A Santíssima Trindade (Parte 4, Final) - A Necessidade Teológica-Filosófica da Trindade
As propriedades (qualidades inerentes) eternas e a perfeição absoluta do Deus Trino e Uno são decisivas para o conceito cristão da soberania de Deus sobre a sua criação. Deus, sendo Trindade, é completo em si mesmo (soberano), e, conseqüentemente, a criação é um ato livre de Deus, e não uma ação necessária de sua existência. Por essa razão, "antes de 'no princípio' existia algo diferente de uma situação estática".

A fé cristã oferece uma revelação clara e compreensível de Deus, proveniente de fora da esfera do tempo, pois Deus, como Trindade, tem desfrutado de eterna comunhão e comunicação entre suas três Pessoas distintas. O conceito de um Deus pessoal e que se comunica, desde toda a eternidade, está arraigado na teologia trinitariana. Deus não existia em silêncio e de forma estática para então, certo dia, optar por romper a tranqüilidade daquele silêncio e falar. Pelo contrário: a comunhão eterna dentro da Trindade é essencial para o conceito da revelação. (A alternativa de um Ser divino solitário que murmura de si para si na sua solidão é um pouco inquietante.) O Deus Trino e Uno tem se revelado à humanidade, dentro da humanidade, de modo pessoal e proposicional.

A personalidade de Deus, como Trindade, também é a fonte e significado da personalidade humana. "Sem semelhante fonte", observa Francis Schaeffer, "sobra tão-somente para os homens uma personalidade que provém do impessoal (com o acréscimo do tempo e do acaso)".

Por toda a eternidade, o Pai amava o Filho, o Filho amava o Pai, e o Pai e o Filho amavam o Espírito. "Deus é amor" (1 Jo 4.16). Logo, o amor é um atributo eterno. Por definição, o amor é necessariamente compartilhado com outro, e o amor de Deus é um amor que fez que com Ele doasse a si mesmo. Por isso, o amor eterno dentro da Trindade outorga sentido real ao amor humano (1 Jo 4.17).


Excurso: O Pentecostalismo da Unicidade
No Acampamento de Reavivamento Mundial em Arroyo Seco, perto de Los Ângeles, em 1913, surgiu uma séria controvérsia. Durante um culto de batismo, o evangelista canadense R. E. McAlister argumentou que os apóstolos não invocavam o Nome trino e uno - Pai, Filho e Espírito Santo - no batismo, mas batizavam no nome de Jesus somente.

Durante a noite, John G. Schaeppe, um imigrante de Danzig, Alemanha, teve uma visão, e acordou o acampamento, gritando que o nome de Jesus precisava ser glorificado. A partir de então, Frank J. Ewart começou a ensinar que aqueles que tinham sido batizados segundo a fórmula trinitariana precisavam do novo batismo que invocava somente o nome de Jesus. Logo, outros começaram a espalhar a "nova questão". Juntamente com isso veio a aceitação de uma só Pessoa na Deidade, agindo em modos ou cargos diferentes. O reavivamento em Arroyo Seco acendera a centelha dessa nova questão.

Em outubro de 1916, o Concílio Geral das Assembléias de Deus foi convocado em St. Louis com o propósito de formar barricadas de defesa para proteger a ortodoxia trinitariana. Os representantes da Unicidade viram-se diante de uma maioria que lhes exigia que aceitassem a fórmula batismal trinitariana e a doutrina ortodoxa de Cristo, ou deixassem a comunhão. Cerca de um quarto dos ministros realmente se retirou. Mas as Assembléias de Deus estabeleceram-se na tradição doutrinária da "fé pregada pelos apóstolos, atestada pelos mártires, substanciada nos Credos, exposta pelos pais", ao lutar em favor da ortodoxia trinitariana.

Tipicamente, o Pentecostalismo da Unicidade declara: "Não cremos em três personalidades separadas na Deidade, mas cremos em três cargos preenchidos por uma só pessoa".

