A Santíssima Trindade (Parte 2) - A Formulação Histórica da Doutrina
Embora Calvino estivesse falando de outro assunto doutrinário, sua advertência é igualmente aplicável à fórmulação trinitariana: "Se alguém, sem muita autoconfiança, tentar desvendar os seus mistérios, não conseguirá satisfazer a sua curiosidade, e entrará num labirinto do qual não achará nenhuma saída".

De fato, a formulação histórica da doutrina da Trindade é apropriadamente caracterizada como um labirinto terminológico, no qual muitos caminhos levam a becos sem saída, a heresias.

Os quatro primeiros séculos da Igreja Cristã eram dominados por um único tema: o conceito cristológico de Logos. Esse conceito é exclusivamente joanino, e se acha no prólogo do Evangelho de João e na sua Primeira Epístola. A controvérsia eclesiástica daqueles tempos focalizava-se na pergunta: "O que João quer dizer com seu uso da palavra Logos?" A controvérsia antigiu seu auge no século IV, no Concílio de Nicéia (325 d.C.).

No século II, os pais apostólicos tinham uma cristologia pouco desenvolvida. O relacionamento entre as duas naturezas de Cristo, a humana e a divina, não é claramente articulado nas suas obras. A doutrina da Trindade aparece de forma subentendida nos seus tratados de cristologia, porém não explícita.

Os grandes defensores da fé que havia na Igreja Primitiva (Irineu, Justino Mártir) referiam-se a Cristo como o Logos eterno. Nessa época, porém, o conceito do Logos parece ter sido entendido como um poder ou atributo eterno de Deus que, de alguma maneira, inexplicável, habita em Cristo. Um conceito de Logos eternamente pessoal, em íntima relação com o Pai, ainda não havia sido definido ainda.


Irineu Contra os Gnósticos
Entramos no labirinto eclesiástico do desenvolvimento histórico da teologia trinitariana, seguindo nos passos de Irineu. Ele era bispo de Lião, na Gália, e discípulo de Policarpo que, por sua vez, era discípulo do apóstolo João. Em Irineu, portanto, temos um vínculo direto com a doutrina apostólica.

Irineu começou a participar de debates teológicos em fins do século II. É mais conhecido por causa dos seus argumentos contra os gnósticos. Sua grande obra, Contra Heresias, tem sido uma fonte primária de defesa contra as influências espiritualmente malogradas do gnosticismo.

Irineu encaminhou a Igreja, positivamente, ao declarar a unicidade de Deus, que é o Criador dos céus e da terra. Seu compromisso com o monoteísmo protegeu a Igreja contra o perigo do politeísmo, que levaria a um beco sem saída. Irineu também foi cauteloso no que se refere à especulação gnóstica quanto à maneira de o Filho ter sido gerado pelo Pai.

Os gnósticos especulavam continuamente a respeito da natureza de Cristo e da sua relação com o Pai. Alguns gnósticos classificavam Cristo no seu panteão de eões (intermediários espirituais entre a Mente Divina e a Terra), e nisto, trivializavam a sua divindade. Outros (docetistas) negavam a plena humanidade de Cristo, insistindo que Ele não poderia ter se encarnado (apenas parecia ser um homem) e sofrer e morrer na Cruz (cf. Jo 1.14; Hb 2.14; 1 Jo 4.2,3).

Irineu resistia fervorosamente os ensinos dos gnósticos, mediante uma cristologia desenvolvida de modo impressionante, enfatizando tanto a plena humanidade de Jesus Cristo, quanto a sua plena divindade. Na sua defesa da cristologia, Irineu respondeu aos gnósticos com duas frases cruciais que posteriormente reapareceram em Calcedônia: "Filius dei filius hominis factus: (o Filho de Deus tornou-se filho do homem), e Jesus Christus vere homo, vere Deus: (Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus)".

