Cruzadas na Idade Média
Fátima Regina Fernandes

As Cruzadas foram um movimento gerado no Ocidente que resultou num longo enfrentamento militar desenrolado nos limites da Cristandade, especialmente nas regiões da Síria e Palestina, entre os séculos XI e XIII, e na Península Ibérica, entre os séculos VIII e XV.

As guerras ocorridas nas regiões da atual Palestina e Israel foram chamadas de Cruzadas do Oriente e justificavam-se pela necessidade de os cristãos reconquistarem a Terra Santa. Os conflitos na Península Ibérica - onde os territórios anteriormente em posse dos cristãos e conquistados pelos muçulmanos - resultaram no que ficou conhecido como Reconquista cristã.

Quais as razões que moveram milhares de pessoas de várias extrações sociais até essas regiões distantes? O que de fato buscavam? Em busca de respostas, procuraremos observar as Cruzadas dentro do seu contexto original. Trataremos também de seu legado para as regiões em que se desenrolaram os conflitos e para o Ocidente como um todo, ou seja, verificaremos como as Cruzadas mudaram a História.


CONTEXTO GERADOR
O Mediterrâneo foi o berço da civilização clássica e, durante a Idade Média, palco de constantes influências culturais, germânicas, nórdicas, judaicas, bizantinas e árabes que gerariam novas realidades institucionais. A sociedade que se desenvolveu na região era, portanto, fruto de uma encruzillhada de influências culturais e religiosas que - apesar dos conflitos e desencontros que obviamente também existiam - acabaram por gerar expectativas e iniciativas comuns, que se refletiram com densidade nas Cruzadas.

A pacificação das migrações germânicas no século VI sucede a chegada de nórdicos, húngaros e sarracenos nos séculos IX e X, o que constitui outra fonte de agitação. Segue-se um contexto de pacificação relativa e expansão demográfica, econômica e social potencializada por uma estabilidade climática que proporciona estações do ano melhor definidas e consequente aumento da produtividade das colheitas. Processo que se generaliza pelo Ocidente europeu promovendo um aumento demográfico, mais braços para o cultivo e mais homens para alimentar e disponíveis para lutar.

Nesse século XI, vigoram, ainda, esquemas teóricos explicativos da ordenação da sociedade como o esquema trifuncional, no qual o clero, a nobreza e o povo dividiam funções sociais complementares: o clero rezaria, o povo trabalharia e os nobres lutariam por todos. Nesse esquema, o que justificava a nobreza era sua função militar e defensiva, a qual só poderia ser colocada em prática num contexto de guerra. Ora, vivia-se um período de relativa estabilidade após o estabelecimento dos povos da última vaga de invasões, e essa ociosidade dos nobres era prejudicial aos poderes políticos que os sustentavam, as monarquias nascentes: os nobres cobravam dos reis ações militares que justificassem contínuas doações de bens e cargos, causavam agitação interna e criavam uma pressão inustentável dentro dos limites da Cristandade.

É dessa época também a cristalização da ideia de Cristandade, um espaço amplo que envolvia as margens do Mediterrâneo e incluía povos de várias etnias, dialetos, ritos e traços culturais distintos. No mundo clássico, o critério que unificava os povos submetidos ao Império Romano era ser cidadão; depois do século IV, esse critério foi substituído pelo ser cristão. Esse continha um princípio de unidade mais amplo, pois ultrapassava os limites étnicos; qualquer pessoa, desde que batizada e convertida, era incluída nessa mesma categoria. A Cristandade seria, portanto, o espaço onde viviam os cristãos. Essa é, em princípio, apenas uma ideia aceita e reproduzida nos esquemas teóricos dos pensadores medievais, mas que vai fortalecer-se a partir do século XI, devido às ações dos pontífices que vão afirmar-se perante os poderes temporais já constituídos, imperadores e reis.

O papa Gregório VII, por exemplo, em 1075, propõe uma reforma interna da Igreja, começando por combater os desvios éticos do clero e as intervenções dos laicos nos assuntos da Igreja. Tais propostas confrontam diretamente com as pretensões de supremacia do Sacro Império Romano Germânico, onde cabia ao imperador investir os bispos, e refletia uma questão maior, a indefinição de esferas de competência dos poderes temporais e espirituais. O papa Gelásio, em fins do século V, usa uma metáfora para ilustrar essa disputa, a doutrina dos dois gládios ou espadas, o espiritual e o temporal, que por essência representariam as duas naturezas de poder. Os teóricos medievais patrocinados por cada um dos "gládios" buscariam, durante toda Idade Média, estabelecer a preeminência de um sobre o outro. Os teóricos que defendem a supremacia do pontífice construirão uma supremacia teórica da Igreja sobre as outras autoridades laicas e os papas, por meio de ações concretas, tentariam tornar essas ideias realidade. A forma mais acabada dessa proposta é a Teocracia Papal, que seria a prerrogativa dos papas em assuntos espirituais e também terrenos, pois eles seriam os tutores da Cristandade. Princípios de subordinação dos poderes temporais àqueles que presidem a Cristandade, que se justificam à época devido à inquestionável supremacia intelectual do alto clero.

Em 1054, havia ocorrido o Cisma entre a Cristandade latina e a Cristandade grega. Uma divisão quase formal entre os ritos praticados no Ocidente e aqueles praticados nos limites do Império Bizantino. O pedido de auxílio de Bizâncio contra os turcos invasores seria, mais tarde, uma oportunidade de impor a supremacia ocidental ao imperador bizantino e ao patriarca de Constantinopla. O imperador bizantino praticava em seus territórios o cesaropapismo, ou seja, a subordinação à sua autoridade das prerrogativas dos patriarcas. Assim, o papa de Roma, ao desempenhar o papel daquele que iria convocar, em 1095, a Cristandade latina para socorrer a Cristandade grega, deflagrando o início das Cruzadas, estaria arrogando-se como senhor de toda a Cristandade e inclusive do Império Bizantino.


A EXPANSÃO DA CRISTANDADE
Esse é o contexto em que se desenvolve o processo de surgimento das Cruzadas. Um dos tantos motivos desse movimento tem a ver com uma necessidade interna de expansão das fronteiras da Cristandade, movimento que se faria em várias frentes.

Ao norte a expansão teria o caráter de um movimento de colonização e cristianização das regiões correspondentes à Polônia, Hungria e às regiões eslavas, chamado de Drang Nach Östen, que se inicia no século X, entre 966 e o ano 1000. Com a cruz levava-se o arado, e esses férteis territórios ampliariam as possibilidades de alimentar uma população em crescimento. Os reinos do Báltico seriam igualmente cristianizados através de acordos, ampliando o campo de hegemonia pontifícia.

É interessante observarmos que os normandos, povos invasores da Europa Ocidental, vindos do norte, no século X, participam como colaboradores ativos desse processo. Eles se estabelecem na região da Normandia em 911, de onde se expandem em duas frentes, uma para a Inglaterra e outra para o sul da Itália. Em 1066, o duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, ao derrotar os saxões na Batalha de Hastings, funda o reino da Inglaterra. Enquanto isso, partindo da mesma Normandia, os Hauteville, outra dinastia normanda, em 1038, estabelecem-se no sul da Itália, região dominada em parte pelos bizantinos e em parte pelos muçulmanos. A presença normanda na Itália incomoda igualmente o papa Leão IX, que conclama o imperador bizantino para ajudá-lo a combatê-los. Após um episódio de captura do pontífice pelos normandos em 1053, durante o qual o papa permanece um ano no cativeiro, Roberto Guiscardo, duque normando, convencido pelos argumentos papais, converte seu povo em aliado de Roma. Após um reconhecimento de direitos mútuos, estabelece-se um vínculo feudal entre o reino normando e o Papado. O reino normando torna-se então um aliado que trabalharia a favor do pontífice contra seus potenciais inimigos, o Sacro Império Romano Germânico no Ocidente, o Império Bizantino no Oriente e os muçulmanos, vencidos na Sicília, quando aí se instalam os normandos e onde se criaria o reino das Duas Sicílias, que levaria o Cristianismo e o modelo feudal aos limites geográficos da Cristandade.

Outro espaço dessa fronteira de expansão era a Península Ibérica, submetida a partir de 711 pelos muçulmanos, que haviam atravessado Gibraltar, vindos do norte da África, e progrediam rapidamente rumo ao norte. Já em 997, Al-Mansur, grande líder muçulmano, atacou a Basílica de Santiago de Compostela. Desde 1063, o confronto entre cristãos e muçulmanos na Península Ibérica receberia, do papa Alexandre II, a chancela de Cruzada; a ela acorreriam normandos e borgonheses. Nessa Cruzada também participaram, intensa e decisivamente, os cavaleiros das Ordens Militares, compostas por monges-guerreiros, vinculados à Igreja, mas autorizados a pegarem em armas contra o "infiel" (como os cristãos chamavam os muçulmanos), como os Hospitalários e os Templários, além dos cavaleiros das ordens de Calatrava, Santiago e Avis, dentre outras.