A doutrina da Unicidade (modalística) tem, portanto, o conceito de Deus como um só Monarca transcendente, cuja unidade numérica é rompida por três manifestações contínuas feitas à humanidade como Pai, Filho e Espírito Santo. As três faces do único Monarca são realmente imitações divinas de Jesus, a expressão pessoal de Deus mediante à sua encarnação. A idéia da personalidade exige, segundo os Pentecostais da Unicidade, corporalidade e, por essa razão, acusam os trinitarianos de adotar o triteísmo.

Pelo fato de Cristo ser "corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2.9), os Pentecostais da Unicidade argumentam que Ele é essencialmente a plenitude da Deidade indiferenciada. Noutras palavras: acreditam que a tríplice realidade de Deus é "três manifestações" do único Espírito habitando dentro da Pessoa de Jesus. Acreditam que Jesus é a personalidade única de Deus, cuja "essência é revelada como Pai no Filho e como Espírito através do Filho". Explicam, ainda, que a pantomia divina de Jesus é "cristocêntrica, porque Jesus, como ser humano, é o Filho, e que como Espírito (na sua divindade). Ele revela - e realmente é o Pai - e envia - e realmente é o Espírito Santo como o Espírito de Cristo que habita no cristão".

Já argumentamos que o sabelianismo do século III é herético. Na sua negação das distinções eternas entre as três Pessoas na Deidade, o Pentecostalismo da Unicidade acabou caindo no mesmo erro teológico do Modalismo clássico. A diferença, conforme foi declarado antes, é que os Pentecostais da Unicidade concebem a "trimanifestação" de Deus como simultânea em vez de sucessiva - sendo esta última a crença do modalismo clássico. Argumentam que, tendo por base Colossenses 2.9, o conceito da personalidade de Deus é reservado exclusivamente para a presença imanente e encarnada de Jesus. Por isso, os Pentecostais da Unicidade geralmente argumentam que a Deidade está em Jesus, mas que Jesus não está na Deidade.

Colossenses 2.9 afirma porém (conforme a Igreja formulou em Calcedônia em 451), que Jesus é a "plenitude da revelação da natureza de Deus" (theotêtos, divindade) mediante a sua encarnação. A totalidade da essência de Deus está encorporada em Cristo (Ele é plena deidade), embora as três Pessoas não estejam simultaneamente encarnadas em Jesus.

Embora os Pentecostais da Unicidade confessem a divindade de Jesus Cristo, o que eles realmente querem dizer é que Jesus, como o Pai, é deidade, e como o Filho, é humanidade. Ao argumentarem que o termo "Filho" deve ser entendido como a natureza humana de Jesus, e que o termo "Pai" é a designação da natureza divina de Cristo, imitam seus antecessores antitrinitários (há muito tempo falecidos) ao comprometerem as doutrinas da salvação.

É certo que Jesus declarou "Eu e o Pai somos um" (Jo 10.30). Mas isso não significa que Jesus e seu Pai sejam uma só Pessoa (conforme argumentam os Pentecostais da Unicidade), pois o numeral grego neutro hen ("um") é empregado pelo apóstolo João em vez do masculino heis. Logo, a referência é à união essencial, e não à identidade absoluta.

Conforme já foi declarado, a distinção tipo sujeito-objeto entre o Pai e o Filho é revelada com grande clareza nas Escrituras, quando Jesus, na sua agonia, ora ao Pai (Lc 22.42). Jesus também revela e defende a sua identidade ao apelar ao testemunho do Pai (Jo 5.31,32). Jesus declara de modo explícito: "Há outro [gr. allos] que testifica em mim" (v. 32). Aqui, o termo allos denota, mais uma vez, uma pessoa diferente daquela que está falando. Também em João 8.16-18, Jesus diz: "E, se, na verdade, julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só, mas eu e o Pai, que me enviou. E na vossa lei está também escrito que o testemunho de dois homens é verdadeiro. Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai, que me enviou". Aqui, Jesus cita o Antigo Testamento (Dt 17.6; 19.15) com o propósito de revelar, mais uma vez, a sua identidade messiânica (como sujeito), apelando ao testemunho do seu Pai (como objeto) a respeito do próprio Jesus. Insistir (como fazem os Pentecostais da Unicidade) que o Pai e o Filho são numericamente um só, serviria apenas para desacreditar o testemunho que Jesus deu de si mesmo como Messias.