Declarações assim exigiam um conceito pelo menos rudimentar no trinitariamos. De outra forma, a alternativa teria sido o diteísmo (dois deuses) ou o politeísmo (muitos deuses). Declara-se, todavia, que Irineu subentendeu um "trinitarianismo econômico". Noutras palavras: "Ele só lida com a divindade do Filho e do Espírito no contexto da sua revelação e atividade salvífica, ou seja: no contexto da 'economia' (plano) da salvação".


Tertuliano Contra Praxeas
Tertuliano, o "bispo pentecostal de Cartago" (160 - c. de 230), fez contribuições de valor inestimável para o desenvolvimento da ortodoxia trinitariana. Adolph von Harnack, por exemplo, insiste que foi Tertuliano que preparou o terreno para o desenvolvimento subseqüente da doutrina trinitariana ortodoxa.

O tratado de Tertuliano "Contra Praxeas", contém 50 páginas de polêmica vigorosa contra um certo Praxeas que, supostamente, introduziu em Roma a heresia do monarquianismo ou do patripassianismo. O monarquianismo ensina a existência de um só Monarca, que é Deus. Por conseguinte, é negada a plena divindade do Filho e do Espírito. No entanto, para preservar as doutrinas da salvação, os monarquianos chegaram à conclusão de que o Pai, como Deidade, foi crucificado pelos pecados do mundo. Essa é a heresia chamada patripassianismo. Por isso, segundo Tertuliano disse a respeito de Praxeas: "Ele tinha expelido a profecia e introduzido a heresia, tinha exilado o paracleto e crucificado o Pai".

Tertuliano informa-nos que, enquanto a heresia de Praxeas varria a Igreja, os crentes de uma forma geral continuavam vivendo na sua simplicidade doutrinária. Embora estivesse resoluto quanto a advertir a Igreja contra os perigos do monarquianismo, entrou na controvérsia em cima da hora, quando a heresia estava se tornando predominante no pensamento dos cristãos.

A tarefa de Tertuliano foi criar um meio por onde fluíssem as implicações inerentes da teologia trinitariana na consciência da Igreja. Embora Tertuliano seja tido como o primeiro erudito a empregar o termo "Trindade", não é correto dizer que ele "haja inventado" a doutrina, mas, que "escavou" na consciência da Igreja e retirou daí os pensamentos trinitarianos inerentes que já estavam presentes. B. B. Warfield comenta: "Tertuliano tinha de... estabelecer a divindade verdadeira e completa de Jesus... sem citar dois deuses... E considerando o sucesso que conseguiu nesse aspecto, deve ser reconhecido como o pai da doutrina eclesiástica da Trindade".

Tertuliano torna explícito o conceito de uma "Trindade econômica" (semelhante ao conceito de Irineu, mas com uma definição mais explícita). Enfatiza a unidade de Deus, ou seja: que existe uma só substância divina, um só poder divino - sem separação, divisão, dispersão ou diversidade - há, porém, uma distribuição entre as funções, uma distinção entre as Pessoas.


Orígenes e a Escola Alexandria
No século II a.C., Alexandria, no Egito, substituiu Atenas como o centro intelectual do mundo greco-romano. Posteriormente, academias cristãs floresceram nessa cidade. Alguns dos maiores estudiosos da Igreja antiga pertenciam à escola alexandrina.

A Igreja avançou ainda mais através do labirinto teológico da formulação doutrinária com o trabalho do célebre Orígenes (c. de 185-254). A explicação sobre a eternalidade do Logos pessoal foi feita pela primeira por Orígenes. Com ele, começou a emergir a doutrina ortodoxa da Trindade, embora não fosse cristalizada na sua formulação (progredindo do além do conceito "econômico" de Tertuliano) a não ser no começo do século IV no Concílio de Nicéia (325 d.C.).

Opondo-se aos monarquianos (também chamados unitarianos), Orígenes propôs sua doutrina da geração eterna do Filho (chamada filiação). Ligava essa geração à vontade do Pai, e assim subentendia a subordinação do Filho ao Pai. A conclusão da doutrina da filiação aconteceu não somente pelas designações "Pai" e "Filho", mas também pelo fato de o Filho ser chamado, de modo consistente, "o Unigênito" (Jo 1.14, 18; 3.16, 18; 1 Jo 4.9).