De fato, esse movimento de expansão das fronteiras ocidentais da Cristandade é visto como Reconquista cristã dos territórios que já haviam sido cristãos, antes da chegada dos muçulmanos. Um movimento que duraria oito séculos de lutas descontinuadas, interrompidas por grandes períodos de estagnação. O resultado dessa luta dos cristãos por territórios na Península Ibérica foi uma conqusita territorial efetiva que geraria os reinos cristãos das Astúrias, de Leão, Castela, Aragão, Navarra e Portugal. Os reis cristãos, principais condutores do movimento, praticavam um jogo constante de alianças mútuas alternado por alianças com o inimigo. Situação frequente visto que esses reis estavam construindo, simultaneamente, a base patrimonial de seus reinos.

Algumas conquistas cristãs como a das cidades de Toledo, em 1085, e de Valência, em 1094, demarcariam, até os inícios do século XII, uma importante linha fronteiriça, o vale do rio Tejo. Forma-se então uma franja de território que vai do Tejo até o sul da Península Ibérica, região de lutas alternadas com períodos de tréguas entre cristãos e muçulmanos. Em 1212, a Batalha de Navas de Tolosa uniria os reinos cristãos da península contra a dinastia muçulmana dos Almôadas e a vitória cristã abalaria a caminhada de afirmação dessa dinastia no interior do mundo islâmico.

Em poucas palavras, a expansão da Cristandade latina conflita com o projeto dos vizinhos muçulmanos, também eles envolvidos num processo próprio de ampliação dos espaços de dominação e conversão islâmica. A expansão da Cristandade latina atinge também os bizantinos, encurralados entre cristãos latinos e muçulmanos.


A EXPANSÃO MUÇULMANA E SEUS ESPAÇOS DE OCUPAÇÃO
O monoteísmo islâmico expande-se pelas mãos dos continuadores de Maomé, os califas, para o Oriente e para o Ocidente, desde o século VII, da Península Arábica e chegaria, no século VIII, até a Península Ibérica, incluindo todo o norte da África. Tamanha dimensão de espaços islamizados pressupõe etnias, culturas, dialetos diferenciados, daí falarmos em muçulmanos - e não em árabes - aqueles que vivem sob a égide da religião islâmica.

Esse movimento de expansão para o Ocidente dificulta o controle pela Península Arábica e gera uma divisão do poder entre os grandes espaços de dominação muçulmana. Assim, a unidade religiosa mantém-se, mas a unidade política é fracionada em três grandes eixos de poder.

A Península Ibérica é a região de um deles, sede da dinastia Omíada, com capital em Damasco, às margens do Mediterrâneo Oriental, de onde se inicia o movimento de expansão, cujo califado duraria de 651 até 750. Essa dinastia é substituída em 750 pelo Califado Abássida, que muda a capital para Bagdá, onde permanece até 1258, quando é destruída pelos mongóis.

Outro espaço de ocupação islâmica é o norte da África, onde a dinastia dos Fatimíadas é a autoridade desde 909 até cerca de 1090, quando os almorávidas se sobrepõem politicamente. Após 1110, essa dinastia é substituída pelos almôadas durante os séculos XII e XIII. No século XIII, a dinastia muçulmana dos mamelucos, sediada no Egito, domina o literoal da Palestina e parte da atual Tunísia.

O terceiro espaço é a Península Ibérica, fruto direto dos conflitos relativos às transições dinásticas islâmicas de Damasco e depois do litoral africano. O golpe abássida de 750 sobre Damasco leva à fuga de Abd-al-Raman I, descendente Omíada que chegaria à Península Ibérica e instalaria o Emirato de Córdoba, nova sede do poder muçulmano no Ocidente. Em 929, seu descendente, Abd-al-Raman III, transforma o Emirato em Califado de Córdoba, promovendo uma mais concreta ruptura política em relação ao Califado abássida. A Península Ibérica seria ainda ocupada sucessivamente pelos almorávidas e almôadas, entre os séculos XII e XIII, como reflexo dos movimentos do Magreb (o norte da África islamizado).

É do choque promovido por essa sucessão de avanços islâmicos sobre territórios cristãos que se deflagra o processo de Reconquista cristã, em que cristãos se confrontam com os muçulmanos (identificados nas fontes ibéricas como "mouros" ou "sarracenos").

A própria expansão muçulmana tem momentos de crise (gerada por fracionamentos internos como a substituição de uma dinastia no poder por outra) alternados com momentos de renovada unidade (quando califas hábeis conseguem reunificar as facções e conduzi-las contra os cristãos), alternâncias cujos reflexos seriam sentidos nas vitórias ou derrotas cristãs frente ao Islã.

No entanto, a convivência, fruto de séculos de encontros de culturas distintas, geraria, em certos momentos e circunstâncias, espaços de conhecimento mútuo e interação cultural. No caso peninsular, o principal fruto dessa convivência é o Al-Andalus - territórios sob dominação muçulmana que sofrem influência dos reinos cristãos e da cultura judaica, mas também promovem essas influências, o que faz da Península Ibérica uma encruzilhada cultural. A multiplicidade de termos identificadores da condição dos indivíduos é um reflexo desse sincretismo. Assim os moçárabes seriam os cristãos que viviam em espaços dominados pelos muçulmanos; os mudéjares ou mouriscos, muçulmanos que viviam em territórios sob domínio cristãos; os muladis seriam cristãos convertidos ao islamismo; os conversos, judeus ou muçulmanos convertidos ao cristianismo. Influências mútuas trocadas desde 711, data de sua chegada à Península, deixaram suas marcas na língua, na arquitetura, no pensamento e permitiram progressos científicos na Náutica, Cartografia, Astronomia e Álgebra - determinantes para o avanço e sucesso das viagens dos Descobrimentos, promovidas posteriormente por portugueses e espanhóis. No entanto, a vitória militar dos cristãos em 1492, quando o reino de Granada é derrotado, não representa o fim das influências culturais muçulmanas nessa região.


AVANÇO ISLÂMICO SOBRE O MEDITERRÂNEO ORIENTAL
Conforme vimos, os Omíadas ocupam os territórios da Síria, na Ásia Menor pertencente ao Império Bizantino, desde 650, próximo aos pontos onde desembocavam importantes rotas comerciais do Oriente. Isso não impediu a continuidade desses fluxos de rotas comerciais, mas acrescentou mais um intermediário, os muçulmanos.

Inicialmente a expansão muçulmana para o Oriente presta um favor imediato aos bizantinos ao conquistar, em 651, seu inimigo histórico, o Império Sassânida, na Pérsia. No entanto, os muçulmanos prosseguem e têm como objetivo dominar o Império Bizantino. Essa pretensão é contida, em 678, pela ação militar vitoriosa do imperador Constantino IV. Tal derrota leva os muçulmanos a uma inflexão de sua expansão em direção ao sudoeste, mais especificamente para o norte da África.

Enquanto isso, Jerusalém, pertencente aos territórios bizantinos - cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos -, continuava disponível para peregrinações. Essa disponibilidade acaba no século XI, quando os turcos seldjúcidas, povos provenientes da Ásia Central, islamizados, investem contra os abássidas em Bagdá e continuam suas conquistas até a àsia Menor, inclusive seu litoral, a Síria e a Palestina.

Com isso, o Império Bizantino volta a ter os muçulmanos ocupando parte de seu território. Enfrenta ainda pretensões de conquista dos normandos, que partem do reino das Duas Sicílias e derrotam o imperador bizantino Aleixo I, em 1080, ocupando o litoral do Adriático, fato que muito preoucpa os venezianos. Numa tentativa de equilibrar a força de seus inimigos, o Império Bizantino amplia, constantemente, os privilégios e monopólios comerciais dos seus aliados de conveniência, os venezianos, em relação a tributos, rotas e produtos comerciados por Veneza que passavam por território bizantino.

Foi nesse contexto que Aleixo I pediu ajuda ao Ocidente solicitando o envio de mercenários, que, pagos e liberados pelo próprio imperador bizantino, combateriam os turcos na Anatólia, onde a ameaça a seus territórios era iminente. A resposta veio do Concílio de Clermont Ferrand, com objetivos ligeiramente distintos: o papa enviaria hostes para libertar o Santo Sepulcro de Cristo em Jerusalém, na Palestina. Assim, enquanto os bizantinos pediam apenas auxílio militar contra os turcos, o papa punha em ação um projeto de expansão de sua influência sobre Bizâncio e a Cristandade grega.


