Conversas à Mesa com Lutero (Parte 2) - As Obras de Deus
LXIII
Todas as obras de Deus são inescrutáveis e inexplicáveis. Nenhum sentido humano pode descobri-las. Somente a fé é que pode apreendê-las, sem o poder ou auxílio humanos. Nenhuma criatura mortal pode compreender Deus em sua majestade. Por isso, ele veio a nós de maneira mais simples, foi feito homem, não é mesmo? Pecado, morte e fraqueza.

Em todas as coisas, nas menores criaturas e nos seus membros, brilham claramente o poder supremo e as obras maravilhosas de Deus. Pois qual é o homem, por mais poderoso, sábio e santo, que pode fazer de um figo uma figueira ou um outro figo, ou de um grão de cereja uma cereja ou um pé de cerejas? Qual é o homem que sabe como Deus cria e preserva todas as coisas e faz com que se desenvolvam?

Nem mesmo podemos entender como o olho vê, ou como são simplesmente pronunciadas palavras inteligíveis quando a língua se move e se mexe na boca, tudo coisas naturais, diariamente vistas e praticadas. Como é que, então, seríamos capazes de compreender ou entender os secretos conselhos da majestade de Deus, perscrutá-los com nossos sentidos, razão e entendimento humanos? Deveríamos, então, admirar a nossa própria sabedoria? Eu, de minha parte, me considero um tolo e me mantenho cativo.


LXIV
No princípio, Deus fez Adão com um pouco de argila, e Eva da costela de Adão. Ele os abençoou e disse: "Frutificai e multiplicai-vos" – palavras que ficarão e permanecerão sendo poderosas até o fim do mundo. Embora muitas pessoas morram diariamente, outras, porém, sempre são geradas, conforme diz Davi no Salmo: "Tu permites aos homens que morram e passem como uma sombra, dizes, tornai-vos novamente, vós filhos dos homens." Essas e outras coisas que ele cria diariamente, o mundo pagão cego não vê nem reconhece como maravilhas de Deus, mas pensa que tudo é feito pela sorte ou o acaso. Os crentes, porém, sempre que erguem os seus olhos contemplando os céus e a terra, o ar e a água, vêem e reconhecem todas as maravilhas de Deus e, cheios de admiração e prazer, louvam ao Criador, sabendo que o Senhor se agrada disso.


LXV
Para os filhos cegos do mundo, os artigos de fé são muito elevados. Que três Pessoas são um único Deus, que o verdadeiro Filho de Deus foi feito homem, que há duas naturezas em Cristo, divina e humana, etc, tudo isso os ofende como sendo ficção e fábula. Pois assim como é inverossímil dizer que um homem e uma pedra são uma só pessoa, assim também é inverossímil para o sentido e a razão humanos [dizer] que Deus foi feito homem, ou que as naturezas divina e humana unidas, em Cristo, são uma só pessoa. São Paulo demonstrou a sua compreensão desse assunto, mesmo não apreendendo tudo, em Colossenses: "Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade" [Cl 2.9]. Igualmente: "Nele estão ocultos todo o tesouro da sabedoria e do conhecimento" [Cl 2.3].


LXVI
Se alguém perguntar por que Deus permite que as pessoas sejam endurecidas e caiam na perdição eterna, deixe-o perguntar ainda: Por que Deus não poupou o seu único Filho, mas o entregou por todos nós, para morrer a ignominiosa morte de cruz, o sinal mais certo do seu amor para conosco, pobre povo, do que da sua ira contra nós. Perguntas desse tipo não podem ser melhor solucionadas e respondidas do que por questões inversas. Realmente, o malicioso diabo enganou e seduziu Adão. Contudo, devemos considerar que, logo após a queda, Adão recebeu a promessa da semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente e abençoaria a todas as pessoas sobre a terra. Portanto, precisamos reconhecer que a bondade e a misericórdia do Pai, que enviou o seu Filho para ser nosso Salvador, é imensurávelmente grande para o mundo mau e ingovernável. Deixa, por isso, ó homem, que a sua boa vontade te seja aceitável, e não especula com tuas dúvidas diabólicas, teus por quês e para quês tocando as palavras e obras de Deus. Pois Deus, Criador de todas as criaturas, e que ordena todas as coisas segundo a sua inescrutável vontade e sabedoria, não se agrada desses questionamentos.

Por que Deus, por vezes, segundo os seus divinos conselhos, maravilhosamente sábios, inalcançáveis para a razão e entendimento humanos, tem misericórdia desse homem e endurece aquele, isso não nos convém inquirir. Deveríamos saber, indubitavelmente, que ele não faz nada sem uma certa causa e conselho. Realmente, se Deus tivesse que prestar contas de cada uma de suas obras e ações, ele seria apenas um Deus pobre e simples.

Nosso Salvador disse a Pedro: "O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois." [Jo 13.7]. Depois, então, saberemos quão graciosamente nos atingiu o nosso Deus e Pai. Entrementes, embora venham sobre nós desgraça, miséria e sofrimento, devemos ter essa confiança segura nele, que ele não nos afligirá para serem destruídos nem o nosso corpo, nem a nossa alma, mas lidará conosco de forma tal que todas as coisas, sejam boas ou más, resultarão em nosso benefício.


LXVII
Se alguém perguntar onde estava Deus antes da criação dos céus, temos a resposta de S. Agostinho. Segundo ele, Deus estava nele mesmo. Quando mais alguém me pergunta a mesma coisa, eu digo-lhe o seguinte: Deus estava preparando o inferno para tais espíritos tolos, presunçosos, alvoroçados e inquisidores como você. Após haver criado todas as coisas, ele estava em todo lugar e, ao mesmo tempo, em nenhum lugar, pois não posso apreendê-lo sem a Palavra. Não obstante, ele será encontrado ali aonde ele se comprometeu estar. Os judeus o encontravam em Jerusalém mediante o trono da graça (Êxodo 25). Nós o encontramos na Palavra e na fé, no batismo e nos sacramentos. Em sua majestade, porém, Deus não pode ser achado em lugar algum.