Segundo Orígenes, o Pai gera eternamente o Filho e, portanto, nunca está sem Ele. O Filho é Deus, porém Ele subsiste (segundo a linguagem teológica posterior, que se relaciona com a existência de Deus) como uma Pessoa distinta do Pai. O conceito oferecido por Orígenes da geração eterna preparou a Igreja para entender que a Trindade subsiste em três Pessoas em vez de consistir em três partes.

Orígenes deu expressão teológica ao relacionamento entre o Pai e o Filho (posteriormente afirmada no Concílio de Nicéia) como homoousios to patri: "de uma só substância [ou essência] com o Pai". O modo de entender a personalidade, essencial para a fórmula trinitariana ortodoxa, ainda era imprecisa. O termo latim persona, que significa "papel" ou "ator", não ajudava no esforço teológico de se entender o Pai, o Filho e o Espírito como três Pessoas, em vez de meros papéis diferentes de Deus. O conceito teológico de hipostases, ou seja: da distinção de Pessoas dentro da Deidade (em contraste com a unidade de substância ou de natureza dentro da Deidade, chamada "consubstancialidade" e que se relaciona com a homousia), permitiu a formulação paradoxal da teologia trinitariana.

A doutrina de Orígenes a respeito da geração eterna do FIlho era uma polêmica contra a noção de que houvera um tempo quando o Filho não existia. Seu conceito da "consubstancialidade" ressaltava a igualdade entre o Filho e o Pai. No entanto, surgiram dificuldades no pensamento de Orígenes por causa do conceito da subordinação apresentado na linguagem do Novo Testamento, e da idéia do papel de submissão do Filho em relação ao Pai, embora a plena divindade do Filho fosse ainda mantida. O que é crítico para a nossa compreensão "é entender a subordinação no sentido de que podemos chamar de econômico", e não num sentido que se relacione com a natureza da própria existência de Deus. Por isso: "O Filho submete-se à vontade do Pai e executa o seu plano (oikonomia), mas não é por isso inferior ao Pai na sua natureza".

Orígenes era inconsistente na sua formulação do relacionamento entre o Pai e o Filho, e às vezes apresentava o Filho como um tipo de deidade de segunda categoria, distinto do Pai quanto à sua Pessoa, mas inferior a Ele quanto à existência. Orígenes ensinava essencialmente que o Filho devia a sua existência à vontade do Pai. Essa ocilação no tocante ao conceito do subordinacionismo provocou uma reação maciça dos monarquianos.


O Monarquianismo Dinâmico: A Primeira Tentativa Fracassada
Os monarquianos procuravam preservar o conceito da unicidade de Deus - a monarquia do monoteísmo. Focalizavam a eternidade de Deus como o único Senhor, ou Soberano, em relação à sua criação.

O monarquianismo apareceu em dois tipos diferentes: Dinâmico e Modalístico. O Monarquianismo Dinâmico (também chamado Monarquianismo Ebionita, Monarquianismo Unitariano ou Monarquianismo Adocionista) antecedeu o Monarquianismo Modalístico.

O Monarquianismo Dinâmico negava qualquer noção de uma Trindade eternamente pessoal. A escola monarquiana dinâmica era representada pelos Alogi, homens que rejeitavam a cristologia do Logos. Os Alogi baseavam a sua cristologia exclusivamente nos Evangelhos Sinóticos, e repudiavam a cristologia do Evangelho de João, porque suspeitavam que havia concepções helenísticas no prólogo do seu Evangelho.

Os monarquianos dinâmicos argumentavam que Cristo não era Deus desde toda a eternidade, mas que se tornara Deus em certo momento do tempo. Embora existissem diferenças de opinião quanto ao momento exato determinado para a deificação do Filho, a opinião generalizada era que a exaltação do Filho ocorreu no seu batismo quando, então, foi ungido pelo Espírito. Cristo, pois, mediante a sua obediência, tornou-se o divino Filho de Deus. Cristo era considerado o Filho adotivo de Deus ao invés de ser tido como o eterno Filho de Deus.