AS CRUZADAS DO ORIENTE
A História dispõe de grande quantidade de relatos desses acontecimentos, documentos que chamamos de fontes. Com base em tais fontes, constatamos que os bizantinos, em especial os cronistas Nicetas Choniates e Anna Comneno, são bastante críticos em relação às Cruzadas, visto que essas constituem uma ameaça à soberania bizantina.

As fontes latinas, ocidentais, compõem-se de autores franceses como Foucher de Chartres, Jacques de Vitry, Juan de Joinville e Geoffrey de Villehardouin ou germânicos como Otto de Freising ou o autor anônimo de Würsburg, que escrevem cartas e crônicas sobre os eventos na Terra Santa (infelizmente não podemos identificar datas precisas). Essas fontes, por sua vez, são favoráveis às Cruzadas. Relatos promovidos por autores recém-chegados e pouco conhecedores da cultura e valores da região onde ocorrem as Cruzadas do Oriente, criam, quase sempre, uma visão distorcida dos acontecimentos. As canções de gesta, cantigas em forma de poema que lá se compõem, seguem o estilo provençal e o tema do cristão cativo em mãos muçulmanas lhes é muito caro. O caráter cruzadístico está presente no discurso de construção desses relatos que fixam o ideal do cavaleiro cristão, defensor da Cristandade.

Existem, no entanto, cronistas da região de conflito, como Guilherme de Tiro, que imprimem um estilo mais histórico, fundamentado, às suas narrativas. As fontes judaicas têm representação também no relato das Cruzadas e uma importante referência é o Kidush Hashem, coleção de crônicas judaicas sobre perseguições sofridas por algumas comunidades durante as Cruzadas. As fontes árabes estão em boa parte ainda manuscritas; podemos citar os textos de autores como Ibn-al-Athir, Abu-Shama e Kemal ad-Din, cujas obras traduzem uma visão de contraponto à perspectiva ocidental e apresentam justificativas ideológicas do enfrentamento com os cristãos. Todos esses relatos dão uma visão parcial e comprometida do movimento das Cruzadas e refletem os discursos predominantes no seu grupo e na sua época.

Atualmente, podemos contar com muitas teorias que tentam explicar o motivo da convocação das Cruzadas para libertar a Terra Santa. Quase todas concordam com a ideia (já mencionada acima) de que tenha sido um movimento de busca de novos espaços de ocupação no sentido de promover uma diminuição da pressão interna exercida na sociedade ocidental pela demanda crescente de bens e de ações militares. Segundo esse ponto de vista, as Cruzadas teriam servido para canalizar a violência dos cavaleiros para fora da Cristandade, numa atividade que, no imaginário, condizia com sua função social e dignidade.

De fato, os privilegiados, senhores de terras, padeciam de um processo crescente de esgotamento de seu patrimônio, resultado das frequentes partilhas entre os filhos a cada geração. Acabaram por adotar o sistema de sucessão patrimonial que privilegiava apenas o primogênito; no entanto, essa estratégia geraria um excedente de filhos de nobres não contemplados com bens que constituíam importante foco de agitação social. As Cruzadas ocuparaim esses nobres numa função útil ao conjunto da Cristandade.

Outra motivação, defendida por alguns historiadores, seria a busca de novos mercados que servissem à crescente economia das Repúblicas italianas.

Certos historiadores defendem ainda que um móbil desse movimento seriam as aspirações da psicologia coletiva da Cristandade ocidental, que via nas Cruzadas uma oportunidade de peregrinar as regiões longínquas apoiados por um grupo, liderados por um senhor poderoso ou rei que os manteria durante a jornada, além de angariar indulgências, tudo isso num contexto de Guerra Santa cristã, ou seja, luta contra o "infiel" muçulmano.

A diversidade de motivações que levavam os homens a participar desse movimento é bem ilustrada na passagem do cronista anônimo de Würzburg, comentando a Segunda Cruzada:

"[...] as intenções dessas várias pessoas eram diferentes. Algumas, na realidade, ávidas de novidades, iam para saber coisas novas sobre as terras. Outras eram levadas pela pobreza, por estarem em situação difícil na sua casa; estes homens foram combater, não apenas os inimigos de Cristo, mas mesmo os amigos do nome cristão, onde quer que vissem a oportunidade de aliviar sua pobreza. Houve os que estavam oprimidos por dívidas para com outros, ou que desejavam fugir ao serviço devido aos seus senhores, ou que estavam mesmo esperando o castigo merecido pelas suas infâmias."

Enfim, a Cristandade latina apresentava um contexto propício ao chamado à Guerra Santa, e as várias motivações seriam complementares entre si. Uma guerra que aconteceria fora de suas fronteiras, onde haveria um potencial espaço de expansão, em que o discurso da Igreja justificava o uso das armas e de conquista de poder político e religioso, resultado conveniente aos poderes seculares e ao Papado.

A convocação oficial do que ficaria conhecido como a Primeira Cruzada acontece em 25 de novembro de 1095 e é proferida pelo papa Urbano II, no Concílio que se realizava em Clermont Ferrand, composto por cerca de 250 bispos. A Sé Pontifical de Roma, nesse momento, estava ocupada por um antipapa apoiado pelo imperador Germânico - daí a convocação ocorrer em território francês. Daí também a necessidade de o papa Urbano arrogar-se como o único capaz de conduzir a Cristandade a uma iniciativa de tal porte.

O teor da convocação exorta os cristãos a lutarem contra os inimigos de Cristo, que Urbano identifica como "infiéis", com o objetivo de libertar o Santo Sepulcro.

"Os que estão habituados a combater maldosamente, em guerra privada, contra os fiéis, lutem contra os infiéis e levem a um fim vitorioso a guerra que devia ter começado há tempo. Os que até agora viviam em brigas se convertam em soldados de Cristo. Os que até agora eram mercenários por negócios sórdidos, ganhem no presente as recompensas eternas."

A narrativa do episódio da convocação fala do entusiasmo imediato causado pelo desafio: os presentes teriam começado a costurar cruzes em suas vestes, no peito e no ombro, que representaria sua condição de Cruzado. A esse voto corresponderia a contrapartida das indulgências, o perdão dos pecados e ainda a proteção dos bens materiais do peregrino, além da supensão do pagamento de suas dívidas.

A notícia da convocação foi levada pelos bispos e, por correspondência, a todas as partes do Ocidente europeu. Nessa predicação, o clero apoia-se em passagens retiradas do Antigo Testamento sobre as guerras do "povo eleito", os judeus, na defesa de sua fé e do Apocalipse de São João. Textos que alimentam as expectativas das populações mais simples, consoantes com o discurso milenarista dos pensadores da Igreja nesse século XI. O discurso e os argumentos de convocação seriam bastante adequados ao contexto que se vivia no Ocidente europeu e iriam de encontro às diferentes expectativas das massas e das elites.

O fervor religioso foi ressonante, pois, antes da partida da primeira Cruzada oficial, já em março de 1096, Pedro, o Ermitão, um pregador pobre da região da Lorena, na França, arrasta consigo de 15 mil a 20 mil pessoas, com o intuito de libertar o Santo Sepulcro. Ele seguia montado em um jumento, numa clara analogia à entrada de Cristo em Jerusalém. O resultado é desastroso, pois a maioria dos peregrinos morre de fome, cansaço e frio pelo caminho. Os poucos que chegaram acamparam às portas de Constantinopla e acabariam vítimas dos turcos.

Outra Cruzada voluntária, ocorrida em 1212, a Cruzada das Crianças, que também parte da França, atrairia cerca de 30 mil crianças e adolescentes conduzidos por alguns adultos e teria o mesmo destino. As crianças foram levadas a acreditar que o Mediterrâneo se abriria à sua passagem, tal como o relato bíblico de Moisés atravessando o mar Vermelho. Já no trecho da passagem de barco desde Marselha até Gênova dois navios naufragam. O restante do contingente seria dizimado ou escravizado. Sintomas de uma adesão popular mística à causa da libertação de Jerusalém e demonstração clara de que tal manifestação prescindia de um esforço organizacional. Outro aspecto a destacar é a potencialidade de inserção popular no movimento das Cruzadas, em que não existem barreiras à participação das pessoas mais simples. Vimos como nesses dois exemplos de Cruzadas populares as massas se mobilizam autonomamente em função de um chamado papal, o que demonstra o alcance das prédicas eclesiásticas quando essas são coincidentes com as expectativas dos convocados.