Consistia-se numa graça especial quando Deus se prendia a si mesmo num certo lugar onde seria encontrado, notadamente, naquele lugar onde estava o tabernáculo, para o qual eles se voltavam e oravam, primeiro em Silo e Siquém, depois em Gibeon e, finalmente, no templo de Jerusalém.

Os gregos e pagãos imitavam essa prática em todas as épocas, e edificavam templos aos seus ídolos em certos locais. Em Éfeso, para Diana, em Delfos, para Apolo, e assim por diante. Pois, ali onde Deus edifica uma igreja, lá o diabo também edificaria uma capela. Eles imitavam os judeus também nisso, a saber, assim como o Santo Lugar era escuro, assim também da mesma maneira eles deixavam escuros os seus santuários onde o diabo respondia. Logo, o diabo é sempre um imitador de Deus.


LXVIII
Deus é justo, fiel e verdadeiro. Ele revelou isso em suas promessas de perdão dos pecados e resgate da morte eterna por intermédio de Cristo. Mas, também, pelo fato dele nos haver deixado nas Escrituras muitos exemplos graciosos e confortadores de santos importantes e consagrados, imensamente iluminados e favorecidos por Deus que, apesar disso tudo, caíram em grandes e tristes pecados.

Adão, por sua desobediência, trouxe hereditariamente o pecado e a morte sobre toda a sua posteridade. Arão trouxe um grande pecado sobre Israel, a tal ponto que Deus teria destruído o povo. Davi também caiu de uma forma muito triste. Jó e Jeremias amaldiçoaram o dia em que nasceram. Jonas ficou dolorosamente contrariado porque Nínive não foi destruída. Pedro negou, Paulo perseguiu a Cristo.

As Sagradas Escrituras nos relatam esses e inúmeros outros exemplos semelhantes não a fim de que vivamos seguros e pequenos, descansando sob a graça de Deus. Esses exemplos são para que ao sentirmos a sua ira, "que certamente vem após os pecados", não caiamos em desespero. Antes, ao nos lembrarmos desses exemplos confortadores cheguemos à conclusão que se Deus foi misericordioso para com eles, também será, do mesmo modo, gracioso para conosco por causa da sua bondade e misericórdia reveladas em Cristo e não nos imputará os nossos pecados.

Podemos observar também por meio desses exemplos de grandes homens caindo tão gravemente, quão mau, astuto e invejoso espírito é o diabo. Ele é um verdadeiro príncipe e bem mundano.

Essas pessoas elevadas, divinas, que cometeram pecados tão pesados caíram segundo o conselho e permissão de Deus, a fim de que não se orgulhassem ou gabassem de seus dons e qualidades, porém, temessem. Pois, quando Davi assassinou Urias, tomou para si a mulher dele e, com isso, deu motivo para que os inimigos blasfemassem a Deus, ele não poderia se gabar de haver governado bem, ou demonstrado bondade. Antes, ele disse: "Pequei contra o Senhor" [2 Samuel 12.13], e com lágrimas clamou por misericórdia. Jó, da mesma forma, reconhecidamente diz: "Eu falei como um tolo, e por isso me culpo e me arrependo" [cf.: Jó 42.3-6].


LXIX
Quando Deus contempla alguma grande obra, ele a começa pela mão de alguma criatura humana pobre e fraca, a quem ele depois auxilia, para que os inimigos que a pretendem obstruir sejam vencidos. Exemplo disso foi quando Deus libertou os filhos de Israel do longo, fatigante e pesado cativeiro no Egito, conduzindo-os à terra prometida. Para isso, chamou Moisés e lhe deu o seu irmão Arão como seu assistente. Embora Faraó primeiro se endureceu contra eles, e oprimiu o povo muito mais do que antes disso, no fim ele se viu obrigado a liberar Israel. Quando, a seguir, ele os caçou com todo o seu exército, o Senhor afogou Faraó com todo o seu poderio no Mar Vermelho libertando, desse modo, o seu povo.

Da mesma forma, na época do sacerdote Eli, os negócios estavam muito maus em Israel. Os filisteus os pressionavam, roubando de sua terra a arca de Deus. Eli, em profunda tristeza no coração, caiu para trás da sua cadeira quebrando o pescoço. Parecia que Israel fora totalmente vencido. No entanto, Deus fez surgir o profeta Samuel e, por meio dele, restaurou Israel, e os filisteus foram derrotados.

Mais tarde, quando Saul foi dolorosamente oprimido pelos Filisteus, de modo que para angústia do coração desesperou-se e se suicidou, morrendo com ele três dos seus filhos e muitas outras pessoas, todos pensavam que seria o fim de Israel. Contudo, logo depois, quando Davi foi escolhido para ser o rei de todo o Israel, então chegou a idade áurea [para o povo]. Pois Davi, o escolhido de Deus, não apenas salvou Israel das mãos dos inimigos. Ele também subjugou todos os reis e povos que se lançaram contra ele, e soergueu novamente o reino de tal maneira que na sua época e na de Salomão estava em pleno desenvolvimento, poder e glória.

Quando Judá foi levado cativo para Babilônia, então Deus escolheu os profetas Ezequiel, Ageu e Zacarias que confortaram as pessoas em seus sofrimentos e cativeiro. Eles não apenas apregoaram a promessa do seu retorno para a terra de Judá, mas também que Cristo viria no tempo certo.

Portanto, podemos notar que Deus nunca esquece do seu povo, nem mesmo o fraco, ainda que, por causa dos seus pecados, ele o suporte por um longo tempo a fim de ser severamente punido e flagelado. Assim como, também em nossa época, ele nos libertou graciosamente do longo, incômodo, pesado e horrível cativeiro do malvado papa. Deus, por sua misericórdia, conceda que possamos reconhecer isto com gratidão.


LXX
Deus poderia ser muito mais "rico", se ele fosse mais cauteloso e nos tivesse proibido o uso da sua criação. Se ele sempre retesse um pouquinho o sol, de modo que não brilhe, ou prendesse o ar, a água, o fogo! Ah! Quão voluntariamente daríamos toda a nossa riqueza para termos novamente o direito ao uso dessas criaturas.