O Monarquianismo Dinâmico também ensinava que Cristo foi exaltado progressivamente, ou dinamicamente, à condição de Deidade. O relacionamento entre o Pai e o Filho era percebido não em termos da sua natureza e existência, mas em termos morais. Ou seja: não se considerava que o Filho possuísse igualdade de natureza com o Pai (homoousios: homo significa "idêntico" e ousios significa "essência"). Os monarquianos dinâmicos postulavam que entre Jesus e os propósitos de Deus existe um relacionamento meramente moral.

Um dos defensores antigos do Monarquianismo Dinâmico era o bispo de Antioquia no século III, Paulo de Samosata. Surgiu um grande debate entre a Igreja Oriental e a Escola Antioquiana, de um lado, e a Igreja Ocidental e a Escola Alexandrina, de outro lado. O enfoque do debate era o relacionamento entre o Logos e o homem Jesus.

Harold O. J. Brown observa que "a forma que o adocionismo do Monarquianismo Dinâmico encontrou para conservar a unidade da Deidade foi sacrificando a divindade de Cristo". O Monarquianismo Dinâmico é, portanto, uma tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário, que termina num beco sem saída, em uma heresia.

Paulo de Samosata teve Luciano como sucessor no Monarquianismo Dinâmico. O aluno mais destacado de Luciano era Ário. Este estava por trás da controvérsia ariana que resultou na convocação dos bispos em Nicéia e na elaboração do famoso Credo Trinitariano (325 d.C.). Antes, porém, de considerarmos o Arianismo, examinemos o segundo tipo de Monarquianismo: o Modalismo.


O Monarquianismo Modalístico: A Segunda Tentativa Fracassada
As influências principais que estavam por trás do Monarquianismo Modalístico eram o gnosticismo e o neoplatonismo. Os monarquianismos modalísticos concebiam o Universo como uma unidade, todo organizado, manifestado numa hierarquia de modos. Os modos (assemelhados a círculos concêntricos) eram considerados vários níveis de manifestações de realidade que emanavam de Deus, "O Único" que existe como "existência pura", como o Ser Supremo no ponto mais alto da escala Hierárquica (influência neoplatônica).

Os monarquianos modalísticos ensinavam que a realidade diminuía-se à medida que uma emanação se distanciava de "O Único". Por isso, a categoria mais baixa da existência seria a matéria física do universo. Embora a matéria ainda fosse considerada parte de "O Único", do qual emana, os modalistas consideravam que ela existia numa forma inferior (influência gnóstica). Pela proposição inversa, pensava-se que a realidade aumentava, ao progredir em direção a "O Único" (também chamado a Mente Divina).

É fácil ver as implicações panteísticas desse conceito da realidade, posto que tudo quanto existe, supostamente tem sua origem nas emanações (modos ou níveis da realidade) da essência do próprio Deus. Alguns modalistas empregavam uma analogia do sol e dos seus raios. O raios solares são da mesma essência do sol, mas não são o sol. Os modalistas supunham que, quanto mais longe os raios ficam do sol, tanto menos são pura luz solar, e que embora os raios participem da mesma essência do sol, são inferiores a este, sendo meras projeções dele.

A aplicação cristológica dessa cosmovisão identificava Jesus como uma emanação de primeira ordem da parte do Pai, reduzindo-o a um nível abaixo do Pai no tocante à natureza de sua existência ou essência. Embora Jesus fosse considerado a mais sublime ordem de existência à parte de "O Único, Ele não deixava de ser inferior a ele, e dependia dele quanto à sua existência, embora fosse superior aos anjos e à raça humana".

Sabélio (século III) era o maior defensor do monarquianismo modalístico, e o responsável pelo seu maior impacto sobre a Igreja. Originando-se nele a analogia do sol e dos seus raios, negou ser Jesus deidade no mesmo sentido eterno que o Pai o é. Essa idéia levou ao termo teológico homoiousios. O prefixo homoi, significa "semelhante", e a raiz, ousios, significa "essência". Sabélio, portanto, argumentava que a natureza do Filho era apenas semelhante à do Pai; não era portanto idêntica à do Pai.