ORGANIZAÇÃO
A prerrogativa de convocação das oito Cruzadas oficiais à Terra Santa, entre 1099 e 1270, é dos papas; no entanto, a organização ficaria a cargo dos reis e imperadores que atendessem ao apelo. Foi o maior esforço de deslocamento conjunto de pessoas ocorrido em toda Idade Média, o que exigia longo prazo de organização e captação de recursos. Na terceria Cruzada, só o rei da França levaria consigo cerca de 650 cavaleiros e 1.300 escudeiros.

Quem financiava as Cruzadas eram seus executores, os reinos e o Sacro Império Romano Germânico, os quais buscavam esses recursos em avultados empréstimos conseguidos pela banca italiana. O Papado faria sua parte, autorizando o desvio de seus tributos eclesiásticos arrecadados nas localidades para os organizadores das Cruzadas, como uma forma indireta de financiamento da empreitada.

Nas quatro primeiras Cruzadas, os grupos concentravam-se às portas de Constantinopla, de onde seguiam para os territórios ocupados, mas as rotas de chegada a esse ponto variavam em função do local de onde haviam partido. Os que vinham do norte da França seguiam pela costa do Adriático e atravessavam a Península Balcânica até Constantinopla. Os que vinham do norte da Europa optavam por passar pelas regiões do centro da Europa atravessando o reino da Hungria. A Sicília servia como ponto de partida dos normandos e borgonheses vindos do sul da França.

Já as quatro últimas Cruzadas dirigem-se diretamente para o Egito, onde os mamelucos começavam a ameaçar o Mediterrâneo Oriental.


A PRIMEIRA CRUZADA
A Primeira Cruzada parte em meados de 1096, constituída por nobres franceses liderados por Godofredo de Bulhão, duque de Lorena, Hugo de Vermandois, irmão do rei da França, e Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse, os quais chegam a Constantinopla entre novembro de 1096 e abril de 1097, com Roberto II, duque da Normandia. Outro grupo foi liderado por Boemundo, que trazia os normandos da Sicília, os quais chegaram a Constantinopla em abril de 1097. Nenhum rei participou diretamente na Primeira Cruzada.

O imperador Aleixo I recebe esses reforços estacionados às portas de Constantinopla de maneira desconfiada, especialmente devido à presença dos normandos, inimigos tradicionais de Bizâncio. Os bizantinos de fato execram a presença desses homens considerados rústicos, identificados como bárbaros, vindos do Ocidente, o que reflete o distanciamento cultural entre a Cristandade latina e Bizâncio.

Ouçamos as palavras da filha do imperador, Ana Comenno, no seu diário chamado Alexíada, que narra detalhes dos "maus augúrios" que precederiam a chegada dos cruzados - especialmente os normandos:

"A chegada de tantos povos foi precedida de gafanhotos que evitavam os cereais, mas que arrasavam os vinhedos, devorando-os. [...] produziu-se, então, um movimento, de homens e mulheres juntos, como nunca outro antes visto; as pessoas mais simples iam realmente movidas pelo desejo de venerar o sepulcro do Senhor e de visitar os Lugares Santos; mas os homens perversos, como Boemundo e seus comparsas, abrigavam no fundo do coração outro desejo e a esperança de que pudessem, na passagem, apoderar-se da própria cidade imperial."

Uma desconfiança que se reflete na imposição feita pelo imperador bizantino aos de um juramento de fidelidade que os obrigasse a lhe entregar as terras conquistadas aos muçulmanos.

A luta finalmente se iniciaria e seria marcada por ações militares rápidas, que no caso dessa Primeira Cruzada pegaria os muçulmanos de surpresa. No entanto, gerariam carnificinas que imporiam um tom sangrento a esses movimentos. Ao idealismo da libertação do Santo Sepulcro unir-se-á, nessa época, a ideia de martírio como um preço possível a se pagar.

As ações desenrolam-se durante cerca de dois anos numa progressão para o sul da Síria, de forma que, em julho de 1099, os cruzados entram em Jerusalém. Os moradores cristãos que viviam na cidade tinham tido permissão para deixá-la pouco antes do cerco, numa tentativa de aplacar a ira dos cruzados. No entanto, esses não aceitaram negociações e acabaram promovendo três dias de pilhagem em Jerusalém e uma matança indiscriminada de muçulmanos, judeus e qualquer pessoa que tivesse permanecido na cidade e nas vizinhanças.

Os territórios então conquistados pelos cristãos cruzados formariam quatro unidades políticas independentes em relação ao Império Bizantino, os chamados reinos francos da Síria e Palestina, constituídos pelo Reino de Jerusalém (que durou de 1099 a 1187), Principado de Antioquia (1098-1268) e Condados de Trípoli (1109-1289) e de Edessa (1098-1144). Essas regiões foram ocupadas inicialmente por grupos desenraizados, compostos por pequena parcela daqueles que tinham ido lutar e que passaram a conviver com os originários da região. Populações isoladas que contariam com uma oposição latente dos muçulmanos e dos bizantinos. Esse seria o frágil resultado militar e político da convocação de 1095, de que o papa Urbano II morreria sem ter conhecimento. Contudo, não seria de desprezar a atração exercida no Ocidente por essa vitória fragorosa, de tal forma que, em 1100, o papa Pascoal teve que proibir os cruzados da Península Ibérica de abandonarem suas batalhas e partirem para a Terra Santa.

Apesar da instabilidade constante dos moradores dos reinos francos na Síria, geraria-se um clima de convivência e interação entre as comunidades cristãs e as populações autóctones dessas regiões, realidade relatada por Foucher de Chartres na sua História das Cruzadas:

"[...] nós, que éramos ocidentais, chegamos a ser orientais; aquele que era romano ou franco, chegou, aqui, a ser galileu ou habitante da Palestina; quem habitava em Reims ou Chartres, fez-se cidadão de Tiro ou de Antioquia [...] aquele outro se casou com uma mulher que não é de sua origem, uma síria ou uma armênia, ou inclusive uma sarracena que recebeu a graça do batismo; outro tem aqui genro ou nora, sogro e descendência [...] falam línguas diferentes e todos já se entendem. Os idiomas mais diversos são agora comuns a todas as nações e a confiança aproxima povos tão diferentes."

Iniciava-se um período de dois séculos de convivência e produção de uma base cultural comum que deixaria suas marcas, mesmo após o fim das Cruzadas do Oriente.


NATUREZA DAS AÇÕES MILITARES
A Guerra Santa assumiria um estilo semelhante aos conflitos que se desenrolavam no Ocidente. Uma guerra de cerco e assédio posto sobre cidades amuralhadas e castelos, acompanhados de saques e pilhagens. Não se realizavam batalhas campais com exércitos confrontando-se diretamente - isso em função de que o exército, entendido como instituição militarmente profissionalizada que caracterizara o mundo clássico, desaparecera no Ocidente, com o fim do Império Romano. As autoridades locais assumiram o poder e impuseram sua vontade cercando-se de vassalos fiéis, também eles nobres, que deveriam acudir ao chamado de seu senhor com suas próprias hostes.

As hostes compunham-se de cavaleiros e escudeiros nobres, criados por senhores poderosos de quem aprendiam os princípios éticos do cavaleiro-ideal, valores cristãos e práticas bélicas. Essa era a elite que conduzia as hostes, aqueles que dominavam as melhores técnicas de luta a cavalo e a pé e que entendiam de estratégia. A maior parte das hostes compunha-se, no entanto, dos dependentes dos senhores, camponeses que não dispunham de armamento ou preparo militar. Seriam esses contingentes que acompanhariam os grandes senhores até a Terra Santa.

Acostumados a lutas localizadas de conquista de castelos de senhores adversários, os cruzados tomam aos muçulmanos, cidade a cidade, algumas bem fortificadas, através de raids rápidos ou cercos. Daí a importância dos cavaleiros das Ordens militares, monges que fazem voto de pobreza, castidade e obediência, mas que também lutavam de maneira profissional, dispondo de uma hierarquia interna que rapidamente os transformaria, depois do século XII, na principal força de combate na Terra Santa e nos outros espaços de expansão da Cristandade. Os turcopoles seriam outro grupo que apoiaria militarmente os cruzados, mercenários contratados, autóctones das regiões de conflito.

O estabelecimento dos reinos francos da Síria fez-se da construção de várias fortalezas. A estrutura desse assentamento regional partia de uma grande fortaleza rodeada de castelos menores que se comunicavam entre si através do fogo aceso nas torres das muralhas. Uma construção que seria refeita inúmeras vezes, já que após a Primeira Cruzada as seguintes se concentrariam na retomada de suas possessões perdidas para os muçulmanos. Tornava-se ainda fundamental defender as passagens de fuga, principalmente pelo mar.