Todavia, observando que Deus tão generosamente acumula os seus dons sobre nós, acabamos reivindicando-os como direito. Que ele os impeça se assim o desejar. A indescritível multidão de seus benefícios obscurece a fé nos cristãos, e muito mais ainda nos pagãos.


LXXI
Quando Deus quer punir um povo ou um reino, ele lhes tira os bons e piedosos professores e pregadores, e os priva de administradores e conselheiros sábios, piedosos e honestos, bem como de soldados bravos, íntegros e experientes, além de outros bons homens. Então, as pessoas simples ficam seguras e felizes. Elas continuam na obstinação, não sentindo mais carência da verdade e da doutrina divina. Pelo contrário, elas as desprezam e se tornam cegas, sem temor nem honestidade. Acabam cedendo a todos os tipos de pecados vergonhosos, de modo que surge um tipo de vida selvagem, dissoluta e maligna, assim como essa que vemos agora e conhecemos muito bem, e que não podemos suportar por muito tempo. Eu sinto que o machado está posto à raiz da árvore para que a corte logo [Mt 3.10; 7.18-19]. Que Deus, por sua infinita misericórdia nos leve graciosamente, para que não estejamos presente diante de tais calamidades.


LXXII
Deus nos dá o sol, a lua e as estrelas, fogo e água, ar e terra, todas as criaturas. Também nos dá o corpo e a mente, todos os tipos de sustento: frutas, sementes, trigo, vinho, tudo o que é bom para a preservação e o conforto da vida terrena. Além disso, ele nos dá a sua Palavra salvadora. Ele se dá a si mesmo.

Agora, o que é que ele ganha por tudo isso? Na verdade, nada; antes, porém, é maldosamente blasfemado e seu Filho unigênito é condenado e crucificado, seus servos afligidos, perseguidos e mortos. O mundo é um filho pagão; ai dele!


LXXIII
Deus confia mui maravilhosamente o seu ofício mais sublime a pregadores que são, em si mesmos, pobres pecadores que, enquanto o pregam, mui fragilmente o praticam. Assim acontece sempre com o poder de Deus em nossa fraqueza; pois quando ele é enfraquecido em nós, então ele é mais forte.


LXXIV
Como Deus deveria tratar conosco? Bons dias, não conseguimos tolerar; os maus, não podemos suportar. Se Ele nos dá riquezas, nos tornamos arrogantes, de modo que, por nós, ninguém pode viver em paz. Não, nós queremos ser levados sobre cabeças e ombros e ser adorados como deuses. Se Ele nos dá pobreza, então ficamos desanimados, impacientes e murmuramos contra ele. Por isso, nada melhor para nós do que sermos imediatamente cobertos com a pá [i.e., enterrados].


LXXV
Alguém disse o seguinte: "Visto Deus saber que o homem não permaneceria em seu estado de inocência, por que, afinal, o criou?" O Dr. Lutero respondeu rindo: O Senhor, todo-poderoso e magnificente, viu que ele poderia precisar ter em sua casa costureiros e fossas. Estejas certo de que ele sabe muito bem do que é capaz. Tenhamos cuidado com essas questões abstratas e consideremos a vontade de Deus assim como ela nos foi revelada.


LXXVI
O Dr. Henning perguntou: "Será que a razão não exerce nenhuma autoridade junto aos cristãos, posto que ela deve ser desconsiderada em assuntos de fé?" O Dr. [Lutero] respondeu: Sem a fé e o conhecimento de Deus, a razão é obscura. Contudo, nas mãos dos que crêem, é um instrumento excelente. Todas as facilidades e dons são perniciosos quando exercidos pelos ímpios, mas muito salutares quando possuídos por pessoas piedosas.


LXXVII
Deus lida de modo estranho com os seus santos, contrário a toda a sabedoria e entendimento humanos, a fim de que os que temem a Deus e são cristãos, aprendam a depender de coisas invisíveis, e pela mortificação possam ser novamente vivificados; pois a Palavra de Deus é a luz que brilha num lugar escuro [2Pe 1.19], conforme o revelam todos os exemplos de fé. Esaú foi amaldiçoado, no entanto, foi tudo bem com ele; ele foi senhor no país e sacerdote na igreja; no entanto, Jacó teve de fugir, e viveu na pobreza, noutro país.

Deus age muito mais com os cristãos piedosos do que com os ímpios e, por vezes, de forma muito pior. Ele lida com eles até mesmo como um pai doméstico faz com um filho e um empregado. Ele açoita e bate com muito mais intensidade e freqüência no filho do que no doméstico. Contudo, ele ajunta um tesouro para o filho herdar, enquanto num doméstico obstinado e desobediente ele não bate com a vara, mas empurra portas afora e não lhe dá nada da herança.


LXXVIII
Deus é um Senhor bom e gracioso. Ele quer ser considerado o único Deus, conforme o primeiro mandamento: "não terás outros deuses diante de mim." Ele não quer nada de nós, quaisquer taxas, subsídios, dinheiro ou bens. Ele quer apenas ser nosso Deus e Pai, então ele nos concede ricamente, com uma taça transbordante, todos os tipos de dons espirituais e temporais. Contudo, nós não o levamos tanto em consideração, nem queremos tê-lo como nosso Deus.