Além disso, os Pentecostais da Unicidade ensinam que, para a pessoa ser verdadeiramente salva, é preciso que seja batizada "em nome de Jesus" somente. Com isso, dão a entender que os trinitarianos não são cristãos verdadeiros. Nisso, os Pentecostais da Unicidade incorrem no erro de colocar as obras como meio de salvação, contrariando o que a Bíblia diz: a salvação pela graça, mediante a fé somente (Ef 2.8,9). No Novo Testamento, encontramos por volta de 60 referências que falam da salvação pela graça, somente mediante a fé, independentemente do batismo nas águas. Se o batismo foi um meio necessário à nossa salvação, por que o Novo Testamento não enfatiza fortemente tal doutrina? Pelo contrário: vemos Paulo dizendo: "Cristo enviou-me não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo não se faça vã" (1 Co 1.17).

Deve ser mencionado, ainda que Atos dos Apóstolos não pretende preceituar uma fórmula batismal para ser utilizada pela Igreja, pois a frase "em nome de Jesus" não ocorre exatamente da mesma maneira duas vezes em Atos.

No sentido de reconciliar o mandamento de Jesus no sentido de batizar "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo" (Mt 28.19), com a declaração de Pedro: "cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo" (At 2.38), consideraremos três explicações possíveis.

1. Pedro desobedeceu ao mandamento claro do seu Senhor. Isso, obviamente, nem é uma explicação, e deve ser rejeitada por ser ridícula.

2. Jesus estava falando em termos ocultos, que exigiriam algum tipo de perspicácia mística antes de ser possível compreender seu sentido. Noutras palavras, Ele realmente estava nos mandando batizar somente em nome de Jesus, embora alguns não percebam esse significado velado de nosso Senhor. Não há, porém, a mínima justificativa para tirar tal conclusão. É contrária ao gênero específico de literatura bíblica envolvida (didádico-histórico) e também, pelo menos por implicação, à impecabilidade de nosso Senhor Jesus Cristo.

3. Uma explicação melhor é fundamentada na autoridade apostólica de Atos, no que diz respeito às credenciais ministeriais dos apóstolos. Quando a frase "em nome de Jesus Cristo" é invocada pelos apóstolos em Atos, significa "com a autoridade de Jesus Cristo" (cf. Mt 28.18). Por exemplo: em Atos 3.6 os apóstolos curam mediante a autoridade do nome de Jesus Cristo. Em Atos 4, os apóstolos são convocados para serem interrogados a respeito das obras poderosas que faziam: "Com que poder ou em nome de quem fizestes isso?" (v. 7). O apóstolo Pedro, cheio do Espírito Santo, adiantou-se e proclamou corajosamente: "Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dos mortos, em nome desse é que este está são diante de vós" (v. 10). Em Atos 16.18, o apóstolo Paulo libertou, "em nome de Jesus Cristo", uma jovem da possessão demoníaca.

Os apóstolos estavam batizando, curando, libertando e pregando, mediante a autoridade de Jesus Cristo. Conforme escreveu Paulo: "E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai" (Cl 3.17). Concluímos, portanto, que a declaração apostólica "em nome de Jesus Cristo" equivale a dizer: "pela autoridade de Jesus Cristo". Não existe, portanto, nenhum motivo para acreditar que os apóstolos fossem desobedientes ao imperativo do Senhor, que mandou batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19), ou que Jesus estava usando linguagem oculta. Pelo contrário: no próprio livro de Atos, os apóstolos batizavam pela autoridade de Jesus Cristo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A doutrina da Trindade é o caráter distintivo da revelação que Deus fez de si mesmo nas Sagradas Escrituras. Fiquemos, pois, firmes em nossa confissão de um só Deus, "eternamente existente em si mesmo... como Pai, Filho e Espírito Santo".


Fonte: Teologia Sistemática, CPAD. Stanley M. Horton




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