A aproximação dos invasores, cristãos ou muçulmanos, em geral numericamente superiores aos sitiados, gerava uma predisposição desses para as negociações de paz. Muitas vezes foram feitos acordos que permitiriam a entrega pacífica das cidades. Os indivíduos mais importantes eram feitos reféns pelo vencedor, que cobrava resgate, prática mais frequente dos muçulmanos ao capturarem um cristão. Caso não houvesse disposição para a rendição, o cerco dos invasores impunha-se e seguia-se a espera de reforços salvadores dos sitiados. Para impedir a chegada de tais reforços, cortavam-se as rotas de abastecimento das cidades, interrompia-se o curso de riachos para aumentar a carência de água e por vezes envenenavam-se os mananciais e poços a fim de vencer mais rapidamente as resistências. Quando ocorriam longas permanências, as doenças grassavam dentro e fora dos cercos devido ao calor e às baixas condições de higiene.

O assédio fazia-se através do lançamento de escadas e pontes sobre os fossos e gatos, máquinas que lançavam ganchos de ferro amarrados em cordas, capazes de abrir flancos nas muralhas. Outro aparato bélico era a catapulta, cujo objetivo era incendiar e destruir o interior das muralhas.

As torres móveis, construídas de madeira, sobre rodas, tinham vários andares e deviam ser mais altas que as muralhas. No piso térreo estaria o arete, um tronco reforçado com ponta de ferro responsável pelo arrombamento da porta. No andar intermediário, iam os arqueiros e homens encarregados de colocar fogo em cavidades feitas na muralha a fim de enfraquecer o conjunto da fortificação, enquanto outros adotavam a mesma estratégia na base das muralhas. No andar superior da torre, ficava uma passarela de assalto de onde penetravam nos passadiços que rodeavam o interior da muralha.

A defesa consistia em dificultar o assalto com o lançamento de pedras, líquidos ferventes e chuvas de flechas sobre os invasores.

Ocorrido o rompimento das muralhas e da porta, restava aos sitiados, famintos e sedentos, resistir numa luta de espada e maças que envolveria homem a homem. Os invasores, em geral, acabavam por pilhar descontroladamente os bens móveis que existiam no interior da cidade, que em seguida era incendiada como forma de se completar a destruição.

O assédio por mar era outra possibilidade, que por vezes completava o ataque terrestre, pois algumas das cidades e fortalezas eram marítimas. Nesse caso, o assalto era feito valendo-se de barcos equipados com passarelas volantes. A dificuldade maior consistia na aproximação dos barcos às muralhas para encaixar as passarelas nas torres por onde se faria o desembarque das hostes invasoras.

A partir do século XII, os bizantinos desenvolveram o hussier, barco de maior calado que transportava cavalos que desembarcavam por portas laterais e seriam utilizados em suas invasões. Os turcos apoiavam-se numa cavalaria rápida utilizada em raids e em arqueiros eficientes que cobriam o inimigo de flechas, objetivando anular a cavalaria inimiga através do abate dos animais.

Os cavaleiros francos, de sua parte, traziam pesadas armaduras que dificultavam sua movimentação mas que os protegiam, de maneira eficiente, dos ataques inimigos.

Os turcos costumavam ainda atrair os francos para fora das fortalezas, fingindo uma fuga seguida de contra-ataque.

Outra técnica muito temida era o fogo grego, atirado em recipientes de argila repletos de nafta, que ao atingirem seu destino seriam incendiados através de tochas acesas acopladas às flechas e tinha alto poder de destruição.

A guerra intitulada santa, pelos dois lados em luta, resultava em grande número de mortos e numa grande destruição que exigia constantes esforços de reconstrução.


A CONTINUIDADE DO MOVIMENTO
Em resposta à ocupação cristã da Palestina, os muçulmanos lançaram uma convocação da Jihad (guerra santa, em árabe) com o intuito de libertar esses territórios das mãos dos cristãos:

"Ilghazi fez seus homens jurarem combater com valentia, resistir firmemente, não recuar e oferecer sua vida pelo jihad [guerra santa], [...] bruscamente, ao nascer do sol, os franj [francos cruzados] viram aproximar-se os estandartes dos muçulmanos que os cercavam por todos os lados." [1]

Além disso, o imperador bizantino, insatisfeito com os cruzados de um modo geral - e especialmente com os normandos, que dominavam o Principado de Antioquia - por não lhe reconhecerem, na prática, nenhuma autoridade sobre os territórios reconqusitados, acabaria por fazer uma aliança com o sultão de Bagdá, em 1112, contra os cruzados. Em 1116, Aleixo I pactua com os turcos seldjúcidas tornando-os federados do Império Bizantino. Os reinos cruzados, autônomos e divididos entre si, teriam agora duas frentes de oposição militar, o que os obrigaria, do ponto de vista diplomático, a tentar negociações isoladas com Bizâncio e mesmo com os muçulmanos para manter sua frágil integridade.

A reconquista islâmica do Condado de Edessa, em 1144, é o motivo oficial da convocação da Segunda Cruzada, num momento em que o sucessor de Aleixo, o imperador Manuel I, já tinha recuperado Antioquia. O pedido fora feito por Bernardo de Claraval, monge cisterciense e eminente figura política de seu tempo, ao papa Eugênio III, que em 1146 a oficializa, e seria uma resposta a um pedido de socorro dos reinos francos feito diretamente a Roma. Nessa Segunda Cruzada estariam presentes Luís VII, o rei da França, Conrado III, imperador do Sacro Império Romano Germânico, além de nobres cruzados ingleses, flamengos e frísios. Os contingentes vindos da Inglaterra contornariam por mar a Península Ibérica e no caminho, em 1147, ajudariam a reconquistar Lisboa dos muçulmanos, promovendo um encontro das Cruzadas do Oriente com a Reconquista cristã.

O que poderia ser manifestação de força tinha um potencial de fragilidade. As importantes autoridades que conduziriam essa nova Cruzada disputavam entre si a preeminência no Ocidente - daí a tendência à desagregação dos ataques que gerariam os primeiros desastres militares sofridos pelos cruzados. Além disso, surgia no mundo muçulmano um líder capaz de unificar as forças à sua volta, Zengi, senhor de Alepo e Edessa que projetava unificar sob seu poder a Síria muçulmana. Nesse momento a unidade jogava a favor dos muçulmanos.

As forças do Sacro Império Romano Germânico chegaram primeiro e resolveram atacar sem aguardar o apoio de ingleses e franceses - iniciativa que resulta em fracasso, visto que são destroçados em Dorileia. Os poucos sobreviventes se juntariam aos outros cruzados e tentariam pôr cerco a Damasco, onde os filhos de Zengi os derrotariam mais uma vez. Essa Segunda Cruzada seria um rotundo fracasso e os ataques muçulmanos continuariam até que em 1187, Saladino, continuador da obra de Zengi, tomaria Jerusalém das mãos dos francos.

Enquanto isso, o imperador bizantino, Manuel I, virava-se para o Ocidente, ignorando o desenrolar dessa Segunda Cruzada em territórios historicamente seus, e promovia um movimento de expansão sobre o reino da Hungria. Sua vitória implicava presença bizantina nas costas do Adriático, colocando Veneza em estado de alerta. Além disso, os venezianos residentes dentro do território do Império Bizantino seriam submetidos a prisão e confisco por ordem imperial. Em resposta a isso, forma-se uma aliança entre Veneza, o Sacro Império Romano Germânico e os turcos de Antioquia em 1176. As ideologias cediam espaço aos interesses comerciais e políticos.

A Terceira Cruzada iniciada em 1189 com o intuito de reconquistar Jerusalém daria continuidade à anterior tendência à desagregação das forças cristãs e contaria com a participação de personagens ilustres como o rei da França, Filipe Augusto e seu rival Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra. Frederico I Barbaroxa do Sarco Império Romano Germânico, morreria afogado em um rio a caminho da Terra Santa, o que promove uma dispersão das forças imperiais. As forças franco-inglesas ignoram o imperador bizantino e dirigem-se por mar diretamente a Acre, onde ajudam a tomar a cidade em 1191 para os cristãos. Findo o cerco, Filipe volta para resolver problemas internos em seu reino e Ricardo conduziria sozinho as ações subsequentes.