LXXIX
Deus não é um Deus irado. Se ele o fosse, estaríamos todos completamente perdidos e destruídos. Ele não fere a humanidade voluntariamente, exceto, enquanto Deus justo, ele se veja obrigado a fazê-lo. Todavia, não tendo nenhum prazer na injustiça e na incredulidade, ele precisa, por isso, permitir que a punição tenha livre curso. Assim como, por vezes, olho através dos dedos, quando o tutor açoita o meu filho João, assim ocorre com Deus. Quando somos ingratos e desobedientes à sua Palavra e mandamentos, ele nos faz sofrer pelo diabo para sermos ruidosamente chicoteados com pestilência, fome e açoites semelhantes a esses. Isso não significa que Deus queira ser nosso inimigo e nos destruir. Antes, por meio de tais flagelos ele quer nos chamar ao arrependimento e mudança, e com isso nos impelir a buscá-lo, a correr para ele e clamar por seu auxílio. Temos um belo exemplo disso no livro dos Juízes onde o anjo, na pessoa de Deus, nos diz: "Eu vos golpeei seguidamente e vós não melhorastes", e o povo de Israel disse: "Salva-nos agora; pecamos e fizemos o que é mau: castiga-nos, ó Senhor, e faze conosco o que quiseres, tão somente, salva-nos," etc. Nisso ele não afligiu o povo todo para a morte. De maneira semelhante fez Davi, quando pecou (ao levantar o censo, pelo que Deus puniu o povo com pestilência, de modo que morreram 70.000 pessoas), então humilhou-se e disse: "Eu é que pequei, eu é que procedi perversamente; porém estas ovelhas que fizeram? Seja, pois, a tua mão contra mim e contra a casa de meu pai." [2Sm 24.17]. Então "arrependeu-se o SENHOR do mal e disse ao Anjo que fazia a destruição entre o povo: Basta, retira a mão." [2Sm 24.16].

Aquele que consegue se humilhar sinceramente diante de Deus em Cristo, esse já venceu. De outro modo, o Senhor Deus perderia a sua divindade, cuja obra própria consiste em ter misericórdia do pobre e aflito, e poupá-los para que se humilhem diante dele. Se não fosse assim, nenhuma criatura humana se aproximaria dele ou o invocaria; nenhum homem seria ouvido ou salvo, nem lhe daria graças: "pois no inferno ninguém te louvará", diz o Salmo. O diabo pode assustar, matar e roubar; Deus, porém, reaviva e conforta.

Essa pequena palavra: "Deus", é, na Escritura, uma palavra com vários significados, e seguidamente é entendida como algo a partir da natureza da sua ação e essência: como o diabo sendo chamado deus; a saber, um deus do pecado, da morte, do desespero e da maldição.

Devemos fazer diferenciação correta entre esse deus e o justo e verdadeiro Deus, que é Deus da vida, conforto, salvação, justificação e de toda a bondade; pois há muitas palavras que não levam quaisquer significados exatos, e o equivoco é sempre a mãe do erro.


LXXX
Os pagãos e perversos usufruem a maior parte das criaturas de Deus: os tiranos têm o maior poder, terras e povo; os agiotas, o dinheiro; os agricultores, ovos, manteiga, trigo, cevada, aveia, maçãs, pêras, etc. Enquanto isso, os cristãos precisam sofrer, serem perseguidos, sentar no calabouço, onde não podem ver o sol ou a lua, serem lançados na miséria, banidos, afligidos, etc. No entanto, um dia desses as coisas vão melhorar. Elas não podem continuar assim para sempre. Tenhamos paciência, e permaneçamos firmes por meio da doutrina pura, não nos afastando dela, apesar de toda essa miséria.


LXXXI
Nosso Senhor Deus e o diabo têm duas formas de política que não concordam entre si, sendo completamente opostas uma à outra. Primeiro Deus nos aflige, depois nos levanta e conforta a fim de que a carne e o velho homem sejam mortos e vivam o espírito e o novo homem. Enquanto isso, o diabo, primeiro torna as pessoas seguras e ousadas para que, sem nenhum temor, cometam pecados e maldades e não apenas permaneçam no pecado, mas encontrem gozo e prazer nele, pensando que fizeram tudo certo. No final, porém, quando vem o sr. Estica-pernas, então ele os assusta e apavora sem medida para que morram de desgosto imenso ou, finalmente, são abandonados sem nenhum consolo e desesperam da graça e misericórdia de Deus.


LXXXII
Somente Deus, e não o dinheiro, mantém o mundo. As riquezas apenas tornam as pessoas arrogantes e preguiçosas. Em Venice, onde se encontram os ricos, sobreveio-lhes uma horrível mortandade, em nossos dias [i.e., de Lutero], de modo que se viram impelidos a apelar por ajuda junto aos turcos, que enviaram vinte e quatro galés carregadas de trigo – todas elas afundadas bem próximas ao porto, diante de seus olhos. Grande riqueza e dinheiro não conseguem parar a fome, antes, causam mortandade ainda maior. Pois, onde estão os ricos, ali as coisas sempre são valiosas. Além disso, o dinheiro não deixa ninguém satisfeito, muito ao contrário, deixa a pessoa melancólica e cheia de desgosto. Pois, as riquezas, diz Cristo, são espinhos que picam as pessoas. Contudo, o mundo é tão louco a ponto de pôr nisso toda a sua alegria e felicidade.


LXXXIII
Não há aborrecimento maior do que quando Deus silencia e não fala conosco, antes, nos permite prosseguirmos em nossas obras pecaminosas fazendo todas as coisas segundo as nossas paixões e prazeres, conforme tem sido com os judeus pelos últimos mil e quinhentos anos.

Oh! Deus, pune, te pedimos, com pestilência e fome, e com o mal e a doença que ainda possam existir sobre a terra; porém, não fiques em silêncio em relação a nós, Senhor. Deus disse aos judeus: "Eu estendi a minha mão, e clamei, vinde para cá e ouvi", etc. "Mas vós dissestes: não queremos ouvir". [N. do T.: veja Pv 1.24: "Mas, porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse"].

De maneira semelhante nós agimos agora. Estamos enfadados da Palavra de Deus. Não queremos pregadores e mestres justos, bons e piedosos que nos ameaçam, nos trazem a Palavra de Deus pura e sem falsificação, condenam a doutrina falsa e verdadeiramente nos advertem. Não, esses nós não podemos suportar. Não queremos ouvi-los, não, antes os perseguimos e os banimos. Por isso, Deus também nos punirá. Assim acontece com filhos perdidos e maus que não querem ouvir seus pais nem ser-lhes obedientes. Depois, eles também serão rejeitados por eles.