Sabélio foi condenado como herege em 268, no Concílio de Antioquia. A diferença entre homo ("idêntico") e homoi ("semelhante") talvez pareça trivial, mas a letra "i" é a diferença fundamental entre as implicações panteísticas do sabelianismo (confundir Deus com a sua criação) e a plena divindade de Jesus Cristo, à parte da qual ficariam grandemente prejudicadas as doutrinas da salvação. O Monarquianismo Modalístico, ao abandonar a plena Divindade e Personalidade de Cristo e do Espírito Santo, foi também uma tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário.


Arianismo: A Terceira Tentativa Fracassada
Embora Ário fosse aluno de Luciano, e, portanto, participasse da linha do Monarquianismo Dinâmico proclamado por Paulo de Samosata, foi além deles na complexidade teológica. Foi criado em Alexandria, onde também foi ordenado presbítero pouco depois de 311, apesar de ser um discípulo da tradição antioquiana. Nos meados de 318, despertou a atenção de Alexandre, o novo arcebispo de Alexandria. Este excomungou em 321 por causa de suas opiniões heréticas a respeito da Pessoa, da natureza e obra de Jesus Cristo.

Ário esforçou-se por ser restaurado à igreja, não por arrependimento, mas a fim de que suas opiniões a respeito de Cristo se tornassem a teologia oficial da Igreja. Nesse esforço, procurou a ajuda de alguns dos seus amigos mais influentes, inclusive Eusébio de Nicomédia e o renomado historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia, bem como vários bispos asiáticos. Continuou ensinando sem a aprovação de Alexandre. Suas especulações provocaram muitos debates e confusão na Igreja.

Pouco depois da excomunhão de Ário, Constantino passou a ser o único imperador de todo o império romano. Constantino ficou muito desgostoso ao descobrir que a Igreja estava vivendo tamanho caos devido a controvérsia ariana que, inclusive, ameaçava a estabilidade política e religiosa do império. Apressou-se então por convocar o primeiro concílio ecumênico, o Concílio de Nicéia, em 325.

Ário ressaltava que Deus Pai é o único Monarca e, portanto, que só Ele é eterno. Deus é "ingênito", ao passo que tudo o mais, inclusive Cristo, é "gerado" Ário asseverava, incorretamente, que a idéia de ser "gerado" transmite o conceito de ter sido criado. Ao mesmo tempo, deu-se ao trabalho de separar-se das implicações panteísticas da heresia sabeliana, ao insistir que Deus não tinha nenhuma necessidade interna de criar. Desse, também, que Deus criou uma substância (lat. substantia) independente, que Ele empregou para criar todas as demais coisas. Essa substância independente, primeiramente criada por Deus, acima de todas as outras coisas, era o Filho.

Ário propôs que a icomparabilidade do Filho é limitada ao fato de ser a primeira e maior criação de Deus. A encarnação do Filho é concebida, no pensamento ariano, como a união entre a substância criada (o Logos) com um corpo humano. Ensinava que o Logos ocupava o lugar da alma dentro do corpo humano de Jesus de Nazaré.

Harnack tem razão ao observar que Ário "é monteísta rigoroso somente no que diz respeito à cosmologia; como teólogo é politeísta". Ário, noutras palavras, na cosmologia reconhecia uma única Pessoa, que é Deus; mas na prática, estendia a adoração (reservada para Deus somente) a Cristo, o mesmo Cristo que declarara (em outro contexto) ter sido criado.

A cristologia de Ário reduzia Cristo a uma criatura e, como conseqüência, negava a obra salvífica do Filho de Deus. Com isso, o arianismo foi também uma outra tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário. Pelo contrário, entrou por um corredor sem saída.