No entanto, a inferioridade numérica perante os muçulmanos liderados por Saladino e a necessidade de abreviar sua presença no Oriente determina a celebração de importante acordo com os muçulmanos. O tratado estabelecia o reconhecimento da posse de uma estreita faixa do litoral sírio-palestino aos ocidentais e a permissão das peregrinações dos cristãos a Jerusalém. Saladino manifesta, nesse tratado, seu perfil de hábil líder militar e diplomático que via na tolerância para com os cristãos um dos caminhos de continuidade de seu projeto de unidade islâmica; em outros momentos, porém, a via escolhdia seria a do conflito. Por sua vez, Ricardo Coração de Leão seria acusado de pactuar com o inimigo; no entanto, esse acordo dava uma sobrevida ao movimento das Cruzadas ao garantir a permanência dos cristãos na região.

Fechava-se um ciclo. Mesmo no Ocidente, começava-se a questionar o ideal religoso das Cruzadas e o século XIII daria uma crescente ênfase comercial a esse movimento.


AS CRUZADAS DO SÉCULO XIII
O papa Inocêncio III, defensor acirrado da Teocracia Papal, convocaria a Quarta Cruzada (1202), mas só conseguiria manter uma influência teórica sobre o moviemnto. O motivo alegado da nova convocação era apoiar o que restara dos reinos francos após o tratado realizado entre Saladino e Ricardo Coração de Leão, além de conquistar o Egito.

Os interesses comerciais venezianos dariam o tom no encaminhamento dos preparativos, que não contariam com a presença de nenhum rei. A República de Veneza percebeu que teria de implantar nos territórios reconquistados uma autoridade política que reforçasse os instáveis vínculos comerciais com o Império Bizantino. Veneza oferece então transporte e provisões aos cruzados em troca de certa quantia e metade das conquistas realizadas pelos cruzados. O próprio doge de Veneza, Enrico Dandolo, conduz a Cruzada.

Os cruzados já convertidos a uma condição de mercenários deveriam ainda, no caminho, prestar um serviço aos venezianos: conquistar a cidade de Zara, no litoral Adriático, ocupada ainda pelo rei da Hungria. Essa tarefa foi cumprida integralmente. É nessa cidade que os cruzados teriam recebido uma segunda proposta vinda do filho de Isaac II, que fora deposto do trono bizantino. Os cruzados deveriam destituir o usurpador e recolocar Isaac no poder, e esse, em troca, os aprovisionaria de alimentos e roupas para que continuassem as lutas contra os muçulmanos. Além disso, lhes pagaria grande soma em dinheiro e ainda subordinaria a Igreja grega à latina, o que agradava ao papa Inocêncio III. A proposta foi aceita e Isaac recolocado no trono em meados de 1203. Porém a presença dos cruzados dentro de Constantinopla causa tanto desagrado que acaba gerando uma revolta popular, que logo depõe novamente o imperador acusado de ser excessivamente pró-latino.

Os cruzados foram então obrigados a sair da cidade e mantiveram-se insatisfeitos por não terem recebido as contrapartidas previstas no acordo com Isaac, até que em abril de 1204 invadem a cidade pela parte identificada como Corno de Ouro, ao mesmo tempo em que atacam as muralhas pela parte terrestre. A cidade fica exposta a saques constantes que não poupam as igrejas como Santa Sofia, as tumbas e os palácios, e resulta num riquíssimo botim arrecadado pelos cruzados, como a quadriga de cavalos em bronze que estava no Hipódromo de Constantinopla e que é levada para Veneza, onde adornaria a praça principal da cidade italiana.

A própria cidade foi dividida entre os saqueadores: três partes cabendo aos venezianos e uma parte aos demais cruzados. O Império Bizantino desaparece temporariamente dando lugar ao Império Latino do Oriente, que passa a controlar um quarto do território bizantino, com capital na maior parte de Constantinopla e com um imperador, o conde Balduíno da Flandres. Os restantes três quartos do território foram divididos entre os venezianos e os outros cruzados.

Uma resistência bizantina que inclui boa parte do clero ortodoxo cria, em 1206, o Império de Niceia (região da Península da Anatólia, parte do Império Bizantino original). De lá parte a iniciativa, apoiada pelos genoveses, de reunificar o Império Bizantino; em 1261, chega ao fim o efêmero Império Latino do Oriente.

Esses acontecimentos são reflexos da rivalidade comercial veneziano-genovesa e da divisão crescente entre os bizantinos e os ocidentais, que de fato se agrava desde então. A reunificação das duas Igrejas jamais se realizaria novamente.

O Papado mantém-se coerente com sua proposta inicial desde a primeira convocação de Cruzada, prerrogativa que lhe garantia uma posição de tutoria da Cristandade Ocidental. O que muda a partir do século XIII são aqueles que atendiam ao chamado e usavam essa bandeira para seus fins particulares.

A reconquista da Jerusalém terrestre, considerada pelos religiosos a imagem da Jerusalém celeste, continuaria a ser o objetivo oficial das Cruzadas. No entanto, o discurso da Igreja em relação às Cruzadas tornara-se anacrônico num contexto de enriquecimento comercial e urbano que caracteriza o século XIII. Vivia-se em uma época em que as elites intelectuais, mesmo clericais, começavam a aceitar princípios de logicidade em seu pensamento; na qual as catedrais góticas, com todo o seu esplendor e técnica, transmitiam aos fiéis a imagem de que Deus é luz e felicidade e, ainda, quando as Universidades e as escolas de pensamento urbano não prescindiam mais dos pensadores muçulmanos e judeus.

Principalmente após a Quarta Cruzada, Jerusalém passaria a ser uma referência também política e comercial para os cruzados. Alguns movimentos espontâneos, como as Cruzadas das Crianças de 1212, parecem ter sido tentativas de aplicação do ideal original de Cruzada; no entanto, seu resultado demosntra a fragilidade dessas iniciativas.

Diante do resultado vergonhoso da Quarta Cruzada, o papa Inocêncio III, durante o IV Concílio de Latrão de 1215, conclama a Cristandade latina à Quinta Cruzada, que acaba partindo em meados de 1217.

Os reis tinham em seus reinos graves problemas a resolver; a França, por exemplo, desde 1209 promovia sua Cruzada particular contra os heréticos cátaros e albigenses concentrados no centro e sul de seu próprio reino. Poucos reis portanto acorreram à convocação pontifícia. Aqueles que aceitaram a tarefa foram guiados pelo rei de Jerusalém, Juan de Brienne, que decidiu atacar o Egito, numa típica inflexão dos objetivos estratégicos das Cruzadas no século XIII, que passariam a se voltar para esse novo eixo de poder muçulmano.

Nesse ataque, os cruzados conseguem cercar Damieta, rica cidade no delta do Nilo, surpreendida pelas boas relações que o sultão mantinha até então com os invasores. Esses recusam uma proposta do sultão de tréguas por 30 anos em troca da libertação da cidade. Damieta é então invadida em 1219, e seu rico butim distribuído entre os saqueadores. O entusiasmo da vitória atrasa a marcha dos cruzados sobre o Cairo, sede do sultanato. O atraso permitiu que as cheias do Nilo e as forças de socorro turcas transformassem os cruzados em sitiados dentro da cidade de Damieta. Acabaram obrigados a abandoná-la em troca de uma trégua de oito anos. Terminaria assim, sem nenhum proveito significativo, mas uma Cruzada.


INTERESSES CONFLITANTES
Um dos expoentes desse início do século XIII é o imperador Frederico II Hohenstäufen, herdeiro por parte de pai do Sacro Império Romano Germânico e por parte de mãe do reino normando das Duas Sicílias, onde manda construir a Corte Trilingue de Palermo - espaço de tolerância e trocas entre artistas, filósofos, juristas e pensadores latinos, judeus e árabes.

Frederico aspirava à liderança do Ocidente, e a concretização de seus planos passava pelo controle da Terra Santa. Para atingir seu objetivo, sua estratégia inicial foi casar-se com a filha do rei de Jerusalém, consolidando assim uma aliança com esse reino; a outra, foi conseguir do papa Honório III a convocação de nova Cruzada, à qual apenas ele atenderia como líder. Em 1227, Frederico consegue reunir contingentes de várias regiões. No entanto, sua expedição retorna à Itália vencida pela má organização e pelas doenças que vitimaram os cruzados.

Diante desse fracasso, o novo papa, Gregório IX, excomunga o imperador Frederico II e acusa-o de traidor, inimigo da Igreja. Por trás dessa acusação pesavam o incômodo do Papado com relação aos interesses imperiais na Itália e as pretensões da Teocracia Papal contestadas pelo mesmo imperador.