LXXXIV
Nada desagrada mais ao Onipotente Deus, do que quando defendemos e cronometramos os nossos pecados, não querendo reconhecer que fizemos o mal assim como o fez Saul. Pois, os pecados não reconhecidos são contra a primeira tábua dos Dez Mandamentos. Saul pecou contra a primeira tábua; Davi, contra a segunda. Os são pecadores contra a segunda tábua aqueles que observam o sermão sobre o arrependimento, sentem-se ameaçados e reprovados, reconhecem os seus pecados e melhoram a si mesmos. Aqueles que pecam contra a primeira tábua, como os idólatras, incrédulos, acusadores e blasfemadores de Deus, falsificadores da Palavra de Deus, etc., atribuem-se sabedoria e poder. Eles serão sábios e poderosos, duas qualidades que Deus reserva para si mesmo como peculiarmente suas.


LXXXV
É indescritível quão incrédulo e mau é o mundo. Facilmente podemos percebê-lo a partir do fato que Deus não apenas impôs punições para desenvolver os seus súditos, mas também nomeou muitos executores e carrascos para puni-los, como espíritos maus, tiranos, filhos desobedientes, patifes, mulheres pervertidas, bestas selvagens, vermes, doenças, etc. Agora, tudo isso não consegue fazer com que nos dobremos ou encurvemos.

Seria melhor se Deus ficasse irado conosco, do que nós com ele, pois ele pode logo estar novamente em união conosco, visto que ele é misericordioso. Todavia, se nós ficamos irados com ele, então o caso não tem solução.


LXXXVI
Deus poderia ser sumamente rico em fortuna temporal, se assim o desejasse, mas ele não o quer. Se apenas ele viesse ao papa, ao imperador, a um rei, um príncipe, um rico mercador, um cidadão, um fazendeiro, e dissesse: "a menos que me dês cem mil coroas, morrerás imediatamente", cada um diria: "eu o darei de todo o meu coração, desde que eu possa viver." Contudo, somos tão ingratos e desleixados ao ponto de não lhe darmos ao menos um Deo gratias, embora recebamos dele, em rica medida, tão grandes benefícios, unicamente por sua bondade e misericórdia. Isso não é uma vergonha? No entanto, apesar de tanta ingratidão, o nosso Senhor Deus e misericordioso Pai não se importa de ser espantado, mas continuamente nos mostra toda sorte de benevolência. Se em seus dons e benefícios ele fosse mais econômico e mão fechada, aprenderíamos a ser agradecidos. Se ele fizesse cada criatura humana nascer com apenas uma perna ou pé, e sete anos após lhe desse outros, ou no décimo quarto ano lhe desse uma mão e, posteriormente, no trigésimo ano a outra, então reconheceríamos melhor os dons e benefícios de Deus e os valorizaríamos muito mais e lhe seríamos gratos. Ele nos deu todo um oceano cheio da sua Palavra, todos os tipos de línguas e artes liberais. Compramos, atualmente, a baixo custo, todo tipo de bons livros. Ele nos dá pessoas instruídas, que ensinam bem e com regularidade. De modo que um jovem, se não for completamente ignorante, pode, agora, aprender mais num ano, do que antes acontecia durante vários anos. As artes são, agora, tão baratas, que eles quase saem a pedir pão. Malditos sejamos por sermos tão preguiçosos, desleixados e ingratos.


LXXXVII
Não somos dignos de nada com nossos dons e qualidades, por maiores que sejam, a menos que Deus ponha sua mão continuamente sobre nós. Se ele nos esquecer, então nossa sabedoria, arte, sentido e compreensão são fiteis. Se ele não os ajudar seguidamente, então nosso maior conhecimento e experiência sobre a divindade, ou seja o que for que obtenhamos, de nada servirão. Pois, quando chegam a hora da tentação e prova, seremos despachado num instante. Então, o diabo, sabedor de sua força e sutileza, [agirá] roubando-nos até mesmo aqueles textos da Escritura Sagrada pelos quais poderíamos nos confortar, e pondo diante de nossos olhos, em lugar deles, somente sentenças de ameaças terríveis.

Por conseguinte, que ninguém se gabe e se jacte de forma arrogante por sua própria justiça, sabedoria ou outros dons e qualidades, mas se humilhe e ore com os santos apóstolos e diga: "Oh! Senhor! Fortalece aumenta-nos a fé" [veja Lc 17.5].


LXXXVIII
Quanto maiores os dons e obras de Deus, tanto menos são considerados. O maior e mais precioso tesouro que recebemos de Deus é podermos falar, ouvir, ver, etc. No entanto, quão poucos reconhecem isso como dons especiais de Deus, e ainda menos pessoas dão graças a Deus por eles. O mundo valoriza muito as riquezas, honra, poder e outras coisas de menor valor, que cedo passam. Um cego, porém, em seu reto juízo, prontamente os trocaria pela visão. A razão porque os dons corporais de Deus são tão desvalorizados é que eles são tão comuns que Deus os concede também às brutas bestas, que assim como nós, e melhor ainda, ouvem e vêem. Quando Cristo fez os cegos verem, expeliu demônios, ressuscitou mortos, etc., ele foi censurado pelos incrédulos hipócritas, que se entregavam a si mesmos pelo povo de Deus, e foi-lhe dito que ele era um samaritano endemoninhado. Ah! O mundo é do diabo, quer ele siga em frente ou pare. Como, então, as pessoas podem reconhecer os dons e os benefícios de Deus? Isso diz respeito a nós e a nossos filhos, que não valorizam tanto o seu pão diário, como uma maçã, uma pêra e outras bagatelas. Olhe para o gado indo aos pastos no campo, e veja nele nossos pregadores, nossos transportadores de leite, manteiga, queijo e lã que diariamente nos proclamam a fé em Deus, e que devemos confiar nele como nosso Pai amoroso que cuida de nós e nos manterá nutridos.


LXXXIX
Ninguém consegue imaginar que grande fardo é [para] Deus apenas manter pássaros e tais criaturas, comparativamente sem valor. Estou convencido que lhe custa, anualmente, muito mais manter apenas os pardais, do que a soma dos rendimentos do rei da França. Que diremos, então, de todas as suas demais criaturas?