A Ortodoxia Trinitariana: Saindo do Labirinto
Trezentos bispos da Igreja Ocidental (alexandrina) e da Igreja Oriental (antioquiana) reuniram-se em Nicéia, no grande concílio ecumênico, que procuraria definir com precisão teológica a doutrina da Trindade. O propósito do concílio era tríplico: (1) esclarecer os termos usados para articular a doutrina trinitariana; (2) desmascarar e condenar os erros teológicos que estavam presentes em vários seguimentos da Igreja; e (3) elaborar um documento que estivesse em harmonia com os princípios bíblicos e as convicções compartilhadas pela Igreja.

O bispo Alexandre estava pronto para a luta contra Ário. Os arianos estavam confiantes de que seriam vitoriosos. Eusébio de Nicomédia preparou um documento, no qual continha o ponto de vista defendido pelos arianos, que foi, confiantemente, apresentado ainda no início do concílio. Por ter negado a divindade de Cristo, provocou a indignação da maioria dos presentes que, com firmeza, rejeitou o documento. Em seguida, Eusébio de Cesaréia (que não era ariano, embora fosse representante da Igreja Oriental) elaborou durante o debate um credo que se tornaria o modelo para o Credo de Nicéia.

O bispo Alexandre (e os alexandrinos em geral) ficou muito preocupado com as opiniões de Ário, pois elas poderiam afetar a salvação pessoal, caso Cristo não fosse plenamente Deus no mesmo sentido que o Pai o é. Para levar o homem à plena reconciliação com Deus, argumentava Alexandre, Cristo forçosamente tem de ser Deus.

O Bispo Alexandre reconhecia a linguagem da subordinação no Novo Testamento, especialmente as referências a Jesus como "Unigênito" do Pai. Indicava que o termo "gerado" deve ser entendido do ponto de vista judaico, pois os que empregavam o termo na Bíblia eram hebreus. O uso hebraico do termo visa ressaltar a preeminência de Cristo. Paulo fala nestes termos, empregando a palavra "primogênito" não com referência à origem de Cristo, mas aos efeitos salvíficos da sua obra de redenção (ver Cl 1.15,18).

Alexandre respondeu a Ário, argumentando de que a condição de o Filho ser o Unigênito é antecedida nas Escrituras, conforme mostra João 1.14 (o Filho é o Unigênito da parte do Pai), que indica que Ele compartilha da mesma natureza eterna de Deus (assim se harmoniza com a "geração eterna" do Filho, segundo Orígenes). Aos ouvidos de Ário, que não se retratou, isso soava como um reconhecimento de que Cristo fora criado. Estava se esforçando desesperadamente por livrar a teologia das implicações modalísticas que, segundo as palavras posteriormente atribuídas ao seu opositor principal, Atanásio, incorriam no perigo de "confundir as Pessoas entre si". Era, portanto, crucial fazer a distinção entre Cristo e o Pai.

O bispo Alexandre prosseguiu, declarando que Cristo é "gerado" pelo Pai, mas não no sentido de emanação ou criação. Teologicamente, o grande desafio da Igreja Ocidental era a explicação do conceito de homoousia sem cair na heresia modalística.

Atanásio geralmente recebe o crédito de ter sido o grande defensor da fé no Concílio de Nicéia. A parte maior da obra de Atanásio, porém, foi consumada depois desse grande concílio ecumênico.

Atanásio era inflexível, e embora deposto pelo Imperador em três ocasiões durante sua carreira eclesiástica, lutava com valentia em favor do conceito de Cristo ser da mesma essência (homoousios) que o Pai, e não meramente semelhante ao Pai quanto à sua essência (homoiousios). Durante o seu turno como bispo e defensor da ortodoxia (conforme revelou ser), era praticamente "Atanásio contra o mundo".

A escola alexandrina acabou triunfando sobre os arianos, e Ário voltou a ser condenado e excomungado. Na fórmula confessionária da doutrina da Trindade em Nicéia, Jesus Cristo é o "Filho Unigênito de Deus; gerado de seu Pai antes da fundação do mundo, Deus de Deus, Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus; gerado, não feito; consubstancial com o Pai".