Mas Frederico II não abandona seus objetivos e parte, em 1228, novamente para a Terra Santa com hostes italianas e germânicas. Dedica-se a um tratado de paz, concretizado em 1229, com o sultão do Egito, Al-Kamil, o Tratado de Jafa. Nele, Jerusalém mantinha-se uma cidade aberta, ou seja, seriam permitidas peregrinações muçulmanas e cristãs. Além disso, seria devolvido aos cristãos boa parte do território original dos reinos francos na Síria e Palestina, ampliando o acordo realizado anteriormente por Ricardo Coração de Leão. O tratado envolvia ainda vantajosos acordos comerciais de Frederico II com o sultão do Egito.

A independência do imperador e o sucesso de seus acordos com a nova autoridade muçulmana geram hostilidade dos cristãos que viviam na Síria franca. Além disso, a tolerância em relação aos muçulmanso fazia com que o imperador fosse tido como um aliado do inimigo. Na verdade, tratava-se de uma disputa regional de autoridade que Frederico temporariamente vencera. Ao entrar em Jerusalém, um mês depois, escoltado por suas hostes, caminha sozinho até a basílica do Santo Sepulcro, onde se coroa o novo rei de Jerusalém. A resposta não tardaria a chegar. Seus territórios na Itália seriam invadidos por fiéis ao papa, o que obrigaria Frederico a se retirar da Terra Santa.

Logo em seguida, nova força militar surgida no Mediterrâneo oriental, os mongóis, promoveriam em 1244 nova queda de Jerusalém em mãos "infiéis".

O encerramento das pretensões do imperador germânico ao domínio do Mediterrâneo viria com a declaração de sua deposição, ocorrida em 1245 no Concílio de Lyon, no qual os interesses papais se aliariam a outros que tinham o mesmo projeto de Frederico. Frederico chegou a ser acusado de personificar o Anticristo. Nova Cruzada foi convocada nessa ocasião.

Carlos, o duque de Anjou, irmão do rei Luís IX da França, realizaria seu projeto de Império Angevino em 1268, ao conquistar aos descendentes de Frederico II, o reino das Duas Sicílias. A França adquiriu então, pela primeira vez, controle sobre boa parte do Mediterrâneo Ocidental, estendendo seus domínios para além de seu território continental. Carlos pretendia ainda, com o apoio pontifício, conquistar o Império Bizantino e restaurar o Império Latino do Oriente com o apoio dos venezianos, ansiosos por recuperar entrepostos no mar Negro.

O duque de Anjou chega a ocupar militarmente regiões da Península Balcânica mas acaba sendo contido pelo rei de Aragão, cujas pretensões em relação ao domínio do Mediterrâneo conflitavam com as suas. Pedro III de Aragão, casado com a neta de Frederico II, herdeira oficial do reino das Duas Sicílias, fomenta em Palermo, na segunda-feira de Páscoa de 1282, um levantamento local contra os ocupantes franceses, uma revolta sangrenta denominada, em siciliano medieval, Vísperas Sicilianas. Carlos de Anjou conservaria apenas o reino de Nápoles, e Pedro III expandiria seus domínios ainda mais pela maioria das ilhas mediterrânicas.

Enquanto isso, o irmão do duque de Anjou, o rei Luís IX da França, protagonizaria o papel de "cruzado perfeito" conduzindo as duas últimas Cruzadas que teriam ainda como alvo o Egito. Ele tinha o misticismo como traço marcante de sua personalidade. O futuro São Luís teria sido educado de forma rigorosa nas práticas cristãs por sua mãe, Branca, princesa castelhana, o que torna fiável a crença do rei na sua missão de libertador do Santo Sepulcro.

Em 1246 terminou, em Paris, a construção da Saint-Chapelle, monumento gótico que passou a abrigar a relíquia do fragmento da Cruz de Cristo, que o rei francês adquirira por avultada quantia no grande mercado de relíquias que partia da Terra Santa e espalhava por toda Cristandade as mais bizarras lembranças de santos, dos apóstolos e do próprio Cristo e sua mãe. Um comércio que dispunha de relíquias para todos os bolsos, desde fragmentos de dentes e ossos até gotas do leite materno de Maria, atendendo às expectativas da espiritualidade medieval de materialização da divindade em pequenas lembranças que teriam caráter curativo e salvífico. Uma necessidade que também atingia os reis.

Além disso, criara-se, à volta das monarquias medievais, francesa e inglesa, a crença que, devido à sua sagração, os reis eram capazes de curar as escrófulas, uma dolorosa inflamação dos gânglios linfáticos, com a simples imposição de suas mãos. Assim, a própria função régia previa certo grau de misticismo latente ao rei Luís IX; no entanto, é pouco provável que, apesar de seu idealismo, desconhecesse o projeto Angevino conduzido por seu irmão.

Nesse caso, podemos falar de interesses convergentes, partindo de estratégias diferenciadas, numa França que pretendia assumir-se como líder no Ocidente. Um reino que tutelaria e promoveria os projetos papais até pelo menos o século XIV, quando o próprio rei da França pretenderia assumir a função de condutor da Cristandade. Caberia ao rei Luís IX o papel de guerreiro místico que lutava por um ideal, a libertação da Terra Santa, secundado por seu irmão, que lutava pela expansão territorial e de influência da França no Mediterrâneo.


O "CRUZADO PERFEITO"
Em 1244, como foi dito, Jerusalém foi invadida pelos mongóis, contrariando os interesses não só dos cristãos como também do sultão do Egito, que tinha pretensões coincidentes ao domínio daquela região.

Os ecos do pedido de socorro dos cristãos, presos no meio de uma disputa entre mongóis e muçulmanos, seriam transmitidos em 1245 no Concílio de Lyon, quando, conforme vimos, vários interesses entravam em jogo no momento de aderir ou não à ideia de uma nova convocação.

Luís IX da França preparava suas forças ao longo dos últimso três anos. Em 1248, dirige-se ao Egito acompanhado de cerca de 3 mil cruzados, onde, em junho de 1249, conquista a cidade de Damieta, mais uma vez presa dos cruzados e logo palco de mais uma derrota cristã. O sultão do Egito cerca os cruzados dentro da cidade e captura o rei da França, forçando-o a submeter-se e pagar grande quantia em ouro por sua liberdade.

Uma vez liberto, Luís IX não retornaria ao seu reino, mas iria para a Síria, ajudar a reconstruir fortalezas e resistir aos invasores. Chega a fazer um acordo com os mongóis; no entanto, enquanto isso, no Egito, o sultanato mameluco tomaria o poder em 1250 e seria responsável pela conqusita muçulmana de quase todo o litoral da Síria e Palestina, entre 1263 e 1268, e o afastamento dos mongóis dessa região.

Os recentes aliados de Luís IX tinham sido vencidos, e a morte de sua mãe, regente do reino na sua ausência, obriga-o a retornar à França. Deixaria temporariamente para trás a causa da Cruzada, enquanto ocorria uma guerra entre comerciantes genoveses e venezianos nas ruas da cidade de São João de Acre, a Guerra de São Sabas, quando a disputa por mercados orientais se converte numa luta armada.

O rei retornaria para realizar a Oitava e última Cruzada com o apoio de seu irmão Carlos de Anjou, ainda rei das Duas Sicílias, de Jaime I de Aragão e do príncipe Eduardo da Inglaterra. O projeto dessa nova Cruzada era chegar a Túnis, onde o duque de Anjou tinha interesse em conseguir privilégios comerciais e de onde os cruzados atacariam o sultanato mameluco.

Mais uma vez a precipitação e desintegração das forças acaba causando a ruína da expedição. A localização era boa, mas Luís IX antecipa-se aos outros e fica isolado em Túnis à mercê da peste que grassava no cerco. O rei da França morre, juntamente com boa parte de suas forças e, quando seu irmão chega, só resta negociar a retirada do corpo régio e o retorno dos poucos sobreviventes à França.

O rei de Aragão e o herdeiro de Inglaterra desembarcam depois do sucedido na Síria franca apenas a tempo de testemunhar a ruína dos cristãos sob o avanço do sultanato egípcio. Uma a uma, caem, definitivamente, a partir de 1270, as últimas fortalezas dos reinos cruzados, inclusive o Crak, reduto dos cavaleiros hospitalários, até que, em 1291, São João de Acre, o último ponto de resistência cristã, é conquistado pelos muçulmanos.

O "cruzado perfeito" fora vítima da inevitável pressão dos mamelucos sobre os territórios da Terra Santa, num contexto em que as Cruzadas haviam se transformado num movimento anacrônico em meio a um Ocidente em transformação. A riqueza monetária já não era mais um estigma, os interesses comerciais e de banca tornavam-se prioritários, os reis tinham um poder acrescido dentro de seus rienos que logo dariam origem a novos impérios e disputavam entre si a primazia sobre a Cristandade latina, o Papado precisava garantir sua posição tutelar através de outros meios que não a concentração de esforços, já considerados inúteis, de reunir homens e mantê-los numa guerra que se sabia militarmente fadada à derrota.