XC
Deus se compraz em nossas tentações, mas também as odeia. Ele se compraz nelas quando essas nos levam a orar. Ele as odeia, quando elas nos levam ao desespero. O Salmo diz: "Um coração humilde e contrito é um sacrifício agradável a Deus", etc. [veja Sl 51.17]. Portanto, quando a coisa vai bem com você, cante e louve a Deus com um hino. Se a coisa vai mal, isto é, veio a tentação, então ore: "Pois o Senhor se agrada daqueles que o temem", e o que segue é ainda melhor: "e naqueles que esperam na sua bondade",[veja Sl 33.18; 147.11] pois o Senhor ajuda o submisso e humilde, visto que ele diz: "Pensas que a minha mão está encolhida para que eu não possa auxiliar?".[veja Is 59.1] Aquele que se julga fraco na fé, que tenha sempre o desejo de ser forte nela, porque isso é um alimento que Deus gosta em nós.


XCI
Neste mundo, Deus tem apenas a décima parte das pessoas. Somente o menor número será salvo. O mundo é excessivamente incrédulo e mau. Quem acreditaria que o nosso povo seria tão ingrato contra o evangelho?


XCII
É admirável como Deus colocou tão excelente medicamento em mero estrume. Sabemos por experiência que o esterco de porco estanca o sangue. O de cavalo serve para a pleurisia, o humano para úlceras e manchas escuras; o de burro é utilizado para o fluxo de sangue, o de vaca com rosas em conserva é usado para epilepsia ou para convulsões infantis.


XCIII
Deus é visto como se ele tivesse agido imprudentemente ao ordenar que o mundo seja governado pela Palavra da Verdade, especialmente por ele a ter vestido e coberto com uma pobre, fraca e condenada Palavra da cruz. Pois o mundo não quer ter a verdade, mas mentiras: nem fazem eles voluntariamente algo que é correto e bom, a menos que sejam compelidos por grande força. O mundo tem aversão à cruz, e seguirá antes os prazeres do diabo, e ter dias agradáveis, do que tomar a cruz de nosso louvado Salvador Cristo Jesus. Aquele que melhor governa o mundo, como o mais digno dele, é Satanás, por meio de seu lugar-tenente, o papa. Ele pode agradar bem ao mundo, e sabe como fazê-lo dar-lhe ouvidos, pois o seu reino tem uma enorme exposição e reputação que é aceitável ao mundo e o beneficia. Tal e qual.


XCIV
Pitágoras, o filósofo pagão, disse que o movimento das estrelas cria uma harmonia muito suave e concórdia celestial; mas que as pessoas, por meio de hábitos contínuos, tornaram-se fartas disso. Assim também ocorre conosco: nós temos excelentes belas criaturas para nosso uso, contudo, pelo fato de serem tão comuns, não as consideramos.


XCV
Uma proporção bem pequena da terra produz trigo, e no entanto, somos todos mantidos e alimentados. Eu realmente acredito que não crescem tantos feixes de trigo como aumentam as pessoas no mundo, no entanto, estamos todos nutridos. E ainda fica uma boa sobra de trigo ao findar o ano. Isso é algo maravilhoso que nos deveria fazer ver e perceber a bênção de Deus.


XCVI
A causa aparente porquê Deus lançou uma sentença tão aguda sobre Adão era que ele comeu da árvore proibida e foi desobediente a Deus. Por conseguinte, por sua culpa, a terra foi amaldiçoada e a humanidade foi sujeita a todo tipo de misérias, temores, privações, enfermidade, pragas e morte. A razão do sábio mundano, considerando apenas o comer da maçã, considera que por uma coisa tão fútil e trivial o procedimento sobre Adão foi muito cruel e duro, e toma rapé no nariz, e diz, ou pelo menos pensa: "Oh, será que é um assunto tão atroz e pecado alguém comer uma maçã?" As pessoas dizem a respeito de vários pecados que Deus expressamente proibiu em sua Palavra, tal como a embriaguez, etc.: "Que mal existe no fato de alguém estar feliz e tomar um copo com bons companheiros?" – concluindo segundo a sua cegueira, que Deus é muito duro e punitivo.

Ainda, esses mundanos estão ofendidos porque Cristo, conforme imaginam, rejeita pessoas boas, honestas e santas. Se ofendem porque ele não as conhecerá, é áspero com elas, as afasta de si e as chama de malfeitores; mesmo que alguns, em seu nome, tenham profetizado, expelido demônios, feito milagres, etc. Enquanto isso, por outro lado, ele recebe pecadores notórios, como prostitutas, ladrões, publicanos, assassinos. Esses, se ouvirem a sua Palavra e crerem em Cristo, ele os perdoa, mesmo que os seus pecados sejam tão grandes e numerosos. Ele os torna justos e santos, filhos de Deus e herdeiros da vida e salvação eterna, por pura graça e misericórdia, sem quaisquer de seus méritos, boas obras e virtudes. Isso, eles consideram totalmente injusto.

Quem pode, aqui, ser um árbitro, sendo as duas coisas tão contrárias uma à outra como fogo e água? Nisto a sabedoria humana, seu sentido, razão, entendimento é tornada louca. A Escritura diz: "se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus." [Mt 18.3] Aqueles que investigarem essas coisas com inteligência e sabedoria humanas, entregam-se a uma tarefa bem fútil e à inquietação. Esses nunca aprenderão como Deus lhes é favorável. Também nesses que tão futilmente se angustiam se são predestinados ou eleitos, surge um fogo no coração, o qual não conseguem apagar. De modo que as suas consciências nunca estão em paz, mas no fim acabam em desespero. Portanto, aquele que quiser evitar esse mal permanente deve apegar-se à Palavra, onde descobrirá que nosso Deus gracioso lançou um fundamento seguro e firme, no qual podemos pisar com certeza – notadamente, Jesus Cristo, nosso Senhor por meio de quem, unicamente, podemos entrar no reino dos céus. Pois ele, e nenhum outro, é "o caminho, a verdade e a vida" [Jo 14.6].