Posteriormente, a Igreja viria a empregar o termo "proceder" em lugar de "geração" ou "gerado", com o propósito de expressar a subordinação salvífica do Filho ao Pai. O Filho procede do Pai. Um tipo de primazia ainda é atribuída ao Pai com relação ao Filho, mas essa primazia não é cronológica; o Filho sempre existiu como o Verbo. Mesmo assim, o Filho foi "gerado" pelo Pai ou "procedeu" do Pai, e não o Pai do Filho.

Esse "proceder" do Filho em relação ao Pai (já no século VIII, chamada "filiação") é entendido teologicamente como um ato necessário da vontade do Pai, de modo que fique impossível existir o conceito do Filho não provindo do Pai. Daí, a "procedência" do Filho estar eternamente no presente, um ato que perdura, nunca terminando. O Filho, portanto, é imutável (Ml 3.6). A filiação do Filho, certamente, não é no sentido de ter sido gerada outra pessoa com a sua divina essência, pois o Pai e o Filho são igualmente Deidade e, portanto, da mesma natureza indivisível. O Pai e o Filho (com o Espírito) existem juntos em subsistência pessoal (o Filho e o Espírito são pessoalmente distintos do Pai na sua existência eterna).

Embora a exposição das complexidades lingüísticas do Credo de Nicéia pareça frustrante para nós hoje, levando-se em conta a distância de 1600 anos, é importante considerarmos a necessidade crucial de se manter a fórmula paradoxal do Credo de Atanásio: "Um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade". A exatidão teológica é crítica, pois os termos ousia, hupostasis, substantia e subsistência nos oferecem um entendimento conceptual do que é a ortodoxia trinitariana, como no caso do Credo de Atanásio: "O Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus. E, porém, não são três deuses, mas um só Deus".

Entre 361-81, a ortodoxia trinitariana passou por mais refinamentos, mormente no tocante ao terceiro membro da Trindade, o Espírito Santo. Em 381, em Constantinopla, os bispos foram convocados pelo Imperador Teodócio, e as declarações da ortodoxia de Nicéia foram reafirmadas. Além disso, houve uma menção explícita do Espírito Santo em termos de deidade, como o "Senhor e Doador da vida, procedente do Pai e do Filho; o qual, com o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado; o qual falou pelos profetas".

O título "Senhor" (gr. kurios), empregado nas Escrituras em alguns textos para atribuir e explicitar a divindade, é destinado aqui (no Credo de Nicéia-Constantinopla) ao Espírito Santo. Logo, aquEle que procede do Pai e do Filho (Jo 15.26) subsiste pessoalmente desde a eternidade dentro da Deidade, sem divisão ou mudança quanto à sua natureza (Ele é essencialmente homoousios com o Pai e o Filho).

As propriedades pessoais (as operações interiores de cada Pessoa dentro da Deidade) atribuídas a cada um dos membros da Trindade são assim entendidas: o Pai é ingênito; o Filho é gerado; o Espírito Santo procede dEles. A insistência nessas propriedades pessoais não é tentar explicar a Trindade, mas fazer a distinção entre as fórmulas ortodoxas trinitarianas e as fórmulas heréticas modalísticas.

As distinções entre os membros da Deidade não se referem à sua essência ou substância, mas ao relacionamento. Noutras palavras: a ordem da existência na Trindade, no tocante ao ser essencial de Deus, está espelhada na Trindade salvífica: "São, portanto, três, não na posição, mas no grau; não na substância, mas na forma; não no poder, mas na sua manifestação".

O processo contínuo da pesquisa da natureza do Deus vivo cede lugar, a essa altura, à adoração. Juntamente com os apóstolos, os pais da Igreja, os mártires, e os maiores teólogos no decurso da história da Igreja, temos de reconhecer que "toda a boa teologia termina com uma doxologia" (cf. Rm 11.33-36). Considere esse hino clássico de Reginald Heber:

Santo! Santo! Santo! Deus Onipotente!
Tuas obras louvam teu nome com fervor;
Santo! Santo! Santo! Justo e compassivo!
És Deus triúno, excelso Criador!



Fonte: Teologia Sistemática, CPAD. Stanley M. Horton




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