BALANÇO DO MOVIMENTO DAS CRUZADAS
Voltando ao panorama que permitiu o desenvolvimento das Cruzadas, temos que: a partir do século XI, o crescimento demográfico do Ocidente geraria um esgotamento de recursos, apesar dos avanços tecnológicos; a terra disponível já não era suficiente para alimentar tantas bocas, e os filhos-segundos da nobreza queriam estabelecer-se. Assim, as elites e as camadas populares tinham uma mesma vontade, crescer. Os dirigentes sentiram essa pressão, e ao envolverem-se com as Cruzadas (promovendo-as e/ou participando delas), estariam aplicando uma estratégia de conservação de seu poder - essa era a práxis das Cruzadas. No entanto, devemos lembrar que o ideal de combate pela fé cristã era comum às elites e ao povo, pois esse era um traço marcante da espiritualidade daquele momento e seria o ideal predominante do movimento das Cruzadas.

O ideal de Cruzada, cede, no entanto, especialmente no século XIII, cada vez mais espaço à práxis, aos interesses políticos, estratégicos e comerciais de predomínio cristão nas regiões da Síria e Palestina. Nesse sentido, fica fácil compreender a existência de acordos de ocasião entre cristãos e muçulmanos. Mais que as vitorias militares, efêmeras para os cristãos com interesses na região, os acordos de aliança e paz são o que mantêm vivo o movimento das Cruzadas no Oriente. Além disso, a continuidade desse movimento permite o surgimento de outras experiências políticas e militares conduzidas por normandos, venezianos, franceses e aragoneses, nesse mesmo Mediterrâneo, o que mostra que a Cristandade de então era atravessada por projetos e interesses concorrentes. No entanto, o movimento das Cruzadas dá-lhe certa unidade teórica ao centrar o foco de seu discurso oficial na necessidade de combater os inimigos dessa mesma Cristandade. Sob essa bandeira, os cristãos, divididos entre si, estariam unidos na mesma causa do combate ao "infiel".

As conquistas territoriais foram efêmeras na Terra Santa, mas o movimento equivalente de expansão na Península Ibérica foi perene e gerou realidades políticas que conservariam a característica diversidade cultural fomentada por séculos de convivência com o Al-Andalus. A Escola de Tradutores de Toledo, por exemplo, manteria vivo (possibilitando que chegasse até nós hoje) o pensamento e as obras de muçulmanos como Avicena e Averróis. Seria de lá que Pedro, o Venerável, abade de Cluny, encomendaria a tradução do Alcorão para o latim a fim de conhecer as ideias daqueles a quem combatia. Nessa mesma linha, em pleno século XIII, Ramón Llull, pensador catalão, aprenderia árabe para, à luz da lógica, discutir os princípios religiosos muçulmanos.

Em outros locais também temos exemplos de interação cultural independentemente do combate pelas armas que se assistia. A Corte Trilingue de Palermo é um desses exemplos. A presença dos cruzadso na Síria e Palestina, que levou à absorção por parte dos cristãos latinos de algumas influências locais trazidas posteriormente para o Ocidente, é outro exemplo. (Aliás, o conhecimento mútuo foi um processo que antecedeu e inclusive sobreviveu ao chamado pelas Cruzadas.) A própria convivência de culturas distintas nesses locais geraria elementos comuns novos, com reflexos constatáveis até hoje na arquitetura, literatura e em toda e qualquer manifestação científica, cultural e artística ocidental. Assim, não é incorreto dizer que a troca de influências culturais também faz parte do saldo final do movimento das Cruzadas na Idade Média. No entanto, o fator decisivo que permite a continuidade do movimento durante séculos é a coexistência de momentos e espaços de conflito entre cristãos e muçulmanos com momentos e espaços de convivência pacífica, dentro e fora da Cristandade.

Já em relação a Bizâncio, o saldo de tão desastroso contato entre as culturas latina e grega seria o aprofundamento do fosso que as distanciaria durante séculos.

O Império Bizantino, cada vez mais reduzido territorialmente, ainda lançará um último pedido de socorro ao Ocidente quando os turcos otomanos, islamizados, estiverem às suas portas, expandindo o poderio muçulmano para novas fronteiras. Internamente, não existia mais unidade na Cristandade, e esse é um fator-chave na Queda de Constantinopla de 1453, episódio que formalmente abre a Época Moderna.

Os poderes do Ocidente se reunirão ainda contra o avanço turco, mas apenas para evitar que os turcos prossigam sua caminhada expansionista para os territórios da própria Europa. A luta contra o infiel será, nessa Época Moderna, mais uma bandeira que um ideal num Ocidente onde a diversidade religiosa começa logo a ser uma realidade a se combater internamente. A Reforma Protestante gerará a Contrarreforma, movimento da Igreja, apoiado pelos interesses das monarquias absolutas e do Império Habsburgo, que teriam de construir a unidade política e religiosa com base na penalização e perseguição de protestantes, judeus e muçulmanos.


LEGADOS NO IMAGINÁRIO ATUAL
O conceito de Cruzada ou Guerra Santa fixou-se no imaginário coletivo como uma luta justificável contra aquele que difere, em suas concepções e interesses, dos valores e crenças predominantes num determinado espaço, ou seja, o outro. Hoje ainda ocorre a utilização política desse ideal, convoca-se a Cruzada contra o terrorismo islâmico ou a Jihad contra os inimigos externos.

Em muitos momentos da história reutilizou-se esse discurso cruzadístico para justificar projetos políticos e econômicos, como na época dos Descobrimentos. As nações que partiam para descobrir África, Américas e Ásia utilizavam essa mesma bandeira, a do domínio justificado pela legitimidade da expansão da fé cristã. E esse ideal de Cruzada será levado até esses lugares onde ocorre a colonização europeia, será implantado na cultura desses povos e aos poucos absorvido, tomando feições próprias. Esse é o caminho da perenidade dessa ideia no Ocidente, que chega até os dias atuais.

No entanto, o uso contemporâneo das Cruzadas pouco tem a ver com seu significado medieval: trata-se de uma metáfora política que tenta justificar os interesses de grupos ou potências. As Cruzadas foram fruto de uma realidade medieval e um contexto histórico nunca se repete. O mecanismo de extrair da cultura da Idade Média a ideia de uma Guerra Santa ou Cruzada para que se façam guerras nos dias de hoje nada mais é que uma manipulação que se utiliza do passado histórico para legitimar causas atuais - que, do contrário, teriam talvez menos probabilidades de serem aceitas e abraçadas.


NOTAS
[1] Kamaleddin, História de Alepo, em A. Maalouf, As Cruzadas vistas pelos árabes, São Paulo, Brasiliense, 1989, pp. 94-5.


BIBLIOGRAFIA
Alphandery, P.; Dupront, A. La Chrétienté et l'idée de Croisade. Paris: Albin Michel, 1954, 2v.
Cabrera, E.; Segura, C. Historia de la Edad Media: Bizancio. El Islam. Madrid: Alhambra, 1988.
Costa, Ricardo da. A guerra na Idade Média. Rio de Janeiro: Paratodos, 1998.
Espinoza, Fernanda. Antologia de textos históricos medievais. 3a ed. Lisboa: Sá da Costa, 1981.
Franco Jr., Hilário. As Cruzadas. 3a ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Tudo é História).
Grousset, R. Histoire des Croisades. Paris: Plon, 1934-6, 3v.
Herrera, Héctor; Marín Riveros, José. El Império Bizantino. Santiago: Universidad de Chile, 1998.
Loste, Maria Antonia. Las Cruzadas. Madrid: Anaya, 1990.
Maalouf, A. As Cruzadas vistas pelos árabes. São Paulo: Brasiliense, 1988.
Macedo, José Rivair. Heresia, Cruzada e Inquisição na França medieval. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.
Pedrero-Sánchez, Guadalupe. História da Idade Média. Textos e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000.
____. A Península Ibérica entre o Oriente e o Ocidente: cristãos, muçulmanos e judeus. São Paulo: Atual, 2002. (A vida no tempo).
Pernoud, Régine. Os templários. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. (Coleção Saber).
Rousset, P. História das Cruzadas. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
Runciman, Steven. Historia de las Cruzadas. 3 ed. Madrid: Alianza Editorial, 1983, 3v.


Fonte: História das Guerras, Demétrio Magnoli, Editora Contexto, pág. 99;




Gostaria de dizer algo sobre as Cruzadas na Idade Média?
Nome:

E-Mail:

Comentário:





& PROTESTANTISMO &
Desde 03 de Agosto de 2008