Não podemos compreender melhor as pesadas tentações dessa predestinação eterna, que aterroriza muitas pessoas, do que pelas chagas do nosso Salvador, Cristo Jesus. A respeito dele, o Pai nos ordenou dizendo: "A ele ouvi" [Mt 17.5]. Mas os sábios do mundo, os poderosos, os instruídos, os grandes de maneira alguma prestam atenção a essas coisas, de modo que Deus permanece-lhes desconhecido, apesar de terem muito estudo e discutirem e falarem muito sobre Deus; pois a conclusão é pequena. Sem Cristo, Deus não será achado, conhecido ou compreendido.

Se agora você quiser saber porque tão poucos são salvos, e um número infinitamente maior é condenado, a causa é essa: o mundo não quer ouvir Cristo. Não se preocupam em nada por ele. Condenam aquilo que o Pai testifica a seu respeito: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo."

Enquanto isso, todas as pessoas que buscam e laboram para chegar a Deus, por meio de quaisquer outros meios que não unicamente por meio de Cristo (judeus, turcos, papistas, falsos santos, hereges, etc.), andam em horrível escuridão e erro. E nada lhes aproveita o fato de levarem um tipo de vida honesta e sóbria, de se dedicarem a grande devoção, sofrerem muito, amarem e honrarem Deus, conforme se jactam, etc. Pois, visto que eles não quererem ouvir Cristo, ou crer nele (sem o qual ninguém conhece deus, ninguém obtém o perdão dos pecados, ninguém vem ao Pai), eles permanecem sempre em dúvida e incredulidade, não sabem como se encontram em relação com Deus e, finalmente, devem morrer e se perder em seus pecados. Pois, "quem não honra o Filho, não honra o Pai (1Jo 2). "Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus." [Jo 3.36]


XCVII
Seguidamente é perguntado: por que pobres diabos têm dias tão bons, e vivem um longo tempo em regozijo e prazer, segundo o desejo de seu coração, com corpo são, filhos educados, etc., enquanto Deus permite aos fiéis permanecerem na calamidade, em perigo, angústia e privação por toda a sua vida? E por que ele permite que alguns morram também na miséria, como S. João Batista, que foi o maior dentre os santos na terra? Isso, sem falar de nosso único Salvador Jesus Cristo!

Os profetas todos escreveram muito a respeito disso, e mostraram como os cristãos teriam de passar por tais dúvidas e consolar-se nelas. Jeremias disse: "Por que prospera o caminho dos perversos, e vivem em paz todos os que procedem perfidamente?" [Jr 12.1] Mais adiante, porém, ele diz: "Tu os deixaste em liberdade, como ovelhas que serão mortas, e os preparaste para os dias da matança."[Jr 12.3] [N. do T.: ARA tem o seguinte texto: "Arranca-os como as ovelhas para o matadouro e destina-os para o dia da matança."]. Leia também os Salmos 37; 49 e 73.

Deus, portanto, não está irado com os seus filhos, embora os discipline e puna. Contudo, ele está irado com os incrédulos que não reconhecem Cristo como sendo o Filho de Deus e Salvador do mundo, mas blasfemam e condenam a Palavra. Esses não poderão esperar nenhuma graça e ajuda dele. E, realmente, ele mesmo não castiga nem bate em seu pequeno povo que depende de Cristo, mas permite que sejam corrigidos e punidos quando se tornam seguros e ingratos pelas suas indescritíveis graças e benefícios a eles revelados em Cristo, sendo desobedientes à sua Palavra. Então, Deus permite que o diabo machuque nossos calcanhares e nos envie pestilência e outras pragas. Também permite que tiranos nos persigam, e isso para o nosso bem, para que por esse modo sejamos movidos e, de certa forma, forçados a nos voltarmos para ele, invocá-lo e buscar auxílio e consolo dele, por meio de Cristo.


XCVIII
"Deus é Deus de vivos, e não de mortos" [Mt 22.32]. Esse texto revela a ressurreição. Pois se não houvesse nenhuma esperança da ressurreição, ou de outro mundo melhor, após essa curta e miserável vida, como poderia Deus oferecer-se para ser o nosso Deus, e dizer que ele quer nos dar tudo o que é necessário e saudável para nós e, no fim, libertar-nos de toda tribulação, tanto temporal como espiritual? Com que finalidade ouviríamos a sua Palavra e creríamos nele? Em que fomos melhores quando gritamos e olhamos para ele em nossa angústia e necessidade, aguardamos com paciência o seu conforto e salvação, sua graça e benefícios, revelados em Cristo? Por que louvar e agradecer-lhe por eles? Por que estar diariamente em perigo, e permitir-nos que sejamos perseguidos e mortos por causa da Palavra de Cristo?

Considere que o eterno, misericordioso Deus, por meio de sua Palavra e Sacramento, nos fala e lida conosco, não de coisas temporais que pertencem a essa vida vã e que no princípio providenciou ricamente para nós. Nisso estão excluídas todas as outras criaturas. Considere, ainda, para onde iremos quando partirmos daqui. Deus nos dá o seu Filho para ser nosso Salvador, libertando-nos do pecado e da morte, e adquirindo-nos eterna justiça, vida e salvação. Portanto, está garantido que não morreremos assim como as bestas que não têm nenhuma compreensão. Muitos de nós, dormindo em Cristo, seremos ressuscitados por ele para a vida eterna no último dia, e os incrédulos para a destruição eterna (Jo 5; Dn 12).


XCIX
O mais aceitável serviço que podemos prestar e oferecer a Deus, e que ele espera de nós, apenas, é que ele seja adorado. Contudo, ele não é adorado, a menos que seja primeiro amado. Ele não é amado, antes que primeiro seja generoso e faça o bem. Ele faz o bem quando é gracioso. Ele é gracioso quando perdoa pecados. Agora, onde estão aqueles que o amam? Esses são aquele pequeno rebanho dos fiéis, que reconhecem essas bênçãos, e sabem que por meio de Cristo têm o perdão dos seus pecados. Os filhos desse mundo, porém, não se preocupam com isso. Eles servem ao seu ídolo, aquele mau e maldito Mammon. No fim, ele os recompensará.


