos, Maria e José assistiam aos ofícios da sinagoga, edificando a todos com sua grave e recolhida compostura. Eles colocavam, então, conforme o costume geral, suas melhores roupas de vivas cores, sobre as quais Jesus e seu pai adotivo vestiam seu talit, o manto de oração, enquanto Maria se cobria com um logo véu branco.


Os Irmãos de Jesus Tentam Prendê-lo
Em Mateus 12.47, está escrito: E disse-lhe [a Jesus] alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Existem textos paralelos em Marcos 3.31-35 e Lucas 8.18-21. Devemos analisar essa visita da família de Jesus com as palavras que se encontram em Marcos 8.20,21: E foram para uma casa. E afluiu outra vez a multidão, de tal maneira que nem sequer podiam comer pão. E, quando os seus parentes ouviram isso, saíram para o prender, porque diziam: Está fora de sí.

O ministério de Jesus aumentou de tal maneira que ele nem tinha tempo para comer, e poder-se imaginar que, devido às múltiplas curas e à intensificação das controvérsias com as autoridades religiosas, a agitação chegou, algumas vezes, a um estado de furor.

A família de Jesus, como é evidente, compreendeu algo da situação e, ouvindo ainda mais acerca dos acontecimentos, supôs que Jesus fora mentalmente afetado. E, agindo assim, pensaram que estariam praticando um ato de misericórdia, prendendo o Rabi e levando-o para casa.

É certo que não foram até ali a fim de atrair a atenção do povo, dizendo: "Somos parentes deste grande e famoso homem". Pelo contrário, queriam livrá-lo de sua própria "insanidade", bem como das ameaças das autoridades. A intenção dos parentes de Jesus, apesar de errada, era pelo menos honesta. Esse episódio da vida de Jesus ilustra quão pouco a sua própria família o compreendia, e também quão pouco compreendia a missão.

Marcos mencionou o nome de quatro irmãos de Jesus (Mc 6.3), bem como um número desconhecido de irmãos. Muitos discutem a questão dos irmãos do Mestre. Alguns, pretendendo preservar a doutrina da perpétua virgindade de Maria, inventada pelos homens, apresentam as seguintes explicações:

1. Esses irmãos de Jesus eram os seus primos, e não irmãos no sentido literal, como podem indicar as palavras gregas e hebraicas para irmãos. Alguns sugerem que os tais irmãos eram filhos de Alfeu e de Maria, uma tia de Jesus;

2. Seriam filhos de José mediante um casamento anterior; ou

3. Seriam filhos de José mediante um casamento posterior. José teria contraído essas núpcias a fim de criar os filhos de um irmão seu, já falecido.

Todas essas idéias tiveram início bem cedo na história eclesiástica, e até hoje perduram.


Os Irmãos e as Irmãs de Jesus eram Filhos de José e Maria
Os quatro argumentos enumerados abaixo confirmam que os irmãos e as irmãs de Jesus eram filhos de José e Maria, em seu sentido literal (Mt 13.55,56; Mc 6.2,3).

Primeiro Argumento
O texto em João 7,5 invalida a idéia de que a expressão seus irmãos refiram-se aos doze apóstolos. Em Atos 1.14, vemos que os doze também são mencionados em separado. Portanto, os irmãos de Jesus não podiam, realmente, ser primos de Jesus e estar entre os doze apóstolos.

O nome Tiago, Judas e Simão eram muito comuns, e é provável que alguns dos primos de Jesus até tivessem os mesmos nomes dos irmãos do Mestre. As Escrituras também indicam que os irmãos de Jesus não tiveram fé nele, a não ser após a sua ressurreição (Jo 7.5).

Segundo Argumento
Das quinze vezes que os irmãos de Jesus são mencionados (dez nos evangelhos, uma em Atos, e algumas vezes nas cartas de Paulo), quase sempre estão em companhia de Maria, mãe de Jesus. É estranho que os primos de Jesus andassem sempre em companhia de uma tia, em vez de andarem em companhia de sua própria mãe.

Terceiro Argumento
Em nenhuma porção das Escrituras é indicado que eles fossem primos de Jesus ou filhos somente de José, e não de Maria. Tais suposições são especulações humanas para estabelecer e firmar uma teologia humana.

Quarto Argumento
A não ser por motivo de preconceito teológico, não há razão para não acolhermos esse fato em seu sentido mais natural, isto é, que os irmãos de Jesus eram filhos de José e de Maria, em sentido literal. A elevação de Maria à estatura de deusa é uma tradição romanista, contrária ao próprio tratamento de Jesus à sua mãe (Mt 12.47-50), no qual ele a reconhece como simples mulher, e não como uma pessoa divina, com poder sobrenatural ou com qualquer influência sobre ele.

Finalmente, devemos notar que a doutrina da perpétua virgindade de Maria não é apoiada nas Escrituras. A preservação dessa doutrina forma a base dos argumentos que explicam erroneamente os irmãos de Jesus como se não o fossem literalmente; e também não goza de base alguma nas Escrituras. Parece razoável que uma doutrina dessa natureza, caso tivesse tanta importância com tantos afirmam, pelo menos fosse apoiada por uma pequena afirmação bíblica nesse sentido.

Enfim, a vida dos membros da família de Jesus era de doce e santa missão, de recíproco e infatigável afeto. Não podemos esquecer do amor paternal e maternal recebido pelo Salvador e do filial carinho com que Jesus lhes correspondia.

Acrescentemos, por último, que Jesus mantinha com seus parentes e irmãos, com seus vizinhos e com todos um relacionamento de afetuosa cordialidade e de amor que não media sacrifícios. Um dia, porém, a dor penetrou naquele lar, único no mundo, quando entre os braços de Jesus e de Maria expirou docemente José, o esposo de Maria e o pai adotivo de Jesus.

Ele teria morrido antes que o Salvador inaugurasse seu ministério público. Isto se conclui razoavelmente pelo fato de José não ter sido mencionado por João entre os parentes do Salvador, quando este se referiu ao primeiro milagre do Mestre (Jo 2.12), nem em outras passagens relativas à época posterior (Mt 13.55-56; Mc 6.3). Então, mais do que nunca, Jesus envolveu sua mãe de respeito e de ternura; e a partir daí, mais do que nunca, Maria demonstrou seu amor maternal por seu filho. Juntos, eles choraram e se consolaram com os demais irmãos de Jesus pela morte de José.


Fonte: Enciclopédia da Vida de Jesus, Louis-Claude Fillion, Editora Central Gospel




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