C
Nosso amoroso Senhor Deus quer que nós comamos, bebamos e sejamos felizes fazendo uso de suas criaturas, pois para isso ele as criou. Ele não quer que nos queixemos como se ele não tivesse dado o suficiente, ou se ele não pudesse manter nossas pobres carcaças. Ele apenas requer de nós que o reconheçamos como nosso Deus e lhe sejamos gratos pelos seus dons.


CI
Aquele que não tem Deus, tenha ele o que quiser, é mais miserável do que Lázaro que, deitado junto ao portão do rico, morria de fome. Acontecerá com esse tal assim como aconteceu com o glutão que teve de passar fome e privação eterna e não terá sob seu poder nem mesmo uma gota d’água.


CII
De Abraão nasceram Isaque e Ismael. Dos patriarcas e dos santos pais procedem aqueles que crucificaram Cristo. Dos apóstolos surgiu Judas, o traidor. Da cidade de Alexandria (onde havia uma escola bela, ilustre e famosa, e de onde surgiram muitos homens justos e piedosos) provêm Ário e Orígenes. Da igreja Romana, que produziu muitos santos mártires, surgiu o blasfemo Anticristo, o papa de Roma. Dos santos homens na Arábia, veio Maomé. De Constantinopla, onde haviam muitos excelentes imperadores, apareceram os turcos. De mulheres casadas, apareceram as adúlteras, de virgens, as prostitutas. Dos irmãos, filhos e amigos, surgiram os mais cruéis inimigos. De anjos vieram os demônios; de reis, os tiranos. Do evangelho e verdade divina surgiram mentiras horríveis. Da igreja verdadeira surgiram os hereges. De Lutero, vieram os fanáticos, rebeldes e entusiastas. Não admira que o diabo está entre nós, procede de nós e sai de nós. Devem haver, realmente, muitas coisas más que não podem permanecer com tal bondade. E devem haver também muitas coisas boas que podem suportar essas coisas más.


CIII
Embora por causa do pecado original muitas bestas selvagens ferem a humanidade, como leões, lobos, ursos, cobras, víboras, etc., o misericordioso Deus, de tal maneira mitigou nossas bem merecidas punições, que existem muito mais bestas que nos servem para nosso bem e proveito, do que as que nos ferem. Há muito mais ovelhas do que lobos, mais bois do que leões, mais vacas do que ursos, mais cervos do que raposas, mais lagostas do que escorpiões, mais patos, gansos e galinhas do que corvos e papagaios, etc. Entre todas as criaturas, há mais boas do que más, mais benefícios do que feridas e empecilhos.


CIV
Deus que ter seus servos como pecadores arrependidos que tenham medo da sua ira, do diabo, da morte, do inferno e creiam em Cristo. Davi diz: "Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido." [Sl 34.18] E Isaías diz: "Onde repousará o meu Espírito, e onde habitará? Naqueles que são de espírito humilde e temem a minha Palavra". Assim acontece com o pobre pecador na cruz. Assim aconteceu com Pedro, quando negou Cristo; com Maria Madalena; com Paulo, perseguidor, etc. Todos esses estavam tristes por seus pecados e terão o perdão dos mesmos e serão servos de Deus.

Os grandes prelados, os santos ufanados, os ricos agiotas, os criadores de bois que buscam o lucro excessivo, etc., esses não são servos de Deus, nem seria bom que fossem. Pois, então, nenhuma pessoa pobre teria acesso a Deus por causa deles. Nem seria para a honra de Deus que esses seriam seus servos, pois atribuiriam a honra e o louvor para si mesmos.

No Antigo Testamento, todos os primogênitos eram consagrados a Deus, tanto dos seres humanos como também dos animais. O primogênito tinha uma vantagem sobre os seus irmãos; ele era seu senhor, o primeiro nas ofertas e riquezas, isto é, no governo espiritual e temporal, pois detinha o direito ao sacerdócio e ao domínio, etc. Todavia, há muitos exemplos nas Escrituras Sagradas em que Deus rejeitou o primogênito e escolheu o irmão mais novo, como Caim, Ismael, Esaú, Rubem, etc., tornando-se [o mais novo] o primogênito. Deus lhes tirou o seu direito e o deu ao irmão mais novo, como a Abel, Isaque, Jacó, Judá, Davi, etc. Isso, pelo seguinte motivo: eles eram soberbos, presunçosos, vangloriosos de sua primogenitura e desprezavam aos seus irmãos que eram muito melhores e mais piedosos do que eles. Isso Deus não poderia suportar. Por isso eles foram destituídos de suas honras, de modo que não poderiam mais orgulhar-se por serem os primeiros nascidos, embora fossem altamente considerados no mundo e dominassem sobre terras e pessoas.


CV
As Escrituras revelam dois tipos de sacrifícios agradáveis a Deus. O primeiro é o assim chamado sacrifício de ação de graças ou louvor. Este ocorre quando ensinamos e pregamos a Palavra de Deus puramente. Também, quando a ouvimos e recebemos com fé, quando a reconhecemos e fazemos tudo o que contribui para que seja amplamente semeada. Ainda, quando damos graças a Deus de coração por seus benefícios indescritíveis que por meio da sua Palavra são colocados diante de nós e nos são concedidos em Cristo. Igualmente, quando o louvamos e glorificamos, etc., "Oferece a Deus sacrifício de ações de graças" [Sl 50.14]. "O que me oferece sacrifício de ações de graças, esse me glorificará" [Sl 50.23]. "Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre." [Sl 118.1]. "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios." [Sl 103.1-2]

O segundo tipo de sacrifício agradável a Deus ocorre quando um coração triste e atribulado por todo tipo de tentações se refugia em Deus, o invoca com fé verdadeira e correta, busca o auxílio dele e pacientemente espera nele. Acerca disto, os Salmos dizem: "Na minha angústia, clamo ao SENHOR, e ele me ouve." [Sl 120.1]. "Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido." [Sl 34.18]. "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus." [Sl 51.17]. E ainda, "invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás." [Sl 50.15].


Fonte: Portal Luterano




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Desde 03 de Agosto de 2008